O fotógrafo Eduardo Issa garante que é o primeiro brasileiro a visitar e registrar todos os 62 parques nacionais do país. Durante esta aventura, que já dura quase cinco anos, Eduardo passou por situações inusitadas e arriscadas. Numa delas, confundido por integrantes do Movimento Sem Terra com um “espião do governo”, ficou preso com uma faca na barriga. “Eles diziam que iam me matar”, revela.
Prisioneiro do MST, refém de índios, fugitivo de conflitos no Araguaia. As peripécias vividas por Eduardo dão muitos roteiros para o cinema. Quem mais, numa só encarnação, filmou uma sucuri cara a cara num rio, a apenas três metros de distância, e dirigiu sem mapas pelas estradas de terra desertas da Guiana Inglesa e do Suriname?

Paulista de Guaratinguetá, Issa tem 42 anos e trabalha como colaborador de revistas como National Geographic, Horizonte Geográfico, Terra, entre outras. Também desenvolve trabalhos em vídeo para programas de TV ligados à natureza, ecologia e aventura.

Conheci Eduardo Issa por acaso. Era agosto de 2005. Eu estava em Lençóis, na chapada diamantina, quando vi passar o trailer escrito: “expedição parques nacionais”. Segui o carro e fui bisbilhotando os hotéis até revê-lo.
Eduardo gentilmente respondeu a todas as perguntas daquele estranho muito curioso. Explicou que já tinha estado Parque da Chapada Diamantina, mas retornava para fotografar o sol entrando no Poço Encantado, o que só acontece num período específico do ano. “Uma visão inesquecível”, disse, na época.
Ao assumir o Blog das Ruas, lembrei imediatamente da história de Eduardo Issa: “taí um cara que conhece o Brasil profundo”. Agora, após muitas ligações perdidas, celulares fora de área e períodos sem comunicação, vocês podem ler uma entrevista com este aventureiro.

Quando e porque você decidiu realizar esse projeto? Quanto tempo ele vai durar?
Inicialmente elaborei um projeto de cruzar as Américas neste motorhome, indo de Ushuaia ao Alaska (ainda não desisti!).
Depois de enviar o projeto para várias empresas brasileiras em busca de patrocínio não obtive retorno. Decidi assim nacionalizar o projeto e como já desenvolvia trabalhos ligados à natureza e preservação, elaborando reportagens para revistas do segmento, montei este projeto de registro de imagens de todos os parques nacionais brasileiros.
Quantos Parques Nacionais brasileiros você fotografou? Quando você conclui o projeto?
O tempo total é de cinco anos. O projeto inicial era registrar 52 Parques Nacionais, este foi o número de unidades criadas oficialmente até março de 2003.
Após pegar a estrada, outros parques foram sendo criados e, em 2008, o total de parques chegou a 62. Já passei por 60 parques e até maio de 2008 concluo todos.
Quais foram os lugares mais interessantes da expedição?
Difícil eleger os lugares mais interessantes, pois cada parque apresenta um tipo de ecossistema e a diversidade é enorme. Algumas paisagens me deixaram realmente perplexo. Uma delas foi o Monte Roraima, na fronteira entre Brasil e Venezuela. A Serra das Confusões no Piauí e os Lençóis Maranhenses, no Maranhão também são únicos e deslumbrantes.

"Em solo brasileiro, a mais bela vista
do Roraima e Roraiminha"
Que lugar um brasileiro não pode morrer sem conhecer?
Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, em Pernambuco, na minha opinião um dos lugares mais belos do Brasil.

"A vista do Morro do Pico, a melhor da ilha"
Fotografou em algum lugar perigoso?
Vários locais foram recheados de perigo e tensão, posso citar alguns como o Parque Nacional dos Pontões Capixabas, no norte do Espírito Santo, onde há um grande conflito com os moradores da área do parque. Fiquei com uma arma na cabeça por alguns minutos e depois fui liberado.
Para ir ao Araguaia (TO) já foi uma operação delicada. Cheguei na área do parque como “observador de pássaros”, pois como IBAMA seria impossível adentrar a área após tantos conflitos.
Os índios invadiram as instalações do parque, destruíram tudo, roubaram os equipamentos e ainda pegaram 4 veículos do parque. A situação estava bem crítica.
Mesmo assim, eu precisava fazer imagens da área do parque e enfrentei o risco, sabendo que poderia ter que sair da área a qualquer momento. Foi o que aconteceu: após sermos descobertos, partimos de madrugada, de barco, antes que a situação ficasse irreversível.
Quais as situações mais difíceis que você passou?
Passar a noite amarrado, refém de índios da etnia Raposa Serra do Sol em Roraima e ficar preso por membros do MST no Paraná, onde fiquei com uma faca na barriga, eles dizendo que iriam me matar, achando que eu era espião do governo.
Como isso aconteceu?
Era um protesto no pedágio de uma estrada do Paraná. Tinha muita gente do MST, mais de mil pessoas. Meu carro tava na fila. Já que estava parado ali, impossibilitado de passar, como jornalista fui fazer imagens da paralisação. Fui me aproximando com as câmeras na mão e uns caras me pegaram por trás. “O que você tá fazendo aqui?”, um deles disse. “Leva ele para lá”. Aí me levaram para um canto e fiquei retido por alguns minutos.
Diziam que eu ia levar aquelas fotos para o governo, que eu era um espião. E eu dizia: “Olha, esse material é meu mesmo, vocês estão me confundindo. Estou fotografando os parques nacionais - olha lá o meu carro”. Dizia até que apoiava o movimento.
Um deles mandou o outro ver se “o carro dele mesmo”. A essa altura eu já estava com a faca em minha barriga e outro deles dizia: “Esse cara tá muito suspeito. Vamos matar ele”.
Tinham acabado de matar um fotógrafo no acampamento em são Bernardo. Como já tinha rolado uma cabeça, a minha apreensão foi muito maior! Até que o homem que tinha ido ver meu carro conferiu a placa, viu que tudo que eu tinha dito conferia e eles me liberaram. Ufa!
Fotos: Eduardo Issa/ divulgação
(continua abaixo)
criado por Iuri Rubim