Terra Magazine

18 de agosto de 2009

Paraty, onde “nunca se fabricou cachaça”, realiza 27º Festival da Pinga

Conhecida internacionalmente pela produção de pinga de alta qualidade, Paraty promove, entre 20 e 23 deste mês, o 27º Festival da Pinga.

Criado pela Associação Comercial de Paraty, em 1983, o Festival acontece regularmente há 27 anos, sempre no terceiro fim de semana de agosto.

Curiosamente, conta-se na cidade que ninguém lá produz – nem nunca produziu – cachaça. A explicação para este aparente paradoxo é uma diferenciação pouco usual entre cachaça e pinga.

Embora se considere em geral que pinga é o nome vulgar da cachaça, produtores de Paraty batem o pé que existe – e muita – diferença.

Segundo eles, cachaça seria a aguardente destilada a partir da borra ou do melaço, isto é, das sobras da fabricação do açúcar, enquanto pinga seria aquela fabricada a partir da garapa: caldo de cana fermentado e destilado depois da fervura e da evaporação que “pinga” na bica do alambique.

Paraty recebe o 27º Festival da Pinga

Paraty recebe o 27º Festival da Pinga

Realidade ou preciosismo, o fato é que diversos especialistas consideram as pingas de Paraty – algumas já chamadas de “cachaça” – como as melhores do Brasil.

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É provável que a produção de pinga na cidade tenha pelo menos 400 anos de história. Muitos registros – inclusive o do navegador francês Pyrard de Layal, em 1610 – falam da produção, no Brasil, de um “vinho feito com suco de cana” comercializado bem barato e consumido por escravos e nativos da região.

Esse longo histórico de produção da bebida atingiu o auge no final do século XVII, quando havia na cidade mais de 150 engenhos em pleno funcionamento.

Tamanha foi a associação que Paraty passou a ser sinônimo de pinga (e cachaça), como mostra esse trecho de “Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto:

“Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou a pequena garrafa de cristal e serviu dois cálices de paraty.”

O sambista Assis Valente, cantado por Carmen Miranda, também fez menção ao saboroso líquido, em 1935:

“Vestiu uma camisa listrada
e saiu por aí.
Em vez de tomar chá com torrada,
ele bebeu parati.”

O Festival da Pinga de Paraty associa a degustação do famoso líquido com atrações gastronômicas, musicais, infantis e folclóricas.

Durantes esses quatro dias, danças folclóricas, apresentações de Jongo e Maracatu dividem as atenções com artistas consagrados, como Almir Sater e Antônio Nóbrega.

Em 2009, a festa tem a participação dos sete alambiques tradicionais da cidade, abertos à visitação pública. As pingas Coqueiro, Corisco, Maré Cheia, Maria Izabel, Paratiana, Murycana e Engenho D’Ouro são fabricadas até hoje de modo artesanal, em dornas de carvalho, com fogo à lenha e alambiques de cobre.

Nesta edição ocorre também o lançamento de um novo rótulo: a Cachaça Mulatinha, lançamento do alambique Paratiana.

Mais do que em qualquer outro, no Festival da Pinga o estômago precisa ser bem tratado. Por isso, o cardápio do evento oferece pratos típicos que podem ser harmonizados com pingas dos produtores locais, como a comida de tropeiro, frutos do mar e o camarão casadinho. É comum os visitantes ganharem como brinde garrafas em miniatura.

Na quinta e na sexta-feira, um desfile temático celebra ao Dia do Caminho do Ouro (21 de agosto). Nas ruas do Centro Histórico de Paraty são encenados os tempos de engenho, escravos e tropeiros, ao som das marchinhas da banda local Santa Cecília. Durante o desfile, melados e pedacinhos de cana de açúcar são distribuídos para os visitantes degustarem.

(fotos: reprodução)

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