Paraty, onde “nunca se fabricou cachaça”, realiza 27º Festival da Pinga
Conhecida internacionalmente pela produção de pinga de alta qualidade, Paraty promove, entre 20 e 23 deste mês, o 27º Festival da Pinga.
Criado pela Associação Comercial de Paraty, em 1983, o Festival acontece regularmente há 27 anos, sempre no terceiro fim de semana de agosto.
Curiosamente, conta-se na cidade que ninguém lá produz – nem nunca produziu – cachaça. A explicação para este aparente paradoxo é uma diferenciação pouco usual entre cachaça e pinga.
Embora se considere em geral que pinga é o nome vulgar da cachaça, produtores de Paraty batem o pé que existe – e muita – diferença.
Segundo eles, cachaça seria a aguardente destilada a partir da borra ou do melaço, isto é, das sobras da fabricação do açúcar, enquanto pinga seria aquela fabricada a partir da garapa: caldo de cana fermentado e destilado depois da fervura e da evaporação que “pinga” na bica do alambique.
Realidade ou preciosismo, o fato é que diversos especialistas consideram as pingas de Paraty – algumas já chamadas de “cachaça” – como as melhores do Brasil.
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É provável que a produção de pinga na cidade tenha pelo menos 400 anos de história. Muitos registros – inclusive o do navegador francês Pyrard de Layal, em 1610 – falam da produção, no Brasil, de um “vinho feito com suco de cana” comercializado bem barato e consumido por escravos e nativos da região.
Esse longo histórico de produção da bebida atingiu o auge no final do século XVII, quando havia na cidade mais de 150 engenhos em pleno funcionamento.
Tamanha foi a associação que Paraty passou a ser sinônimo de pinga (e cachaça), como mostra esse trecho de “Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto:
“Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou a pequena garrafa de cristal e serviu dois cálices de paraty.”
O sambista Assis Valente, cantado por Carmen Miranda, também fez menção ao saboroso líquido, em 1935:
“Vestiu uma camisa listrada
e saiu por aí.
Em vez de tomar chá com torrada,
ele bebeu parati.”
O Festival da Pinga de Paraty associa a degustação do famoso líquido com atrações gastronômicas, musicais, infantis e folclóricas.
Durantes esses quatro dias, danças folclóricas, apresentações de Jongo e Maracatu dividem as atenções com artistas consagrados, como Almir Sater e Antônio Nóbrega.
Em 2009, a festa tem a participação dos sete alambiques tradicionais da cidade, abertos à visitação pública. As pingas Coqueiro, Corisco, Maré Cheia, Maria Izabel, Paratiana, Murycana e Engenho D’Ouro são fabricadas até hoje de modo artesanal, em dornas de carvalho, com fogo à lenha e alambiques de cobre.
Nesta edição ocorre também o lançamento de um novo rótulo: a Cachaça Mulatinha, lançamento do alambique Paratiana.
Mais do que em qualquer outro, no Festival da Pinga o estômago precisa ser bem tratado. Por isso, o cardápio do evento oferece pratos típicos que podem ser harmonizados com pingas dos produtores locais, como a comida de tropeiro, frutos do mar e o camarão casadinho. É comum os visitantes ganharem como brinde garrafas em miniatura.
Na quinta e na sexta-feira, um desfile temático celebra ao Dia do Caminho do Ouro (21 de agosto). Nas ruas do Centro Histórico de Paraty são encenados os tempos de engenho, escravos e tropeiros, ao som das marchinhas da banda local Santa Cecília. Durante o desfile, melados e pedacinhos de cana de açúcar são distribuídos para os visitantes degustarem.
(fotos: reprodução)

