
Pelo décimo ano consecutivo, a capital mineira recebe o Festival Internacional de Teatro de Bonecos, que começa hoje e vai até o dia 14 de junho, ocupando vários espaços da cidade e mobilizando cerca de 20 mil pessoas.
O Festival já foi incorporado ao calendário oficial de Belo Horizonte, considerada a cidade brasileira que melhor acolhe - e onde é mais desenvolvida - essa arte milenar.
Tradicionalmente, o Festival reúne talentos nacionais e internacionais da manipulação de objetos. Nesta edição, dez representantes da arte (seis nacionais e quatro estrangeiros) foram convidados a participar. O número de atrações é menor do que os anos anteriores. Culpa, mais uma vez, da crise financeira internacional.
- Fomos pegos de surpresa pela crise econômica mundial. O Festival quase não sai, mas não poderíamos deixar de celebrar o nosso décimo aniversário: fizemos na raça. Ficou uma edição um pouco mais enxuta, só que sem abrir mão da qualidade técnica - conta Adriana Focas, uma das organizadoras do evento.

Teatro de sombras está presente com força no Festival
Ainda que as atrações não sejam tantas quanto o público de BH está acostumado e com apenas R$ 215 mil de patrocínio, o Festival oferece uma programação com bela diversidade de técnicas de manipulação, permitindo aos mineiros estar em contato com a vanguarda do teatro de bonecos.
- O teatro de bonecos tem assumido nova personalidade, incorporado outras linguagens, como sombras, projeções e dança. Estamos trazendo, por exemplo, um grupo de vanguarda da Finlândia, que mistura teatro de objetos e circo. Na verdade, “Teatro de Bonecos” é meio redutor. Deveria se chamar “teatro de animação ou de formas animadas”. Afinal, interessa qualquer objeto que você consiga dar uma alma - argumenta Adriana Focas.
As atrações incluem também o teatro de sombras (”Pépé e Estella”, Cia Gioco Vitta - Itália) e interação entre o ator e bonecos em tamanho natural (”Don Juan, O Memoria Amarga de Mí”, Cia Pelmànec - Espanha).

Belo Horizonte é a "capital do teatro de bonecos" no país
Já um grupo da Alemanha, a Cia Erfreuliches Theater Erfurt, faz um espetáculo infantil (”Adieu, Benjamin”) que gira em que torno da morte de um menino, tema considerado tabu.
- Aqui eu coloquei uma recomendação para que o espetáculo fosse assistido por pessoas acima de nove anos. Na Alemanha é infantil, mas nunca vi esse tema ser tratado no Brasil - comenta a organizadora do Festival.
Essa mesma companhia faz outra apresentação (”Rainha das cores”), na qual um desenho animado é produzido ao vivo.

Teatro de bonecos superou o preconceito e não é mais considerado "coisa de criança"
Isso tudo sem contar as montagens nacionais, também com linguagens mescladas, como Companhia PeQuod, no seu “Chegada de Lampião ao Inferno”.
Por conta da redução de custos, nesta edição acontece apenas uma montagem de rua, com entrada franca: “O Romance do Vaqueiro Benedito”, da Cia Mamulengo Presepada, que acaba de retornar de turnê em Portugal. A Presepada é uma das representantes do tradicional mamulengo no evento.
- Sabia que os mamulengos são mais valorizados lá fora do que aqui? São extremamente valorizados na Europa, muito mais do que Brasil, por incrível que pareça. Os poucos mamulengueiros que sobraram aqui não ganham bem, não têm o reconhecimento que merecem - alfineta a organizadora do Festival.

Apesar de ocuparem imaginário popular brasileiro, os mamulengos são mais valorizados fora do país
Além dos espetáculos, acontece o evento organiza a exposição Bonecos de Minas, com mais de 40 bonecos de 16 companhias do Estado. São marionetes, fantoches, tringles, títeres de manipulação direta sobre balcão, sombras, bonecos gigantes, mecanismos e estéticas variadas, todos feitos por mãos mineiras. A exposição, cuja entrada também é gratuita, teve início esta manhã e abriu oficialmente o Festival.
Formação
Um dos orgulhos do Festival é participar na formação da cena de teatro de bonecos de Belo Horizonte.
- Tentamos fazer o evento e qualificar o ambiente cultural da cidade. Desde a primeira edição, surgiram várias companhias. Acredito parte do que existe hoje seja um pouco responsabilidade nossa - comenta Adriana Focas.

Festival também investe na formação dos artistas
Para esse público especial, artistas que já trabalham com teatro de bonecos, o evento tem duas atividades específicas de formação. A oficina de mecanismos e articulações, com 20 vagas e ministrada por Paulo Nazareno (Cia Nazareno Bonecos) e a aula-espetáculo sobre a arte do títere na Índia, realizada pela titireteira, professora e pesquisadora Madga Modesto.