Terra Magazine

27 de março de 2009

24 de maio recebe “maior Jam Session de Rua” de São Paulo

Acontece hoje na esquina da Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros o Baile Soul Brasil. Propagandeado pelos organizadores como a maior Jam Session de Rua de São Paulo, o Baile é gratuito e tem no palco três DJs que se revezam, tocando música negra do período que vai do início dos anos 70 ao início dos anos 90.

Cerca de 500 pessoas são esperadas para a festa, que passará a ser um evento regular, ocorrendo sempre na última sexta-feira de cada mês. “Já temos o Baile garantido até julho”, assegura Eduardo José Barbosa, 38, coordenador do Movimento Hip Hop Revolucionário (MH2R), uma das entidades responsáveis pela festa.

DJ King Nino Brown é uma das atrações do Baile

DJ King Nino Brown é uma das atrações do Baile

Segundo Eduardo Barbosa, a esquina entre 24 de Maio com a Dom José de Barros é um marco para a cultura negra em SP. “No final da década de 60 e início de 70, pouco depois da segunda grande diáspora do povo negro em SP, era lá que os negros marcavam para se encontrar e trocar informações sobre o que estava rolando”, diz.

Ainda de acordo com o coordenador, lá foi um dos primeiros pontos encontros de militantes do hip hop na cidade e onde também surgiram os primeiros movimento étnicos da capital paulista.

Não por acaso, a festa tem como objetivo provocar nas pessoas o desejo de discutirem e repensarem o centro da cidade como espaço de convivência, onde é possível combinar comércio e moradia.

- Hoje o centro de São Paulo é um grande centro de serviços. E a política de revitalização do centro tem pressionado as pessoas que moram aqui para sair e se mudar para as periferias. Uma vez que trazem formato de “centro de serviços”, automaticamente tentam “higienizar” essa parte da cidade - afirma Eduardo Barbosa.

Muita gente esteve no primeiro Baile, em dezembro de 2008

Muita gente esteve no primeiro Baile, em dezembro de 2008

Ele mesmo morador do centro de São Paulo (”meu filho nasceu aqui”), o coordenador do MH2R espera que a reunião de várias gerações de moradores, promovida pelo Baile, mobilize essas pessoas a lutarem por um modelo diferente para o local.

- O Baile traz discussão de ressignificar o espaço. Priorizar a pessoa, deixar esse espaço com a cara das pessoas, e não com a cara do consumo. O consumo está afastando as pessoas. As intervenções culturais têm que buscar essa possibilidade. Mas cultura como manutenção de valores, possibilidade de encontros, não a cultura como produto, entretenimento puro - argumenta Eduardo Barbosa.

O risco é que ocorra com o local a mesma coisa que já aconteceu com muitos outras regiões centrais de aglomerados urbanos: a expulsão da população local intensifica o abandono do centro da cidade, degradando-o ainda mais.

O DJ Fino1 também estará no comando das pick-ups

O DJ Fino1 também estará no comando das pick-ups

- Se isso aqui virar só um centro comercial, vai ser uma terra de zumbis. De dia, tudo acontecendo; à noite, fica aquele vazio. O que minimiza ações de violência e sujeira é a comunidade. A própria comunidade policia a população e evita os problemas. Como é o comércio, como as relações pessoais são inexistentes, vira terra de ninguém - alerta Barbosa.

Negros e leprosos

Este é o segundo Baile Soul Brasil. O primeiro ocorreu no dia cinco de dezembro de 2008. Mais de 300 pessoas estiveram presentes. Entre B-boys e vários outros representantes do hip hop, haviam desde crianças de 8 anos até pessoas na maior idade.

A data também não havia sido escolhida à toa: “foi nesse dia que, se não me engano, em 1958, foi instituída um lei aqui em São Paulo que negros e leprosos não poderiam ter acesso à escola pública”, lembra Eduardo Barbosa.

(fotos: divulgação)

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