
Neste sábado (14/3), às duas da tarde, São Paulo assiste à segunda edição de um dos protestos mais ousados que já ocuparam as ruas da cidade: a Pedalada Pelada.
Com o slogan: “nus é como nos sentimos pedalando nesta cidade”, a Pedalada Pelada procura expor como os ciclistas se sentem frágeis no trânsito.
Para evitar que algum dos manifestantes sofra represálias da polícia (um deles foi preso em 2008), o Blog das Ruas resolveu usar pseudônimos para todos os ciclistas entrevistados neste post.
A partir das 12h - horário da concentração - já é possível encontrar manifestantes na Praça do Ciclista (Consolação x Av. Paulista), pintados em seus corpos mensagens sobre a fragilidade dos ciclistas, a violência do trânsito e contra o uso dos motores.
- Como caminhar é mais antigo que qualquer motor, prefiro dizer que não somos contra alguma coisa, e sim a favor da propulsão humana. Mas nosso maior aliado tem que ser o motorista. Ele tem que entender que quanto mais bicicletas na rua, melhor o trânsito - argumenta Rodolfo*.

As pinturas no corpo são mais uma forma de protesto dos ciclistas
Embora muitos dos cicloativistas já tenham assumido que seu objetivo é pedalar como vieram ao mundo, a nudez não é obrigatória.
Ao contrário: a ideia é que cada pessoa expresse sua fragilidade diante das carros como se sentir melhor. Daí o outro jargão do manifesto: “vá tão nu quanto ousar”.
O mesmo movimento, que começou na cidade de Zaragoza, Espanha, em 2001, acontece hoje em aproximadamente 150 cidades ao redor do mundo. Apenas em Londres, no ano passado, protestaram nus cerca de mil ciclistas.
Entretanto, parece que a herança autoritária brasileira não permite que ocorra tranquilamente um ato de protesto em que as pessoas tiram a roupa, como acontece sem maiores problemas por todo o globo.
Em 2008, parte da manifestação terminou em uma delegacia da cidade. Alegando que os ciclistas estavam praticando “ato obsceno”, a polícia prendeu um deles. O Blog das Ruas não apenas cobriu o fato, como fez uma entrevista com o major responsável pela prisão.

Em 2008, a polícia prendeu um ciclista
Para Joaquim*, ciclista que participa da segunda edição da Pedalada Pelada, a prisão foi autoritária e nada teve a ver com o ato obsceno em si “pois havia muitos outros pelados que, inclusive se ofereceram para ser presos e não foram”.
Entretanto, o ciclista preso afirma que “valeu a pena passar por tudo isso (e passaria novamente se necessário)”. Leia aqui artigo em que o ciclista preso em 2008 dá a outros manifestantes dicas de como proceder durante o protesto.
Esta manifestação também terá um significado especial para muitos ciclistas. No início do ano, Márcia Regina, cicloativista como eles, morreu atropelada por um ônibus.
- Depois da morte da Márcia, eu tenho misturado momentos de medo de andar na rua, com momentos de saco cheio, tipo “Porque eu tenho que estar me preocupando tanto de ser morto se estou apenas me deslocando daqui até ali?”. Essa sensação da fragilidade se tornou mais visível. Por um lado leva a uma prudência maior; por outro, tem a sensação desconfortável de ficar lidando com essas agressões - comenta Joaquim*.
Nudez com mais respeito
Um fator que chamou a atenção na primeira Pedalada Pelada foi a tendência à erotização da nudez e os comentários machistas e, por vezes, bastante agressivos recebidos pelos manifestantes, especialmente pelas mulheres.
- Espero um pouco mais de respeito desta vez. Os repórteres, a mídia em geral vinha já pedindo para a gente tirar a roupa. Ouvi barbaridades como “você é gostosa pra cacete” e “só estou esperando você ficar pelada” - diz Érika*.

Ativistas: "a mídia tenta "erotizar" o protesto"
Outra ciclista, Teodora*, afirma que não vai mais chegar tão “verde” na manifestação.
- Foi bastante estressante ali na praça, na concentração da praça. Fiquei ouvindo piadas absolutamente machistas, grosseiras. Mas este ano eu vou já sabendo disso, estou preparada. Talvez eu escreva no corpo “A Mídia Mente”, algo que impeça que a mídia use a minha imagem. Daí faço vários protestos ao mesmo tempo - afirma.
A parte triste da história é que mesmo muita gente que anda nas magrelas tem posturas machistas. Em fóruns de ciclistas, é possível encontrat comentários como: “Quem sabe ao menos dá umas gostosas (de verdade) peladas para nosso deleite visual?”.
Na primeira Pedalada, Teodora* ficou apenas com a parte de baixo da roupa. Este ano pretende ficar totalmente sem roupa. “Só estou na dúvida se faço pinturas. Fazer pinturas é uma forma de se vestir, né?”.
Já Érika*, que na primeira vez pedalou de bermuda e top, decidiu ir de biquíni. “Aqui vai ser um pouquinho de cada vez. Acho que ainda vai levar alguns protestos para conseguir tirar tudo”, diz.

Ciclistas defendem a nudez como ato político
Os ciclistas fazem questão de repetir que, neste caso, ficar sem roupa é uma atitude política e que existe uma grande diferença entre essa nudez e um ato obsceno.
“Não vi nenhum mal estar. As pessoas nas ruas aplaudiam, riam, até achavam ridículo, mas não senti que ficaram ofendidas”, comenta Teodora*, recordando-se do primeiro evento.
- É um encontro pacífico, que não ofende, não traz transtornos a ninguém. E o julgamento do que seja ato obsceno é subjetivo. Essa questão da nudez e da relação com o corpo no Brasil é bastante hipócrita. Alguns tipos de nudez são considerados obscenos. Não a nudez de domingo à tarde, nem o carnaval, a cultura do automóvel ou todas as guerras que acontecem pelo petróleo - diz Joaquim*.
Para Rodolfo*, “foi o momento menos erótico da minha existência. A última coisa que você pensa ali é em sexo. Por mais que seja polêmico, é muito meno erótico que uma passeata no carnaval”.

"A relação com o corpo no Brasil é bastante hipócrita"
A grande preocupação dos ciclistas é com a polícia, que já interferiu no primeiro protesto e, segundo eles, já está “dando sinais” de que poderá interferir novamente.
- Eles estarão lá, com certeza. Já estão de olho. Estarão esperando o primeiro nu frontal sem tinta que aparecer. O indecente, o imoral no Brasil é mostrar a genitália. Tem uma moralidade que é muito rasa. Não pode mostrar a genitália, mas pode excomungar o médico que fez o aborto na menina de nove anos, pode gastar seis milhões com horas extras de funcionário público… o que é um pinto e uma vagina diante disso? - questiona Teodora*.
Indo para trás da trincheira, Érika* resume o sentimento de diversos menifestantes:
- Eu acho que a polícia vai vir para cima da gente mesmo. Sabem que não tem cunho sexual, mas vão continuar alegando isso. Política de trânsito é muito pesada aqui em São Paulo. Eles vão deturpar a mensagem do nosso protesto o quanto puderem. Eles não querem nos deixar falar do verdadeiro problema.
*Nomes fictícios.
(fotos: polly)