Terra Magazine

15 de julho de 2009

Universidade de Brasília recebe I Congresso de Pesquisadores Indígenas

“No ano de 1981, o mais temido General do Governo Militar, de altíssima inteligência, Golbery do Couto Silva, apresentou argumentos de tres páginas determinando a Funai, a expulsão de 15 estudantes indígenas de Brasília sob argumento de que eram ‘cobras que picariam o governo’ futuramente”.

Quem nos conta este triste capítulo da história brasileira é Marcos Terena, líder indígena remanescente daquela época e diretor do Memorial dos Povos Indígenas de Brasília.

Hoje, quase 30 anos depois, os povos indígenas fazem as pazes com a academia. Começou nesta terça-feira, na Universidade de Brasília, o I Congresso Brasileiro de Acadêmicos, Pesquisadores Profissionais Indígenas.

O Congresso reúne mais de 900 pessoas até o dia 17 deste mês, entre elas lideranças de organizações não-governamentais, especialistas, estudantes, pesquisadores e profissionais indígenas que discutem o futuro da educação superior para os Povos Indígenas.

Gustavo Lins Ribeiro, diretor do Instituto de Ciências Sociais da UnB, considera este momento “histórico”. “É o primeiro encontro, acredito que muitos outros virão. É importante ressaltar que a UnB e todos os setores envolvidos abraçaram essa causa pela sua enorme importância”, enfatiza.

Nestes quatro dias de encontro, mesas redondas, palestras e grupos temáticos vão discutir sobre o significado de estar no ensino superior e os obstáculos que os jovens indígenas ainda encontram, como o fomento a pesquisadores indígenas; a dificuldade de acesso e de permanência; as diferenças culturais e, claro, o preconceito e a intolerância.

Para Gersem Luciano Baniwa, coordenador e palestrante do Congresso, além de diretor executivo do Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (Cinep), todos ganham com a presença indígena na academia.

- A universidade oferece novos caminhos, como a tecnologia e a ciência, e os jovens indígenas vêm para este ambiente com uma grande bagagem de conhecimentos que a universidade não possui. É uma troca - diz o coordenador.

“É um grande diálogo entre o saber tradicional e as demandas do mundo acadêmico”, concorda Marcos Terena, segundo o qual aqueles jovens que Golbery mandou expulsar resistiram e criaram o primeiro movimento indígena do País, a União das Nações Indígenas.

Com o movimento, veio também a célebre frase que se tornaria um dos maiores lemas da causa indígena: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou”.

Terena é o coordenador do tema Espiritualidade. O líder indígena defende a discussão da Espiritualidade no âmbito do Congresso:

- A espiritualidade é a base da resistência indígena e é superior a todos os dogmas da catequese e da religião, pois atua como ponte transversal entre passado e futuro e traz uma nova forma de ver o mundo com a afirmação da identidade cultural e o direito sobre a terra! O Índio sem terra não sobrevive. O Índio sem cultura não é nada - afirma.

Tal como a espiritualidade, alguns tópicos centrais para os povos indígenas dão vida a grupos temáticos, como gestão territorial e etnodesenvolvimento; vida nas cidades; saúde e direitos; histórias e memórias, dentre outros.

Como não poderia deixar de ser, a programação também inclui apresentações de música e dança, projeção de filmes e outras manifestações culturais indígenas.

(foto: Blog de Marcos Terena)

Blogs que citam este Post

10 de junho de 2009

DF: Festival reúne pampa e cerrado em Brasília

Um festival diminui a distância entre o pampa e o cerrado, que se misturam a partir desta quinta-feira (11/05), na capital do Brasil.

Produto de um programa homônimo de televisão, veiculado pela TV Brasília, o I Festival de Música Pampa e Cerrado premia cantores que melhor traduzam a sonoridade de cada região.

- O Festival tem o objetivo de valorizar a música regional do sul do país e do centro-oeste. E promover o diálogo, fazer intercâmbios entre as duas culturas. Culturas que têm coisas muito semelhantes, com destaque para o Brasil rural. Mesmo as pessoas que vem para a cidade não perdem esse espírito - explica Nelson Gilles, que coordena o evento.

Lúcio Yanel é uma das atrações do Festival

Lúcio Yanel é uma das atrações do Festival

São oito concorrentes na quinta-feira (noite do cerrado) e oito na sexta (noite do pampa). No sábado, todos os 16 sobem novamente ao palco e são anunciados os vencedores do concurso.

Os primeiros lugares de cada categoria levam para casa R$ 10 mil e os vices, R$ 7.500,00. Também há prêmios, no valor de R$ 2 mil, para melhor instrumentista, intérprete (feminino e masculino), melhor letra e melhor arranjo.

Para chegar nos 16 finalistas, a organização do Festival teve que ouvir em torno de 385 canções, enviadas por cerca de 200 compositores, de 10 estados brasileiros.

- Pena que só pudemos colocar 16 competidores no palco. Se a gente tivesse mais patrocínio, colocaria 12 cantores por noite - comenta o organizador do Festival.

Curiosamente, nenhum dos 16 finalistas pertence ao DF, que sedia o Festival. “Por incrível que pareça! Mas temos que reconhecer que Brasília não tem uma tradição forte de mostras competitivas”, argumenta Nelson Gilles.

Volmir Martins encarna a cultura do pampa

Volmir Martins encarna a cultura do pampa

O I Festival de Música Pampa e Cerrado acontece de 11 a 13 deste mês, no pavilhão do ExpoBrasília. Integra a programação oficial da ExpoTchê, uma das maiores feiras de cultura regional da capital federal, que está na 17ª, edição.

- Achamos por bem fazer lá porque é um palco de excelência para divulgação da cultura gaúcha. Um alimenta o outro. A feira atrai cerca 200 mil visitantes em 10 dias (5 a 14 de junho). Esperamos que em torno de 1000 a 1500 pessoas visitem nossos palcos por noite - explica Nelson Gilles.

Mas o Festival os competidores não são as únicas atrações do Festival. Na quinta-feira, a noite é encerrada pelos músicos Luís Carlos Borges e Lúcio Yanel. Na sexta, sobem no palco Juanito e Sua Harpa e Márcio Texano e Gabriel. Na última noite do Festival, Volmir Martins e Renato Teixeira delineiam os contornos do pampa e do cerrado.

convidado de peso para o encerramento do Festival

Renato Teixeira: convidado de peso para o encerramento do Festival

Argentino criado no Rio Grande do Sul, atualmente vivendo em Brasília, Nelson Gilles entende a cidade como uma pequena babel que reúne todo o país.

- Brasília é na verdade o povo do Brasil inteiro. Nessa região tem cerca de 250 mil gaúchos, tem encontros de violeiros, uma folia de reis muito forte… tem todas as culturas do povo que vem para cá trabalhar e não quer perder sua identidade. Brasília propicia isso. Acolhe as pessoas e suas culturas - diz.

Blogs que citam este Post

7 de maio de 2009

Festival transforma Brasília na “capital” do Nordeste

Dentro de sete dias, a capital federal assume também o status de “capital do nordeste”. Com atrações de cada um dos estados nordestinos e um variado leque de atividades girando em torno da cultura daquela região, o Encontro do Nordeste acontece de 14 a 17 de maio, em Brasília.

“O encontro tem um apelo muito grande aqui em Brasília, pois mais de 40% da população é de nordestinos”, afirma Luiz Paulo, coordenador de Culturas Populares do evento. Segundo ele, o festival espera colocar cerca de 150 mil pessoas para “respirar nordeste” durante quatro dias.

A proximidade das festas de São João - melhor época do ano para qualquer nordestino - também ajuda a criar um “clima” de prévias para o evento, intensificando a sua atratividade. Quem for solidário com as vítimas das enchentes que assolam a região ganha desconto na entrada do festival: enquanto o ingresso normal é 20 reais, quem doar agasalhos paga R$ 12,00.

O Encontro do Nordeste faz parte de um projeto mais amplo, batizado de Brasília Capital Cultural, que visa, ao trazer outras atrações para a cidade, caracterizá-la como um local culturalmente ativo.

- As pessoas precisam conhecer Brasília pelo povo da cidade. Temos que acabar essa mística de que o Brasil só conhece Brasília pela Esplanada dos Ministérios. Queremos mostrar que a cidade tem muitos atrativos e fervilha de cultura - enfatiza o coordenador de culturas populares.

O festival chama atenção pela abrangência com que propõe representar os nove estados nordestinos. Trazer grupos e artistas das localidades mais variadas e não deixar nenhum estado “de fora” foi um dos critérios adotados para preparar a programação, de acordo com o coordenador de culturas populares.

Além de conhecidas atrações musicais, como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e a banda de forró Calcinha Preta, o Encontro do Nordeste reservou um palco apenas para manifestações de cultura popular, no qual se apresentam quadrilhas, trios nordestinos, teatro de mamulengos e um conjunto de outras expressões folclóricas que compõem a miríade cultural da região.

Um dos pontos altos da cultura popular no festival é o Desafio de Repentistas. Todas as noites do evento terão disputas entre esses mestres do improviso cantado, vindos das mais variadas cidades do nordeste brasileiro. É um campeonato mesmo, com direito inclusive a troféu para os vencedores.

Também merece destaque a homenagem a Luiz Gonzaga, rei do baião e o brasileiro que melhor “encarnou” a cultura nordestina. A coreografia de 11 bailarinos de Teresina tem presença garantida nos dois palcos do evento: abre um dos shows das atrações musicais no palco principal e depois é apresentada, completa, no espaço das culturas populares.

O público do festival também pode participar gratuitamente das oficinas de cerâmica, pintura de cerâmica, renda de bilro, xilografia, cordel e aprender até mesmo a fazer aquelas garrafas de areia colorida do Ceará. Para ministrar as oficinas, especialistas escolhidos a dedo, como o Mestre Vitalino Neto.

- A gente queria fazer um negócio como uma estação. Fazer parte do público participar de todas oficinas e ter contato com as várias expressões de cultura do nordeste. Mas o tempo é muito curto, daí tivemos que pensar em turmas separadas mesmo. As oficinas são gratuitas, mas as inscrições têm que ser feitas com antecedência - alerta Luiz Paulo.

Essas expressões da diversidade da cultura popular nordestina podem ser vistas na ExpoNordeste, uma grande feira de artesanato destinada à exposição e demonstração de produtos culturais da região, inclusive de comidas típicas, com aquisição de produtos diretamente do artesão.

A feira funciona ainda como um espaço de atração de investimentos e turismo para os estados nordestinos, que possuem tendas decoradas com suas principais cores e atrativos. Alguns oferecem promoções em conjunto com agências de viagens.

Curiosamente, a participação dos estados na feira não é tão simples quanto parece. “Tem prefeitura me pedindo passagem aérea para mandar secretário de turismo”, conta o coordenador de culturas populares. Será a crise econômica?

Certeza mesmo é que a crise já afetou o projeto Brasília Capital Cultural. Originalmente, o plano era fazer na capital federal encontros temáticos de todas as regiões brasileiras. O recuo nos patrocínios culturais gerou incerteza sobre a realização desses encontros, que dependerão do êxito do Encontro do Nordeste.

- Vamos fazer esse bem-feito e depois ver quais são as condições para fazer os outros. Não adianta projetar para a frente e perder o foco do trabalho agora - afirma Luiz Paulo.

Em caso bons ventos, o próximo encontro a ser realizado será o da região Sudeste.

(Foto: Arquivo/ Grupo de Xaxado Cabras de Lampião)

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol