Terra Magazine

2 de setembro de 2009

Capoeira pode virar esporte olímpico

Décima quarta expressão artística do país a ser registrada como patrimônio imaterial, a capoeira pode virar em breve um esporte olímpico. Quem faz o alerta é o presidente da Federação de Capoeira Angola e Regional da Bahia (Fecarba), Jean Adriano Barros da Silva.- A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica - avisa o presidente da Fecarba.

Aos 34 anos de idade, Jean Adriano é mestre de capoeira e coordenador do grupo G.U.E.T.O. Em entrevista ao Blog das Ruas, ele fala do Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009, da V Copa Mundial de Capoeira e, claro, da possibilidade da expressão cultural tornar-se esporte olímpico.

- Estamos numa fase de consulta. O Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação - diz.

O jovem mestre de capoeira revela também suas expectativas e dúvidas a respeito deste reconhecimento.

Para ele, pode haver tanto avanços no reconhecimento e na legitimação da capoeira, que contribuem para abolir o preconceito que ainda existe (!) em relação à atividade.

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpada?

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpíada?

Por outro lado, preocupa-se que este reconhecimento acabe por “enquadrar” a capoeira em um único formato. “Pode vir a ser uma capoeira de suor e músculo, onde ganha mais malhado”, diz. E completa: “Existem uma série de valores, como a roda e o respeito aos mais velhos, que precisam ser mantidos. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar”.

Veja abaixo a íntegra da entrevista.

Desde o dia 31 de agosto até 13 de setembro acontecem na Bahia o Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009 e a V Copa Mundial de Capoeira. O que isso significa para o Estado?

Essas atividades acontecem nas cidades de Salvador, Nossa Senhora do Livramento, Rio de Contas e Vitória da Conquista. São, em primeiro lugar, um encontro entre capoeiristas, mas também dos capoeiristas de todo o mundo com a população de cada lugar. No congresso, temos caminhadas, visitas a escolas públicas, desfiles e outras ações de envolvimento com a comunidade.

Quantas pessoas estão envolvidas nesses eventos. E de quantos países?

Participam representantes da capoeira em nove cidades estrangeiras, de sete países. Isso sem contar o Brasil. Aqui, não dá nem para listar as cidades, há desde capitais como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Natal, até cidades menores, como Santo Amaro, Rio de Contas etc. Esperamos envolver diretamente cerca de 600 capoeiristas durante todo o período em que acontecem os eventos.

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

E o que é a V Copa Mundial da Capoeira?

A Copa do Mundo da Capoeira é uma experimentação nossa para concebermos a capoeira como esporte, algo que temos tentado refletir com muita calma. A primeira etapa da Copa acontece em Salvador; depois há etapas em [Nossa Senhora do] Livramento e Rio de Contas e a grande final acontece em [Vitória da] Conquista.

Então vocês estão testando formatos e regras? Como está desenhado o torneio?

Tentamos reproduzir ao máximo uma roda de capoeira. Uma dupla se apresenta e um júri avalia sua técnica, seu conhecimento do jogo e a nota é dada para a dupla. Não é competição de luta. Você não joga contra o outro, mas com o outro.

São duas categorias: estudante e professor, com prêmios individuais para os três primeiros lugares.

Mas não seria melhor premiar as duplas, já que ninguém se apresenta sozinho?

Mas também não é uma coreografia. Queremos reproduzir a dinâmica da roda, em que você se apresenta sempre em dupla, mas sempre com uma dupla diferente. No caso, o capoeirista apresenta-se várias vezes, e a sua dupla é sorteada a cada momento.

Existe a possibilidade da capoeira tornar-se um esporte olímpico?

Existe sim. A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica.

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

E o que falta para essa efetivação?

É um processo ainda um pouco longo, mas possível. Nesse momento, estamos numa fase de consulta, elaborando modelos para o comitê olímpico. A confederação brasileira tem até o final do ano para apresentar uma proposta ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Depois, o Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação, presente na abertura das olimpíadas, por exemplo.

Mas esse processo que não é só técnico. É político, tem que ter lobby, movimentação financeira. Não tem muito a ver com os aspectos que gostaríamos.

E quais os benefícios da capoeira virar esporte?

Enquanto federação, devo dizer que a capoeira vai passar a ser mais reconhecida e que isso vai contribuir para acabar com os preconceitos que até hoje existem em relação à capoeira. Com certeza, teremos um avanço na promoção da capoeira, na sua divulgação e normalização.

Mas enquanto capoeirista, devo dizer também que fico preocupado com o enquadramento da capoeira esporte como única possibilidade e perdermos uma série de valores fundamentais como a roda, o respeito aos mais antigos, em troca de referenciais novos, como agilidade e força. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar.

Tem muita gente que encara a capoeira não apenas como uma ginástica, mas como filosofia de vida, quase como religião. Precisamos de um bom diálogo para não perder isso.

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Então porque se envolver?

Porque temos a certeza que isso vai adiante com ou sem a gente. Já existem grupos bem avançados nessa questão. Mas eles defendem aquela capoeira de suor e músculo, onde ganha o mais malhado. Por isso defendo que a gente esteja junto, para direcionar também esse processo. Mas é difícil porque a Bahia, a meca da capoeira, ainda não tem amadurecimento para esse diálogo.

Qual a maior dificuldade em debater a questão?

Os mestres. Perceba que eles têm pouco dinheiro e reconhecimento. Fora da capoeira, o cara é nada e na capoeira ele é mestre. Então ele só confia naquilo que aprendeu com o seu mestre, que aprendeu com o anterior… Grande parte dos mestres antigos entende modificação como uma coisa que eles não dão conta. E, sem a presença deles, essa discussão não vale nada.

E você, o que acha da capoeira virar esporte e integrar as olimpíadas?

(fotos: Grupo G.U.E.T.O.)

Blogs que citam este Post

22 de fevereiro de 2009

PE: Primeiro bloco de capoeira do mundo sai hoje em Olinda

Reivindicando o título de “primeiro bloco de capoeira do mundo”, o Bloco do Berimbau desfila hoje (22/2) pelas ladeira de Olinda.

O cortejo, formado por 150 berimbaus e 500 capoeiristas - sendo pelo menos 50 mestres - se concentra logo cedo em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário.

Às nove da manhã, começa a tremular o estandarte anunciando: Salve o Bloco do Berimbau! e o cortejo segue até o Mercado Eufrásio Barbosa, num percurso que dura cerca de quatro horas, com direito a muitas rodas de capoeira no caminho.

O Bloco dos Berimbaus leva a capoeira às ladeiras de Olinda

O Bloco leva a capoeira às ladeiras de Olinda

O número de berimbaus ainda pode aumentar bastante, pois o Bloco tem uma política de distribuir gratuitamente as camisas (que custam R$ 5,00) a quem for com o próprio berimbau para o desfile.

Fundador e coordenador da Agremiação, Mestre Ulisses, do Grupo Lua de São Jorge, guarda “muitas camisas para distribuir na hora porque vem gente de outros estados e até de fora do país para participar “.

Tem ainda os muitos admiradores, que se juntam ao cortejo depois que ele sai.

A cada parada, forma-se uma nova roda de capoeira

A cada parada, forma-se uma nova roda de capoeira

Durante o desfile, Mestre Ulisses vai à frente do cortejo, junto ao carro de som, puxando o ritmo do mar de berimbaus. Além deles, os únicos instrumentos permitidos são pandeiros, um timbau e duas alfaias. “Para mexer mais com a pulsação do coração”, afirma o mestre.

- E como o senhor é pode garantir que este é o primeiro bloco de capoeira do mundo?

- Ora, não existem blocos fora de Olinda… além disso, fiz uma pesquisa quando fui fundar o Bloco do Berimbau, em 2002, e me dei conta que não existia nenhum outro - afirma o mestre.

O objetivo de fundar o Bloco do Berimbau foi chamar atenção para a capoeira durante o carnaval. “A capoeira deu origem ao frevo, mas foi reconhecida patrimônio imaterial bem depois dele”, conta o fundador do bloco.

Este é o sétimo desfile do grupo, que homenageia os 50 anos do Mestre Juarez, outro fundador da agremiação.

- Eu não homenageio gente morta não, só viva - conta Mestre Ulisses. - Se eu fosse morto e resolvessem me fazer uma homenagem, eu ficaria muito chateado.

Este ano, o Bloco leva berimbaus de 3m de altura às ruas

Este ano, o Bloco leva berimbaus de 3m de altura às ruas

Em seu quarto ano (2006) o Bloco levou para as ruas quatro berimbaus de cinco metros de altura. Virou tradição. Em 2009, os berimbaus são um pouco menores e alcançam “apenas” três metros de altura.

- Mas este ano o bambu é mais fino, dar para tocar estes berimbaus - comenta Mestre Ulisses.

Outra novidade para o desfile é um de um capoeirista negro, carregando um berimbau.

(fotos: Acervo Bloco do Berimbau)

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol