Terra Magazine

23 de fevereiro de 2009

Carnaval de máscaras de Maragojipe (BA) vira patrimônio imaterial

“O carnaval de Veneza nem chega perto do carnaval daqui. Nem se compara”, diz um morador da cidade de Maragojipe, localizada à 133 km de Salvador, na região do Recôncavo baiano.

Maragogipe é sede de uma das mais tradicionais festas carnavalescas da Bahia, onde, há mais de 100 anos, máscaras e fantasias misturam-se com costumes e cantos afrodescendentes - uma fusão carnaval europeu do século XIX com a herança africana brasileira.

Nesta segunda-feira, o governador da Bahia vai ao município para assinar o decreto que reconhece oficialmente o carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia.

Os "caretas" de Maragojipe adoram uma foto

Os "caretas" de Maragojipe adoram uma foto

Apesar do calor intenso que faz na cidade, grande parte de seus habitantes esquece de tudo e se fantasia para brincar carnaval - expressão mais que correta para o que acontece em Maragojipe.

Crianças, idosos, mulheres, homens. Não dá para saber quem está dentro da fantasia. Todos pulam e brincam com visitantes com a mesma animação durante os três dias da folia. A única certeza que conseguimos ter é que, atrás daquelas caretas de pano ou látex, há uma pessoa sorrindo.

Prova desse animação é o desfile do Bloco das Almas, às 0h de sábado, que abre oficialmente o Carnaval de Maragojipe. Pessoas cobertas por lençóis, dos pés à cabeça, percorrem as ruas, algumas com velas nas mãos, uivando em tom agudo e atraindo a curiosidade dos moradores.

Enquanto alguns dos habitantes da cidade chegam à porta de suas casas para presenciar o cortejo, as crianças ficam amedrontadas e os adultos se divertem com a performance das “almas”. O “pessoal do além” aparece em diversos locais da cidade e se concentram na Praça Conselheiro Antônio Rebouças.

Estive na cidade para o Grito de Carnaval - uma espécie de prévia da folia ocorrida há uma semana, no dia 15 deste mês.

máscaras desde cedo

Emily e seus amigos: máscaras desde cedo

Lá, conheci Emily, um garoto de nove anos que pula carnaval em Maragojipe desde os cinco. Pergunto ele porque é legal usar máscaras no carnaval:

- Porque a gente brinca, se diverte… é o carnaval, ué! - responde.

Também chamadas de “caretas”, todos os tipos máscaras desfilam pelas ruas de Maragojipe: desde as tradicionais, com orelhas e nariz pontudos, até as de monstros, de heróis como batman ou do conhecido filme de terror “Pânico”.

Não dá para saber idade ou sexo dos mascarados

Não dá para saber idade ou sexo dos mascarados

Há também em opte por fantasias completas, às vezes até com a face à mostra: vi uma menininha vestida de noiva, um vaqueiro que falava ao telefone (!) em cima de seu jegue… ah, e a fantasia que nunca falha: vários marmanjos vestidos e maquiados como “piriguetes”.

Patrimônio Imaterial

Durante dois anos, uma equipe multidisciplinar de formada por historiadores, sociólogos, antropólogos e museólogos, realizou coleta de materiais para o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), órgão do governo da Bahia responsável pelo registro dos bens imateriais do Estado.

A equipe do IPAC coletou, ainda, dezenas de documentos em papel, oriundos do início do século XX até os dias de hoje, e 500 fotos antigas e contemporâneas.

Foi feito um documentário sobre o carnaval mascarado

Foi feito um documentário sobre o carnaval mascarado

Uma parceria com a TV pública a Bahia, TVE, possibilitou a gravação de um documentário de 23 minutos sobre o carnaval de Maragojipe, com imagens do carnaval de 2008 e entrevistas a personalidades locais.

- Temos registros oficiais que comprovam que o carnaval já ocorria na última década do século XIX. E alguns relatos orais que indicam que pode ser muito mais antigo - afirma Mateus Torres,
subgerente de Documentação e Memória do IPAC, que roterizou e dirigiu o documentário.

>> Veja aqui trailer do documentário “Carnaval de Maragojipe”

Exposição de 100 anos do carnaval

Desde o sábado de carnaval, Maragojipe tem mais uma atração: a mostra “Você me conhece? - arte, beleza e resistência no carnaval” com fotografias que traçam a história dessa festa na cidade desde 1910 até os dias atuais.

Sob curadoria da museóloga Rosa Vieira de Mello, a exposição comemora o título de Patrimônio Imaterial da Bahia. é composta de 10 painéis, com mais de 20 fotos que mostram blocos e mascarados, ao longo dos anos.

Uma exposição conta a história do carnaval

Uma exposição conta a história do carnaval

Entre os destaques do evento, realizado na sede da Filarmônica 2 de Julho, o cordão ‘Filhos do Sol’ da década de 1930, o ‘Bloco dos Chineses’ de 1939, além de textos explicativos do poeta e escritor maragojipano Ronaldo Sousa.

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