Terra Magazine

30 de julho de 2009

CE: Cortejo lembra revolução republicana de 1824

Hoje, pelo quarto ano, o Cortejo dos Confederados toma as ruas de Fortaleza. Constituído por grupos de teatro, samba, reisado, capoeira, quadrilha e índios, o desfile é uma encenação festiva da marcha dos condenados, quando os líderes do governo revolucionário e republicano - instaurado no Ceará em 1824 - caminharam para o pelotão de fuzilamento. O cortejo também comemora o Dia Estadual do Patrimônio Cultural, 30 de julho.

Cento e oitenta e cinco anos depois, os condenados são considerados heróis cearenses, que lutaram não apenas pela causa republicana, mas pela Independência do Brasil.

A Confederação do Equador, nome a que foi dado o movimento, é considerada atualmente um dos momentos mais destacados da História do Ceará. Teve, ainda, a participação de mais três Estados: Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Entre outros propósitos, o novo governo defendia a abolição da escravatura.

O Cortejo dos Confederados segue o mesmo trajeto percorrido pelos condenados. Às 15h, na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (10ª Região Militar), uma solenidade militar, antecede a saída do Cortejo, que chega às 18h, no Passeio Público. Lá, a encenação da execução dos heróis da Confederação do Equador encerra as atividades do dia.

Participam do Cortejo os grupos Quadrilha Zé Testinha, Maracatu Az de Ouro, Gajaral, Formosura de Teatro, Reisado Nossa Senhora das Dores, Viver Capoeira, índios Pitaguary, Cia Cordapés, Raízes Nordestinas, Escola de Samba Mocidade Independente da Bela Vista, Boi do Mestre Zé Pio, Caravana Cultural, Linda Canalha, além dos atores que formam a ala dos condenados e o público do Centro da cidade.

Artistas cearenses usam alegria e colorido para reinterpretar a marcha dos condenados

Alegria e colorido para reinterpretar a marcha dos condenados

Ao longo do trajeto, algumas paradas (autos) dão vida a outros momentos fundamentais da Confederação do Equador:

16h - Praça dos Leões: Apresentação de Reisado e Capoeira. Cena relacionada com a libertação dos escravos no Ceará, em frente à Igreja do Rosário. Manifestações dos confederados, em frente ao Museu do Ceará e ao Palácio da Luz;

16h30 - Praça do Ferreira: Manifestação dos confederados. Ritual do Torém, feito por Grupos Indígenas, apresentação de Grupos Culturais e encenação com os atores;

17h - Sobrado Dr. José Lourenço - Encenação do Manifesto dos Confederados;

18h - Passeio Público: Encenação dos fuzilamentos de Padre Mororó, Ibiapina, Carapinima, Azevedo Bolão e Pessoa Anta, com grupo de atores e grandes bonecos.

Confederação do Equador

A Confederação do Equador foi um movimento revolucionário, de caráter emancipacionista e republicano, ocorrido em 1824 no Nordeste do Brasil. Representou a principal reação contra a tendência absolutista e a política centralizadora do governo de D. Pedro I (1822-1831), esboçadas na Carta Outorgada de 1824, a primeira Constituição do país.

O Cortejo dos Confederados também celebra o Dia Estadual do Patrimônio Cultural

O Cortejo dos Confederados também celebra o Dia Estadual do Patrimônio Cultural

Em protesto ao monarquismo autoritário de Dom Pedro I, em 1814, o movimento se formou nos estados Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Apesar das tentativas de negociação do Império, os revoltosos buscaram criar uma constituição de caráter republicano e liberal, além de abolir a escravidão e organizar forças contra as tropas imperiais. No Ceará, sob a chefia de Tristão Araripe instaurou-se um Governo Patriótico e Republicano.

Vencida a revolução pelo governo monarquista, os principais líderes cearenses - Padre Mororó, Carapinima, Azevedo Bolão, Padre Ibiapina e Pessoa Anta - foram executados pelas forças monarquistas, em fuzilamentos precedidos por cortejos que saíam da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, encerrando no então Campo da Pólvora, hoje Passeio Público.

Tristão Araripe e os demais mártires da Confederação do Equador no Ceará ficaram conhecidos como os mais precoces e destemidos heróis patrióticos e republicanos do Estado.

(fotos: Secretaria de Cultura do Ceará)

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25 de março de 2009

CE: cidade faz eleição para escolher “Judas”

O município do Crato (CE), na região do Cariri, divulgou neste domingo o resultado de uma eleição diferente: a cidade votou para escolher quem seria eleito o próximo Judas a ser malhado no Sábado de Aleluia - neste ano, dia 11 de abril.

A votação ocorreu entre os dias 14 e 21 de março, em 20 “seções eleitorais”, com urnas espelhadas por escolas, mercearias, bares, restaurantes, bancas de artesanato - houve até mesmo uma urna itinerante.

Compareceram ao pleito 9860 eleitores, quase 9% da população total do município.

- É uma brincadeira cheia de irreverência, mas tem um quê de seriedade, serve como veículo para provocar discussões na sociedade. A eleição é um gancho muito importante para discutir tradição, mas também os problemas em evidência - argumenta o professor Cacá Araújo, idealizador e coordenador geral da eleição.

O boneco de Judas é estourado com bomba

O boneco de Judas é estourado com bomba

Apuradas as urnas, o vencedor, divulgado no último domingo, foi “Pedofilino Safadus”, um símbolo do crime que vem assustando muitos lares do país.

Essa eleição, o “Político Corrupto” não ganhou, mas ficou em segundo lugar e garantiu a suplência por uma margem muito apertada de votos (2764 a 2701).

O vencedor da eleição ganha um boneco, que será explodido com bomba (isso mesmo, explodido) pelas suas traições.

A Malhação do Judas - tradição muito popularizada no interior do Nordeste - é antecedida por um cortejo de anunciação com cerca de 100 brincantes, ao qual se juntam figuras populares dos reizados, como mateus, catirina, o boi, grupo de caretas, dentre outros.

O cortejo atravessa a cidade e para no sítio do Judas, um espaço montado na cidade onde a população brinca de “roubar” as frutas, cigarros, dinheiro e bebidas do personagem. “A façanha é sair do sítio e de preferência com o roubo”, explica Cacá Araújo, também diretor da Cia. Cearense de Teatro Brincante / Sociedade Cariri das Artes.

Não é fácil "roubar" o s�tio de Judas

Não é fácil "roubar" o sítio de Judas

A tarefa de roubar o Judas não é tão fácil assim, logo que o local é guardado por “caretas”, que chicoteiam (!) todos os possíveis assaltantes.

Quando aproximadamente sete mil pessoas estão reunidas em torno do sítio, tem início a leitura do Testamento do Judas, um cordel que faz provoca a população com brincadeiras e denúncias.

Lido o testamento, é chegado o momento do estouro do Judas.

Um bispo é eleito Judas

A tradição de eleger um Judas alcança em 2009 o seu nono aniversário. A festa nasceu em uma escola pública onde Cacá Araújo era diretor.

O resultado do primeiro pleito - que elegeu o mosquito da dengue - prova que a eleição é também educativa e política. Além do mosquito, venceram a eleição George W. Bush (2003), o Juiz Percy Barbosa, que assassinou friamente um vigia de supermercado em Sobral-CE (2005) e “Demutrônio - o monstro das multas”, numa alusão ao Departamento Municipal de Trânsito (2006).

A leieção de Dom Luiz Cápio para Judas gerou problemas com a igreja

A leieção de Dom Luiz Cappio para Judas gerou problemas com a igreja

Em 2008, a cidade elegeu como “Judas” o frei Dom Luiz Cappio, por causa de sua luta contra a transposição do Rio São Francisco.

- Isso deu o maior problema com a igreja daqui, que cismou com a gente dizendo que o ataque seria contra a instituição. Mas, não. O que queríamos era abrir uma discussão sobre a transposição do Rio - lembra o professor Araújo.

Para realizar a eleição, todo ano é reunido um colégio eleitoral de 60 a 100 pessoas. Cada membro do grupo recebe um formulário para indicar dois nomes de personalidades ou problemas sociais.

Os mais votados passam a integrar a cédula de votação, com cinco nomes, que é então submetida à população da cidade.

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