Terra Magazine

29 de agosto de 2009

“Ninguém é orientado a ser gay”, diz cordelista

Poeta lança cordel sobre homossexualidade mas não concorda com o uso da expressão “orientação sexual”

Hoje, no Dia da Visibilidade Lésbica, os escritores Nando Poeta e Varneci Nascimento lançam o cordel Homossexualidade - História e Luta. Os autores autografam a obra às 20h, no Odara Bar (Largo do Arouche, 88, República), “um bar GLBT [Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros], comandado por duas mulheres que casaram… são do ramo, né?”, diz Varneci.

- É um tema que os poetas não gostam de abordar, têm restrição, preconceito. Quero que as pessoas possam ler o cordel e se desarmar. Fizemos este trabalho para combater a homofobia, o preconceito, e dar visibilidade à luta social dos homossexuais, que não tem sido pouca - afirma o poeta.

A publicação do cordel de Varneci Nascimento e Nando Poeta expõe o próprio preconceito dentro da literatura de cordel.

- A literatura de cordel foi um pouco machista. Aliás, foi muito. Vemos cordéis eivados de preconceitos contra gays, negros, minorias. Mas também dá para encontrar outros cordéis de autores responsáveis - argumenta.

Nascimento conta que tentou divulgar “Homossexualidade - História e Luta” durante o lançamento de um outro cordelista. “Mas tive que tirar minha coisas e sair correndo” quando o outro escritor mostrou seu descontentamento de estar sendo associado à homossexualidade. “Não gostaria de ver propaganda de cordel com essa temática perto do seu”, diz Varneci.

"Ser gay deve ser bom, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né?"

Varneci: "Ser gay deve ser bom, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né?"

Num determinado momento da conversa, a pergunta inevitável:

- Você ou seu parceiro são homossexuais?

O autor se esquiva:

- Não somos não. Quando a gente fez o cordel, já sabia que teria uma dificuldade por conta de perguntas como essa que você acabou de fazer. Mas é uma questão de quem não está preocupado com essas coisas. Sei que terá consequências, mas o que vale é o que a gente é e pronto - afirma.

Pergunto então sobre a dificuldade de escrever sobre o tema sem ter sentido na pele o preconceito.

- Por isso que nós pedimos para três ou quatro amigos gays para lerem e dizerem para a gente o que não estava correto. Tem até uma coisa que temos uma visão diferente: a comunidade gay pede para usar a expressão “orientação sexual”, mas eu discordo disso. Entrou no texto a contragosto.

- Por quê?

- Porque ninguém é orientado para ser homossexual, nenhum pai ou mãe disse: “vai ser gay, meu filho, é bom”. Se bem que deve ser bom mesmo, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né? - provoca.

O polêmico cordel “Homossexualidade - História e Luta” é publicado pela editora Luzeiro e custa dois reais (”caro, né?”, diz Varneci). Conheça um trecho da obra:

Queremos nesse assunto
Mergulhar profundamente
Demonstrando uma estatística
Que muda diariamente:
A horrenda homofobia,
Crescendo mundialmente.

Por isso, nesse cordel
Vamos pôr em evidência:
Que quem curte o mesmo sexo,
Ou pra isso tem tendência,
Foi sempre desrespeitado
E vítima da violência.

Homossexualidade
Sempre tema especial
Outrora foi esquecido
Mas no momento atual,
É lembrado, pois faz parte
Da história universal.

Nas aldeias primitivas,
Toda a sexualidade.
Se vivia livremente
Dentro da comunidade
Com sexo oposto ou não
Naquela sociedade.

Blogs que citam este Post

11 de agosto de 2009

Cordelista: “Se SP disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia”

São Paulo está um pouco mais nordestina.

Desde maio deste ano, um grupo de sete poetas populares - todos nordestinos radicados em São Paulo - resolveu começar um movimento de valorização da literatura de cordel e artes afins na capital paulista. Juntos, integram a Caravana do Cordel.

- O nome já diz: a Caravana é móvel. Temos um imóvel (Espaço Cineclubista - Rua Augusta, 1239) onde acontece o nosso encontro mensal, mas queremos percorrer a cidade, ocupar os espaços - explica o cearense Costa Senna, um dos idealizadores do movimento.

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Segundo Costa Senna, o cordel é base do trabalho de muitos artistas famosos - cita Zé Ramalho, Raul Seixas, Alceu Valença - mas ainda não recebe a devida importância no país.

Sediada “de favor” no Espaço Cineclubista, a Caravana já realizou dois encontros (o último no dia 1/8) gratuitos, nos quais todo o universo do cordel esteve em destaque: música, literatura, poesia, “causos”, trocadilhos e até trava-línguas.

Enquanto os poetas populares se revezam no microfone, são lançados e vendidos folhetos de cordel. O espetáculo da Caravana vai acontecer todo primeiro sábado do mês. “A nossa intenção é que os artistas de fora de São Paulo, especialmente os nordestinos, projetem a viagem para casar com uma apresentação aqui”, explica Costa Senna.

Repentista Sebastião participou da Caravana

Repentista Sebastião Marinho, considerado um ods maiores do país, participou da Caravana

A intenção do grupo, entretanto, não é criar um gueto do nordeste em São Paulo, mas dar mais visibilidade ao cordel e à cultura nordestina na cidade.

- São Paulo é a maior cidade nordestina do mundo! Se São Paulo disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia. Queremos é evidenciar isso, mostrar que o nordeste é pulsante também aqui em São Paulo. Que o forró, o cordel e o repente passem a circular melhor na cidade - argumenta Costa Senna.

O sucesso da iniciativa, que abarrotou o espaço cedido nas duas ocasiões, já começou até a virar problema.

- Na segunda edição o sucesso foi tão grande que já estou até temendo se vamos conseguir fazer uma melhor do que a outra. Já estamos pensando em buscar um espaço maior - conta João Gomes de Sá, outro integrante do movimento e um dos autores do cordel “A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial”.

Capa de um do folhetos de cordel lançados na Caravana

Capa de um dos folhetos de cordel lançados na Caravana

“Sabe aquela coisa que já nasce grande? É como o São Caetano, já nasceu vice-campeão”, diz Costa Senna [na verdade, o time do ABC Paulista foi fundado no final de 1989 e foi campeão pela primeira vez em 1991, da Série A-3 do Paulista].

O convite está feito. Os artistas que quiserem participar tem que entrar em contato com a turma (11.3214-3906) porque a programação passou a ser fechada com uma semana de antecedência.

- Nós vamos presentear a sociedade paulistana com pelo menos 11 shows gratuitos por ano com o melhor da cultura do cordel - vende seu peixe Costa Senna.

Blogs que citam este Post

7 de agosto de 2009

Cordel conta chegada de Michael Jackson no Céu

A tradição da literatura de cordel é particularmente sensível aos momentos de comoção. Quando algum acontecimento, nacional ou internacional, mobiliza as massas, certamente um cordelista estará traduzindo em versos o ocorrido.

- O cordel tem também uma função jornalística. Há muito tempo, é um meio que o povo do sertão usa para se interar dos grandes acontecimentos. Foi assim com Lampião, Getúlio Vargas, Tancredo Neves e até com Leandro, cantor daquela dupla sertaneja - conta o cordelista alagoano João Gomes de Sá.

Pois foi o próprio João Gomes de Sá que, ao lado do companheiro Klévisson Viana, escreveu sobre a morte de Michael Jackson, um dos acontecimentos mais acompanhados, discutidos e lamentados da história recente.

Juntos, publicaram A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial. Apenas no primeiro dia após o seu lançamento, a obra teve 2500 folhetos vendidos nos pontos de ônibus de Fortaleza - local comum de venda de cordéis na capital cearense.

Eu sonhei que o rei do pop,
Logo após bater as botas,
Foi direto para o céu,
Fazendo muitas marmotas,
Cantando muito agitado
Feliz, tinha se livrado
De dívida, banco e agiotas.

- O que eu fiz foi uma releitura desse grande fato mundial. Apenas reproduzi algumas manifestações do sentimento do povo. Com alguns gracejos da minha parte - brinca o João Gomes de Sá.

Por “gracejos”, o poeta se refere a críticas - algumas sutis, outras nem tanto - a vários setores da sociedade brasileira. Uma delas é a existência de uma burocracia no Céu, que impediria a “admissão” rápida do cantor.

- É o que a gente vê hoje no país. No Brasil, a gente morre é na fila. Em todo canto tem essa burocracia. Daí fiz uma brincadeira com ele do tipo: “Como você já morreu mesmo, né, cara, não tem problema esperar mais um pouquinho” - explica.

As críticas também não deixam a crise do senado passar em branco. Pedindo atendimento privilegiado, Jackson pergunta a São Pedro se não haveria nenhum ato secreto em seu benefício.

Mas São Pedro eu sou um astro
Famoso no mundo inteiro!
Não tem um ato secreto
Para me atender primeiro?
- Aqui é outro processo
Não é aquele Congresso
Lá do povo brasileiro!

Para a surpresa deste Blog, o autor do cordel conta que não era fã de Michael Jackson.

- As minhas filhas chegaram a chorar com a morte dele. Mas eu nunca tive nenhuma relação com ele, apesar de reconhecer que era um grande astro e admirar algumas coisas que fez, com a canção “We Are The World”. Quando fiz o cordel, fui solidário com as pessoas que sofriam por ele - explica.

João Gomes de Sá não era fã de Michale Jackson, mas suas filhas sim

João Gomes de Sá não era fã de Michale Jackson, mas suas filhas sim

O poeta chegou a ser bastante criticado pela publicação do cordel. Outros poetas populares reclamaram da atenção dada a um astro internacional, quando ídolos como Luiz Gonzaga não tiveram o mesmo tratamento.

- Talvez seja mesmo um pouco de xenofobia. Mas o que eu não agüento é ouvir isso de poetas que sabem que a literatura de cordel trabalha com grandes acontecimentos - reage.

Eu queria dançar mais
Sabe o senhor, não empaco,
Gostava de requebrar,
Pois eu sou bom nesse taco
Dançando eu faço munganga,
Às vezes visto uma tanga
Para prender o meu saco!


Sincronia

A parceria de João Gomes de Sá e Klévisson Viana não foi programada nem combinada. Foi mais um daqueles acasos que só acontecem poucas vezes na vida.

Inspirado pelos noticiários e pela charge de um amigo, Gomes de Sá começou a fazer um cordel. Quando já tinha produzido boa parte da obra, ligou para Viana e descobriu que o colega poeta estava fazendo a mesmíssima coisa. Resolveram então publicar um cordel só, tamanha a sincronia.

As estrofes destacadas acima pertencem ao cordel “A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial”.

Blogs que citam este Post

7 de maio de 2009

Festival transforma Brasília na “capital” do Nordeste

Dentro de sete dias, a capital federal assume também o status de “capital do nordeste”. Com atrações de cada um dos estados nordestinos e um variado leque de atividades girando em torno da cultura daquela região, o Encontro do Nordeste acontece de 14 a 17 de maio, em Brasília.

“O encontro tem um apelo muito grande aqui em Brasília, pois mais de 40% da população é de nordestinos”, afirma Luiz Paulo, coordenador de Culturas Populares do evento. Segundo ele, o festival espera colocar cerca de 150 mil pessoas para “respirar nordeste” durante quatro dias.

A proximidade das festas de São João - melhor época do ano para qualquer nordestino - também ajuda a criar um “clima” de prévias para o evento, intensificando a sua atratividade. Quem for solidário com as vítimas das enchentes que assolam a região ganha desconto na entrada do festival: enquanto o ingresso normal é 20 reais, quem doar agasalhos paga R$ 12,00.

O Encontro do Nordeste faz parte de um projeto mais amplo, batizado de Brasília Capital Cultural, que visa, ao trazer outras atrações para a cidade, caracterizá-la como um local culturalmente ativo.

- As pessoas precisam conhecer Brasília pelo povo da cidade. Temos que acabar essa mística de que o Brasil só conhece Brasília pela Esplanada dos Ministérios. Queremos mostrar que a cidade tem muitos atrativos e fervilha de cultura - enfatiza o coordenador de culturas populares.

O festival chama atenção pela abrangência com que propõe representar os nove estados nordestinos. Trazer grupos e artistas das localidades mais variadas e não deixar nenhum estado “de fora” foi um dos critérios adotados para preparar a programação, de acordo com o coordenador de culturas populares.

Além de conhecidas atrações musicais, como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e a banda de forró Calcinha Preta, o Encontro do Nordeste reservou um palco apenas para manifestações de cultura popular, no qual se apresentam quadrilhas, trios nordestinos, teatro de mamulengos e um conjunto de outras expressões folclóricas que compõem a miríade cultural da região.

Um dos pontos altos da cultura popular no festival é o Desafio de Repentistas. Todas as noites do evento terão disputas entre esses mestres do improviso cantado, vindos das mais variadas cidades do nordeste brasileiro. É um campeonato mesmo, com direito inclusive a troféu para os vencedores.

Também merece destaque a homenagem a Luiz Gonzaga, rei do baião e o brasileiro que melhor “encarnou” a cultura nordestina. A coreografia de 11 bailarinos de Teresina tem presença garantida nos dois palcos do evento: abre um dos shows das atrações musicais no palco principal e depois é apresentada, completa, no espaço das culturas populares.

O público do festival também pode participar gratuitamente das oficinas de cerâmica, pintura de cerâmica, renda de bilro, xilografia, cordel e aprender até mesmo a fazer aquelas garrafas de areia colorida do Ceará. Para ministrar as oficinas, especialistas escolhidos a dedo, como o Mestre Vitalino Neto.

- A gente queria fazer um negócio como uma estação. Fazer parte do público participar de todas oficinas e ter contato com as várias expressões de cultura do nordeste. Mas o tempo é muito curto, daí tivemos que pensar em turmas separadas mesmo. As oficinas são gratuitas, mas as inscrições têm que ser feitas com antecedência - alerta Luiz Paulo.

Essas expressões da diversidade da cultura popular nordestina podem ser vistas na ExpoNordeste, uma grande feira de artesanato destinada à exposição e demonstração de produtos culturais da região, inclusive de comidas típicas, com aquisição de produtos diretamente do artesão.

A feira funciona ainda como um espaço de atração de investimentos e turismo para os estados nordestinos, que possuem tendas decoradas com suas principais cores e atrativos. Alguns oferecem promoções em conjunto com agências de viagens.

Curiosamente, a participação dos estados na feira não é tão simples quanto parece. “Tem prefeitura me pedindo passagem aérea para mandar secretário de turismo”, conta o coordenador de culturas populares. Será a crise econômica?

Certeza mesmo é que a crise já afetou o projeto Brasília Capital Cultural. Originalmente, o plano era fazer na capital federal encontros temáticos de todas as regiões brasileiras. O recuo nos patrocínios culturais gerou incerteza sobre a realização desses encontros, que dependerão do êxito do Encontro do Nordeste.

- Vamos fazer esse bem-feito e depois ver quais são as condições para fazer os outros. Não adianta projetar para a frente e perder o foco do trabalho agora - afirma Luiz Paulo.

Em caso bons ventos, o próximo encontro a ser realizado será o da região Sudeste.

(Foto: Arquivo/ Grupo de Xaxado Cabras de Lampião)

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol