Terra Magazine

26 de outubro de 2009

Festival indígena vira atração turística no Acre

Começou no último domingo (25/10) o Festival Yawá, um momento de celebração da cultura indígena, de resgate de brincadeiras tradições do povo Yawanawá.

O Festival é o símbolo da independência e da identidade dos Yawanawá. Vítimas de um “massacre cultural” provocado pela intervenção de peruanos, brasileiros e missionários norte-americanos, especialmente nas décadas de 70 e 80, o povo Yawanawá esqueceu sua língua nativa (lembrada apenas pelos mais velhos) e parou de realizar rituais sagrados, como usar rapé e beber o Uni (ayahuasca).

Toda a Aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, para durante o período da festa, que vai até a próxima sexta-feira (30/10). São suspensas todas as atividades cotidianas e todos dedicam-se apenas à imersão de uma semana nos costumes e brincadeiras da tribo, que poderiam desaparecer junto com os seus últimos anciões.

Hoje, graças a um trabalho de recuperação desses referenciais culturais, o povo Yawanawá voltou a sentir orgulho de sua ancestralidade. Mais que isso: aprendeu estabelecer um diálogo saudável com o mundo do homem branco sem que isso signifique abrir mão de seus valores indígenas.

Além dos rituais espirituais do uso do rapé e do Uni, que acontecem com frequência durante a festividade, centenas de índios celebram a terra e a cultura Yawanawá com cantos, pintura corporal e danças - como a pisada no pé, que gera muitos inícios de namoro - e provas de resistência, vistas como oportunidade para os jovens da aldeia exibirem-se às mulheres.

Vale mencionar a prova da espinha de peixe (foto no topo), realizada por indígenas que estejam com “desejo de vingança”. Em duplas, cada oponente dá duas investidas, à toda força, com talo de bananeira nas costas do outro - podem participar da prova, inclusive, mulheres e crianças.

Ao final, a dupla exibe orgulhosa as marcas das chibatadas e dão as mãos, sinalizando que as pendências entre eles estão resolvidas.

O Festival Yawá é uma síntese das tradições e costumes dos Yawanawá

Para os indígenas, o Festival é também uma oportunidade de agradecer aos espíritos da floresta pelos bens que ela oferece e pelos momentos de alegria vividos durante esse período.

Etnoturismo

O Festival Yawá começou a ser realizado em 2002, como parte da reconstrução cultural dos Yawanawá.

Desde o anos passado, porém, a festividade foi aberta a turistas, o que representou uma grande abertura para a tribo e um novo marco de diálogo com a cultura do homem branco.

Essa abertura é, na verdade, um entendimento entre os Yawanawá, empresas privadas e autoridades governamentais. Afinal, como diz o secretário de Turismo do Acre, Cassiano Marques: “Não se pode chegar à aldeia de qualquer jeito. É necessário estabelecer limites de visistantes, retonor financeiro para os índios, regras de visitação”.

Além de assistir às atividades do Festival, os turistas também alimentam-se de pratos tradicionais da cultura Yawa, cujos ingredientes predominantes são carnes de caça e peixes e iguarias à base de batata, milho, banana e mamão.

O Festival acontece na Aldeia Nova Esperança, dentro da Terra Indígena do Rio Gregório, a primeira a ser demarcada no Acre, em 1984, e um dos maiores territórios indígenas em solo acreano. No ano passado, a terra foi revista e ampliada, ocupando um perímetro de 239 quilômetros.

A Aldeia fica entre os municípios de Cruzeiro do Tarauacá. Para se chegar é preciso pegar um voo de Rio Branco até um dos dois municípios e transporte terrestre pela BR 364, até a ponte do Rio Gregório. Na ponte, pequenos barcos fazem o trajeto até a aldeia, que pode durar até 8h por conta das condições de navegabilidade.

Algumas empresas, como a Manain-Amazônia, oferecem pacotes para a festa, já bastante requisitados, especialmente por turistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também é possível fazer contato direto com administradores do povo Yawanawá, como o filho do cacique, Macilvo Yawanawá, pelo telefone (68) 9206.4261.

(fotos: Sérgio Vale/ Secom/Acre)

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10 de outubro de 2009

Hoje é o último dia 1ª Feira do Livro Indígena de Mato Grosso

Encerra-se hoje a 1ª Feira do Livro Indígena de Mato Grosso. Durante cinco dias, foram expostos nos três pontos da feira - todos no Centro Histórico da capital do Mato Grossense -, cerca de 200 títulos de autores indígenas regionais e nacionais de 700 etnias.

Durante o evento, lançamentos de diversas obras, desde livros infantis, como “A Palavra do Grande Chefe”, de Daniel Munduruku e Maurício Negro, a obras de não-ficção, como “Os direitos constitucionais dos índios e o direito, a diferença, face ao princípio da dignidade da pessoa humana”, de Samia Barbiere.

A Flimt conta com 27 estandes de editoras e livrarias e oito estandes institucionais, distribuídos no estacionamento do Palácio da Instrução e Praça da República. Há, inclusive, um estande de autores independentes, que escrevem e editam livros por conta própria.

Na programação, além de lançamentos e leituras de livros, encontro de escritores, contação de mitos e histórias, oficinas, palestras, seminários, mostra de vídeos indígenas, saraus e pinturas corporais. As pinturas corporais, aliás, mobilizaram centenas de visitantes, que faziam enormes filas para receberem no corpo desenhos sagrados.

“Cada desenho representa um bicho. Para nós, os animais são sagrados”, explica o índio Umutina Vanilson Zaloizokemae. Vanilson explica que a pintura corporal é feita sempre em ocasiões importantes para a aldeia, como rituais, danças ou guerra.

O evento também foi visto como oportunidade para o lançamento da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e da Academia dos Saberes Indígenas, uma espécie de Academia Brasileira de Letras dos índios, só que com uma diferença conceitual: a instituição pretende mostrar que a literatura indígena vai além do conceito ocidental de escrita, pondo fim à ideia de que só há um tipo de literatura - a escrita e homenageando os velhos contadores de histórias indígenas. O patrono da turma será o ex-deputado Mário Juruna.

Para o encerramento deste sábado, as etnias Umutina, Xavante e Bororo apresentam as danças de seus povos.

Mato Grosso ocupa o segundo lugar do país em populações indígenas e de etnias. Atualmente residem somente no Estado mais de 28 mil índios de 41 etnias diferentes. Há indícios de outros nove povos ainda não contatados e não identificados oficialmente.

Por conta da representatividade dos povos nativos em Mato Grosso, o secretário estadual de cultura, Paulo Pitaluga, garante que esta deve ser a primeira de muitas feiras do livro indígena, tornando-se referência entre os eventos literários realizados no país.

(imagens: divulgação)

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12 de agosto de 2009

MS: Vídeo Índio Brasil projeta indígenas nas telonas

O Festival Vídeo Índio Brasil 2009, que acontece até o dia 16, chega a sua segunda edição com projeções em aldeias e localidades de sete cidades do Mato Grosso do Sul, onde vive 10% dos cerca de 700 mil indígenas brasileiros.

O evento, realizado pelo Pontão de Cultura Guaicuru, valoriza a presença das muitas populações e etnias indígenas na telona como forma de difundir a cultura indígena no Brasil.

São cerca de 285 atividades entre seminários, debates, exposições, exibições de filmes e uma oficina de produção de vídeo para indígenas.

Quarenta filmes serão exibidos em 16 localidades diferentes de Campo Grande, Corumbá, Dourados, Sidrolândia, Caarapó, Bonito e Coxim.

“A cultura indígena é a base da diversidade cultural brasileira. Nós, da cultura, queremos um País multicultural, e o Vídeo Índio Brasil quer revelar essa multidiversidade”, disse Andréa Freire, a coordenadora do Vídeo Índio Brasil 2009, na abertura do festival, na última segunda-feira.

Entre os destaques da programação, duas produções de atores globais: os documentários “Hotxuá”, de Letícia Sabatella, e “Expedição A’uwê, A Volta do Tsiwari”, de Marcos Palmeira e Laine Milan.

Enquanto o primeiro conta a história de Hotxuá, o palhaço sagrado da tradição dos índios Krahô, do Tocantins, o filme de Marcos palmeira retrata a vida de 400 pessoas na Terra Indígena Parabubure, no Mato Grosso, onde vivem Xavantes das aldeias São Pedro e Onça Preta.

Como não poderia deixar de ser, o Festival também exibe várias produções de cineastas indígenas, entre elas: “Bakororo Itubore, Ure Boe Ero Towujewuge, Legisladores Bororo”, de Paulinho Kadojeba, sobre um rito que representa os criadores das regras sociais da sociedade Bororo; “Um Olhar Sobre Ñhandereko”, de Sandra Terena e Aline Pereira, sobre o contato da população da aldeia Mbyá Pindoty, na Ilha da Cotinga (litoral paranaense) com o homem branco; “Tsõ’rehipãri, Sangradouro”, de Divino Tserewahú e Tiago Campos Tôrres, sobre a relação entre um grupo Xavante e a missão Salesiana de Sangradouro; e “Pi’õnhitsi, Mulheres Xavante Sem Nome”, dos mesmos autores, que tentam produzir um filme sobre ritual de iniciação feminina xavante.

Seja como autores das obras, seja como personagens principais de produções não-indígenas, os povos nativos brasileiros passam a ocupar um dos principais espaços de afirmação cultural contemporânea, o audiovisual.

Infelizmente, ainda hoje isso pode causar estranhamento a muitas pessoas, que vêem algo de impróprio na relação entre indígenas e uma câmera de vídeo.

É triste imaginar que esta ou outras notícias sobre o tema podem gerar comentários para lá de preconceituosos como “E índio faz filme?” ou “Lugar de índio não é na aldeia?”.

Quando vamos nos acostumar a esta cena no cinema?

Quando vamos nos acostumar a esta cena no cinema?

Em resposta a esse tipo de pensamento, o seminário “A Imagem dos Povos Indígenas na Mídia” faz parte da programação do Festival. Todas as manhãs até o dia 16, No CineCultura, em Campo Grande, cineastas e personalidades, indígenas ou não, discutem vários tópicos relacionados à imagem dos povos nativos - ou a ausência dela - construída pelos meios de comunicação.

A primeira edição do Vídeo Índio Brasil aconteceu no ano passado em Campo Grande, Corumbá e Dourados.

As atividades atingiram de forma direta mais de 10 mil espectadores nas três cidades, em oito locais, com grande repercussão em todo o País.

O Vídeo Índio Brasil 2009 é organizado pela Associação Cultural Oficina de Criação / Pontão de Cultura Guaicuru em parceria com o CineCultura, a Associação Amigos do CineCultura, a Funai, a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e o Ministério do Turismo.

(imagens: Ministério da Cultura [1]; Vídeo Índio Brasil [2, 3])

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15 de julho de 2009

Universidade de Brasília recebe I Congresso de Pesquisadores Indígenas

“No ano de 1981, o mais temido General do Governo Militar, de altíssima inteligência, Golbery do Couto Silva, apresentou argumentos de tres páginas determinando a Funai, a expulsão de 15 estudantes indígenas de Brasília sob argumento de que eram ‘cobras que picariam o governo’ futuramente”.

Quem nos conta este triste capítulo da história brasileira é Marcos Terena, líder indígena remanescente daquela época e diretor do Memorial dos Povos Indígenas de Brasília.

Hoje, quase 30 anos depois, os povos indígenas fazem as pazes com a academia. Começou nesta terça-feira, na Universidade de Brasília, o I Congresso Brasileiro de Acadêmicos, Pesquisadores Profissionais Indígenas.

O Congresso reúne mais de 900 pessoas até o dia 17 deste mês, entre elas lideranças de organizações não-governamentais, especialistas, estudantes, pesquisadores e profissionais indígenas que discutem o futuro da educação superior para os Povos Indígenas.

Gustavo Lins Ribeiro, diretor do Instituto de Ciências Sociais da UnB, considera este momento “histórico”. “É o primeiro encontro, acredito que muitos outros virão. É importante ressaltar que a UnB e todos os setores envolvidos abraçaram essa causa pela sua enorme importância”, enfatiza.

Nestes quatro dias de encontro, mesas redondas, palestras e grupos temáticos vão discutir sobre o significado de estar no ensino superior e os obstáculos que os jovens indígenas ainda encontram, como o fomento a pesquisadores indígenas; a dificuldade de acesso e de permanência; as diferenças culturais e, claro, o preconceito e a intolerância.

Para Gersem Luciano Baniwa, coordenador e palestrante do Congresso, além de diretor executivo do Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (Cinep), todos ganham com a presença indígena na academia.

- A universidade oferece novos caminhos, como a tecnologia e a ciência, e os jovens indígenas vêm para este ambiente com uma grande bagagem de conhecimentos que a universidade não possui. É uma troca - diz o coordenador.

“É um grande diálogo entre o saber tradicional e as demandas do mundo acadêmico”, concorda Marcos Terena, segundo o qual aqueles jovens que Golbery mandou expulsar resistiram e criaram o primeiro movimento indígena do País, a União das Nações Indígenas.

Com o movimento, veio também a célebre frase que se tornaria um dos maiores lemas da causa indígena: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou”.

Terena é o coordenador do tema Espiritualidade. O líder indígena defende a discussão da Espiritualidade no âmbito do Congresso:

- A espiritualidade é a base da resistência indígena e é superior a todos os dogmas da catequese e da religião, pois atua como ponte transversal entre passado e futuro e traz uma nova forma de ver o mundo com a afirmação da identidade cultural e o direito sobre a terra! O Índio sem terra não sobrevive. O Índio sem cultura não é nada - afirma.

Tal como a espiritualidade, alguns tópicos centrais para os povos indígenas dão vida a grupos temáticos, como gestão territorial e etnodesenvolvimento; vida nas cidades; saúde e direitos; histórias e memórias, dentre outros.

Como não poderia deixar de ser, a programação também inclui apresentações de música e dança, projeção de filmes e outras manifestações culturais indígenas.

(foto: Blog de Marcos Terena)

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19 de abril de 2009

SP: Cidade constrói “ocas” para Festival Indígena

Começou ontem e vai até a segunda-feira (20/4), na cidade de Bertioga, no litoral paulista, o Festival Nacional de Cultura Indígena. O evento acontece no Parque dos Tupiniquins, próximo ao Forte de São João, o primeiro forte do Brasil, construído em 1534.

Chamada antigamente pelor índios de ‘Buriquioca’ (”Morada dos Macacos Grandes”, na língua Tupi), Bertioga espera receber pelo menos 15 mil turistas nos três dias de Festival.

Sete povos indígenas estão presentes na celebração: Guarani; Xerente; Terena; Manoki; Karajá; Paresi Halití e Mehinako.

O Festival substitui a antiga Festa Nacional do Índio, realizada anualmente desde 2001 como celebração ao Dia do Índio, comemorado hoje, 19 de abril.

Mais que uma mudança de nome, o recém-nascido Festival foi desenhado para incorporar na festa a discussão da causa indígena - não por acaso, o evento é apoiado pela FUNAI e pelo Comitê Intertribal (ITC).

Segundo o próprio Comitê, foi idealizado um “cenário onde as comunidades indígenas pudessem se encontrar, intercambiar valores culturais e consolidar com a comunidade de Bertioga e outras regiões, uma aliança pela identidade brasileira”.

O novo formato tenta também aproximar o visitante do dia-a-dia do índio. Pela primeira vez, foram construídas sete ocas, casas onde habitam os indígenas, onde serão comercializado o artesanato das tribos presentes no Festival.

Com o lema “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou”, o evento terá apresentações dos povos indígenas e de grupos culturais sobre a temática.

Na abertura oficial, às 20h de ontem, teve o hino nacional interpretado em Guarani, pelo cacique Robson Miguel.

Além das apresentações, acontecem atividades esportivas, uma mostra da cozinha indígena, feira de artesanato e exposições culturais. Uma das ações mais esperadas do Festival é o simpósio que discute os direitos indígenas, que acontece durante o período da manhã, nos três dias de evento.

(foto: Tatiana Cardeal)

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17 de abril de 2009

Sarau Poético leva índios a SP, que declamam em línguas nativas

Já se imaginou ouvindo as mais diversas línguas nativas brasileiras, em textos declamados pelos próprios representantes de cada etnia?

O I Sarau das Poéticas Indígenas pretende dar uma amostra viva do enorme universo da literatura indígena brasileira, desconhecida da maioria do público do país.

O Sarau acontece no dia 19 de abril, das 15 às 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37, São Paulo) e tem entrada gratuita. Reúne índios aldeados, escritores indígenas e indianistas. Todos com o mesmo objetivo: compartilhar sua perspectiva do encantamento com a palavra e suas possibilidades.

- Há uma enorme lacuna no universo literário brasileiro, que é a literatura indígena. É uma incrível riqueza lingüística e o Brasil não conhece essa produção. Queremos chamar atenção para a pontinha do iceberg, colocar uma isca para as pessoas procurarem saber mais - comenta a antropóloga Deborah Goldemberg, curadora do evento.

Blogueiro, Ol�vio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

Blogueiro, Olívio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

A antropóloga explica que este não é um Sarau tradicional - afinal, não dá para esperar que os povos indígenas tenham a mesma relação com a palavra que o “homem branco ocidental”.

- Estamos trabalhando com diversas formas de expressão desse encantamento com a palavra. No Sarau vai ter a declamação tradicional de poemas; trova; contação de histórias; palestra entremeada com textos de prosa; transcrição de cânticos; dança e encenação teatral - descreve.

Um dos “orgulhos” da organização do Sarau é a presença dos índios Pataxó, do sul da Bahia, povo que travou o primeiro contato com os portugueses. Zé Fragoso, escritor indígena e cacique da Aldeia Tibá (Prado, BA) vai ao evento acompanhado de Manoel Santana, contador de histórias da Aldeia Boca da Mata (Itamaraju, BA).

Deborah Goldemberg cita ainda a presença dos Guarani. “Eles não fazem distinção entre arte e vida. A forma como se alimentam, se vestem - todo o seu cotidiano é arte”, diz.

"precisamos de mais contato com o �ndio contemporâneo"

Goldemberg: "precisamos de mais contato com o índio contemporâneo"

É importante ressaltar que muitos escritores indígenas não apenas trabalham com a língua portuguesa, como observam os aspectos formais da poesia. Os escritores Olívio Jekupe e Eliane Potiguara, por exemplo, possuem inclusive blogs. Não faz muito tempo, Potiguara chegou a organizar um e-book indígena (o link é de um arquivo executável, mas pode abrir sem medo).

Para a curadora do Sarau, o Brasil tem que superar a dualidade com que vê a figura do índio: ou a visão romantizada do “bom selvagem” ou a visão degradada que remete à barbárie e á ameaça à civilização.

- Temos que ter mais espaços de contatos com o índio contemporâneo. O índio que aparece nos livros de escola é o índio de 500 anos atrás. O contato seguinte das pessoas com os índios é feito pela mídia, que os retrata como incapazes, alcoólatras e, mais recentemente, “comedores de gente” - reivindica.

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book ind�gena

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book indígena

No Sarau também serão declamadas obras de escritores que abordam a temática indígena. Entre eles, Gonçalves Dias, José de Alencar, Sousândrade, Raul Bopp, Oswald de Andrade e Mario de Andrade.

Da literatura contemporânea vem uma das estrelas do Sarau, o paraguaio Douglas Diegues. Diegues vive na fronteira entre o Brasil e o país vizinho e auto-denomina sua obra como Portunhol Selvagem - um misto de português, espanhol e guarani.

Pergunto à curadora se qualquer um conseguiria entender os textos de Douglas Diegues.

- Tem que fazer um esforçozinho, mas não é tão diferente, por exemplo, se você for ler Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa). Toda literatura que inova tem aquele desconforto no início. Mas a obra de Diegues é quase uma volta às origens, quando a língua geral era a língua mais utilizada no Brasil - diz.

Além das declamações - que ocorrem no grande salão com espaço para 300 pessoas da Casa das Rosas - vai haver no local uma feira de artesanato indígena e outras, de livros. “Todas as editoras que publicam literatura indígena, pelo menos todas as de São Paulo, estarão lá”, garante Deborah Goldemberg.

O Sarau também vai ser tema de dois programas da TV Cultura, o Entrelinhas e o A’Wue.

(fotos: divulgação)

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16 de abril de 2009

MT: Povos nativos do Araguaia realizam segunda edição de jogos indígenas

Os times são suas tribos. Os esportes, levemente “adaptados” das modalidades tradicionais. É assim, promovendo a comunhão e celebrando a diferença, que centenas de indígenas reúnem-se nos dias 18 e 19 deste mês na Aldeia Urubu Branco, da etnia Tapirapé, para a realização dos II Jogos Olímpicos Esportivos Culturais dos Povos Indígenas do Araguaia.

Além dos anfitriões, outras cinco etnias (Carajás; Javaés; Camaiurás; Cuicuros e Caibis) participam dos Jogos. Ao todo, a celebração deve mobilizar, entre competidores e acompanhantes, cerca de mil indígenas das etnias envolvidas.

Segundo Fabinho Wataramy Tapirapé, presidente da APOIT (Associação Povos e Organização Indígena Tapirapé), além de comemorar o Dia do Índio (19/4), o principal objetivo da competição “é o estreitamento dos laços de amizade entre os povos” - e isso inclui os não-indígenas. O convite para apreciar os Jogos é, portanto, extensível aos “cara-pálidas”.

Como a Aldeia Urubu Branco fica bastante próxima (28 km) ao município de Confresa, situado no extremo nordeste matogrossense, há a expectativa que a aldeia receba cerca de mil visitantes não-indígenas para acompanhar o evento. Quem for lá vai perceber uma novidade: há apenas 20 dias foi feita a primeira ligação da energia elétrica na aldeia.

As modalidades esportivas em disputa são futebol, cabo de guerra, arremesso de lança, corrida de 100 metros e arco e flecha. Todas elas, divididas entre masculino e feminino. A única exceção é o arco e velha, quando homens e mulheres competem juntos.

É curioso notar, entretanto, que a premiação é muito maior para os campeões do futebol masculino, cujo primeiro lugar leva R$ 1000,00. Esse valor é o dobro da premiação do futebol feminino (R$ 500,00) e dez vezes mais a das outras modalidades, R$ 100,00.

“As meninas têm o mesmo valor dos homens. Têm premiação menor porque os homens disputam mais partidas, é mais concorrido”, argumenta Fabinho Tapirapé. O presidente da APOIT, entretanto, não se sai tão bem quando tenta explicar a diferença em relação às outras modalidades:

- O futebol é o que mais chama atenção, as pessoas são mais interessadas no futebol… além disso, estamos com pouco dinheiro para evento…

Premiações à parte, Fabinho Tapirapé garante que o estímulo à prática esportiva, cuja ápice seria a realização dos Jogos, “é ainda um incentivo para que os jovens das aldeias não se envolvam com drogas”.

Os II Jogos Indígenas do Araguaia também são um momento de manter viva as tradições e as marcas de identidade cultural dos povos.

Na noite do dia 17, quando acontece a abertura oficial dos Jogos, os representantes de cada povo fazem uma apresentação, dão uma amostra aos presentes dos encantos de sua etnia. O mesmo acontece no encerramento dos Jogos.

- Nesse momento não há competição nem prêmios - diz Fabinho Tapirapé. - As culturas de cada um dos povos têm o mesmo valor.

(fotos: Ednilson Aguiar/ Secom-MT [1]; Leandro Nascimento [2; 3])

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15 de abril de 2009

Fogo Sagrado anuncia Semana dos Povos Indígenas

De hoje até domingo, diversos povos indígenas reúnem-se para discutir a situação do índio no Brasil. Durante a Semana, serão convênios com os governos federal e distrital voltados aos povos nativos.

Hoje às 18h tem início a cerimônia de acendimento do Fogo Sagrado no Memorial dos Povos Indígenas, Eixo Monumental Oeste, em Brasília.

“Aceso como luz para o nosso direito à vida”, o Fogo Sagrado inaugura a Semana dos Povos Indígenas, um conjunto de eventos dedicados a por o índio no centro da agenda pública nacional que culmina com a celebração do Dia do Índio no próximo domingo, 19.

As chamas, acesas pelos dois líderes espirituais do povo Guarani Kaiowá, simbolizam também o respeito à diversidade cultural brasileira e a possibilidade de convivência sadia dos muitos povos que habitam este país multi-étnico.

Projetado por Oscar Niemeyer em forma de espiral que remete a uma maloca redonda dos índios Yanomami, o Memorial dos Povos Indígenas recebe seis etnias de quatro estados brasileiros, que representam oficialmente os povos indígenas presentes no território nacional. São elas: Fulni-ô e Pankararu (PE); Guarani Kaiowá (MS); Kariri-Xocó (AL); Pareci Haliti e Yawalapíti (MT).

Chama a atenção um esporte tradicional praticado pela etnia Pareci Haliti, o Xikunahatí, também conhecido como “cabeça-bol” ou “futebol de cabeça”, no qual só se pode utilizar a cabeça para tocar a bola, que é feita com cera da mangabeira.

Durante esses cinco dias, indígenas e não-indígenas cumprem uma extensa programação, que contempla rituais indígenas; pintura corporal; exposição e venda de Artes Indígenas; exposições diversas; exibição de filmes e documentários; apresentação de lendas e história de vida indígena e muitos debates envolvendo a temática.

Também estão agendadas assinaturas de convênios e termos de cooperação. Na quinta-feira, 16, o Ministério da Cultura e a FUNAI, diante de entidades indígenas e indigenistas, lançam 150 novos Pontos de Cultura Indígenas. No dia seguinte, é a Secretaria de Cultura do Distrito Federal quem firma cooperação com a FUNAI.

O Domingo é aberto uma café da manhã intercultural, seguido da celebração do Dia do Índio. Ao por-do-sol, o Fogo Sagrado é apagado, sinalizando o fim das comemorações.

150 Pontos de Cultura para os povos indígenas até 2010

Já existe uma rede de cerca de dois mil pontos de cultura espelhados pelo país, dentre eles cerca de 33 instalados em comunidades indígenas.

Tradicionalmente escolhidos via edital público, os pontos são considerados uma das ações mais bem sucedidas da pasta da cultura do governo federal.

A iniciativa inédita de dedicar mais 150 pontos exclusivamente para os povos indígenas vai possibilitar que muitas tribos ganhem, além de dinheiro para potencializar suas atividades, conexões de internet via satélite (programa Gesac), equipamentos de informática e audiovisuais. Também está prevista a capacitação para a produção de vídeos e inclusão digital.

Serão contempladas imediatamente 30 comunidades indígenas de cinco estados (Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima). Outras 60 ainda em 2009 e mais 60 no ano que vem.

(fotos: reprodução/ AP)

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