Terra Magazine

13 de novembro de 2009

BA: Salvador vai ganhar primeiro museu multimídia da música negra

Uma coletiva de imprensa, realizada ontem à tarde, anunciou a criação, em Salvador, do Centro de Música Negra, o primeiro museu multimídia dedicado à música negra em todo o mundo.

O empreendimento é uma parceria entre o grupo de mídia francês Mondomix, Carlinhos Brown e a Secretaria de Cultura da Bahia e deve ser inaugurado daqui a um ano, em dezembro de 2010. O Centro será instalado no Museu du Ritmo, casa de espetáculos de Brown localizada no bairro do Comércio.

O Centro de Música Negra terá salas de exposição permanentes e temporárias, um centro de pesquisa e documentação online, café, restaurante, e espaço para shows, palestras e workshops. O seu projeto cenográfico é assinado pelo arquiteto paulista Pedro Mendes Rocha, também autor do projeto arquitetônico do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Ao apresentar o desenho do novo museu, o arquiteto não se contém e afirma: “Para mim, o nazismo e a escravidão foram os maiores exemplos de loucura coletiva da humanidade”.

Responsável pela concepção e produção do projeto - bem como pela pesquisa do conteúdo artístico, realizada com a colaboração de especialistas internacionais -, a Mondomix projeta um museu sensorial e interativo, repleto de inovações tecnológicas cujo objetivo é fazer o público imergir nas sonoridades com DNA africano.

O conteúdo do novo museu é inesgotável, afinal, não param de surgir, em cada canto do mundo, novos artistas, grupos e ritmos derivados, inspirados, enfim, herdeiros da cultura negra.

Após a entrevista coletiva foi inaugurada uma exposição multimídia temporária, um pequeno aperitivo do que será o Centro de Música Negra, que poderá ser visitado de hoje até 15 de novembro, das 18h às 22h.

“Os tambores nasceram para substituir as armas”

Óculos escuros, uma espécie de turbante estilizado, um colar de contas por cima da roupa. Sentado em meio à mesa como um cacique, Carlinhos Brown faz um discurso emocionado, expressando tanto a dor ainda hoje presente na vida dos negros quanto a esperança de construir um planeta mais pacífico, harmonioso e tolerante.

- Tem sido árduo nos manter não-violentos com leis que não criamos e que não nos protegem com a dignidade que necessitamos. Nós, africanos, temos que vencer essa dor, essa miséria. Não a pobreza, porque a pobreza nós sempre estivemos preparados para enfrentar - diz o cantor.

Embora confiante na construção de um mundo que valorize a diferença, a fala de Brown também revela as cicatrizes ainda vivas de séculos de escravidão.

- Falam muito de Cristo. Eu acredito em Cristo. Mas Cristo veio em muitas formas, em muitos navios negreiros - diz.

"Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens"

Brown, com a cantora Mounira Mitchala (Chade): "Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens"

O músico defende ser preciso “reeducar o mundo” a partir de práticas e valores das culturas negras e indígenas. “Os tambores nasceram para substituir as armas”, afirma.

- Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens. A África está adormecida em todos aqueles que pensam que não somos todo africanos. Não falo apenas dos negros não - todos viemos da África. A natureza pode ter vários nomes. Um deles é África.

Para Brown, o Centro de Música Negra tem o papel de oportunizar esse retorno às origens, o contato com matrizes culturais renegadas pela cultura ocidental e o intercâmbio entre diferentes culturas.

- Aqui as crianças vão encontrar o que não vêem nas suas escassas horas nas salas de aula. Vamos tirar de cena o tráfico e fazer um tráfego de cultura a partir do Centro de Música Negra. O Centro amarra esse nosso desejo coletivo de unir nossas culturas e nos irmanarmos - advoga.

O momento mais emocionante da entrevista coletiva é a menção que Brown faz a Neguinho do Samba, falecido no dia 31 de outubro: “Queria muito que um dos meus heróis, um dos meus mentores, Neguinho do Samba, estivesse aqui de corpo presente”.

O cantor lembra do trabalho de Neguinho do Samba e diversos outros líderes negros, especialmente aqueles que atuam no centro histórico de Salvador, e faz um chamado:

- Nós vamos levantar o Pelourinho. Vamos rever o Pelourinho como um centro de liberdade do nosso povo.

(fotos: Edgar Souza/ Divulgação)

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12 de novembro de 2009

BA: Festival de Músicas Mestiças aporta em Salvador

Tambores, batidas, movimentos. Ritmos tão próximos e tão radicalmente distintos. As muitas faces da musicalidade negra aportam na capital baiana de sexta a domingo, no Festival Músicas Mestiças Salvador.

Capital da Bahia e primeira capital do Brasil, Salvador é a cidade com maior população negra fora da África. Talvez por conta disso a versão baiana do Festival Musiques Métisses - criado há 34 anos pelo produtor francês Christian Mousset - tenha dado a ênfase à diáspora negra e à produção musical africana contemporânea. Mousset já está na Bahia para conferir de perto este desdobramento da sua cria.

Carlinhos Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

O Festival acontece no Museu du Ritmo, espaço para espetáculos de Carlinhos Brown, localizado no bairro do comércio. O “dono da casa” também participa da festa, tocando ao lado dos percussionistas da Les Tambours de Brazza, do Congo, logo na noite de abertura do evento.

Durante as três noites do Festival, cantores e bandas da cena musical da África francófona e da diáspora negra dividem o palco com artistas baianos cuja sonoridade também é claramente influenciada pelos ritmos africanos.

As apresentações acontecem sempre em pares. Uma saudável inversão de papéis faz dos estrangeiros anfitriões e dos baianos, convidados. Assim, o público soteropolitano tem oportunidade tanto de conhecer o trabalho solo dos grupos de fora do país quanto de vê-los no palco ao lado das estrelas locais. Confira a programação.

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

São seis os convidados inernacionais do Festival. Os já citados percussionistas do Congo, o rapper Didier Awadi (Senegal); a cantora Mounira Mitchala (Chade), conhecida como a “pantera doce de Ndjaména”; Tiken Jah Fakoly, reggaeman da Costa do Marfim que canta em francês e no dialeto diola; e o haitiano BélO, único representante do Caribe e de fora da África entre os artistas estrangeiros, inventor do ritmo “raggaganga”, que, segundo o próprio, é uma mistura de reggae, música vodu, rara, soul, dialogando também com o jazz.

O uso da língua francesa - traço comum a todos esses artistas - foi um critério importante para sua seleção, na medida que o Festival Músicas Mestiças Salvador é encerra a programação baiana do Ano da França no Brasil.

Mas existe uma exceção nessa lista: o caboverdiano Tcheka é o único estrangeiro que não tem o francês, mas o português, como língua oficial. Cantor e compositor, Tcheka desenvolveu um estilo pessoal de tocar a guitarra baseado no batuque, um ritmo popular de Cabo Verde.

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

Do aldo de cá do Atlântico, os artistas baianos escolhidos para enriquecer essa diversidade sonora fazendo participações especiais nos shows são: Carlinhos Brown, Margareth Menezes, a percussão do Olodum, Mariene de Castro, Mariella Santiago, Lazzo Matumbi, Percussivo Mundo Novo e Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz, que, com sua mistura de jazz e percussão afro-baiana, abre o encontro.

Além de shows, o Festival Músicas Mestiças Salvador oferece também oficinas musicais com Mounira Mitchala (hoje), Tcheka e Les Tambours de Brazza (sábado), na Candyall Gueto Square.

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Uma conferência sobre gestão coletiva de direitos autorais, organizada pela Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música (SACEM), da França, completa a grade de atividades do evento nesta sexta-feira.

E, então, que tal conhecer um pouco da diversidade da música negra no mundo?

(fotos: João Meirelles [Carlinhos Brown]; Eduardo Freire [Museu du Ritmo]; Mariele Góes [Orkestra Rumpilezz]; divulgação [demais])

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28 de setembro de 2009

BA: Mãe de Santo até hoje tenta reaver prejuízos de terreiro demolido por prefeitura

Ialorixá busca ressarcimento por danos causados com demolição. Caso completa um ano e sete meses sem mostras de ser resolvido. “Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morreu”, diz a mãe de santo.

Desde a demolição parcial do terreiro de candomblé Oyá Onipó Neto, localizado no bairro do Imbuí (Salvador), em 27 de fevereiro de 2008, a rotina de Roselice Santos do Amor Divino, a Mãe Rosa, passou a incluir audiências e visitas constantes à Prefeitura de Salvador.

Na próxima quarta-feira (30/09), comparece a uma audiência no setor de meio ambiente do Ministério Público. São tantas que a própria mãe de santo tem dificuldades para determinar com clareza os seus objetivos.

- Olhe, meu filho, é tanta audiência que a gente nem sabe mais direito para que é. Acho que é para eu ter uma garantia que não vão tentar demolir o terreiro de novo - conta a ialorixá.

Na lista de audiências, Mãe Rosa também aguarda o julgamento do recurso da ação que move contra Kátia Carmelo, ex-superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador, que ordenou à época a demolição do terreiro.

O judiciário deu ganho de causa a Carmelo em primeira instância. “O Juiz entendeu que ela estava certa”, comenta Mãe Rosa, com algum rancor na voz. Paradoxalmente, ainda no ano passado a ex-superintendente chegou a receber uma honraria da cidade de Salvador, a Comenda Maria Quitéria.

- Eu não desejo que ela vá presa. Quero que ela seja punida, me dando de volta tudo o que ela destruiu - comenta Mãe Rosa sobre a ação contra Kátia Carmelo.

A peregrinação pelas diversas instâncias judiciais não se compara, no entanto, com a dificuldade que a Ialorixá tem para negociar o ressarcimento dos prejuízos causados ao terreiro.

O Blog das Ruas já havia feito uma matéria sobre a situação do terreiro Oyá Onipó Neto em 16 de setembro do ano passado. Na época, a mãe de santo foi diagnosticada de depressão porque a prefeitura tinha apenas reparado as paredes do local, sem recuperar nada do patrimônio destruído, como estátuas e roupas dos orixás e vários outros instrumentos utilizados nos rituais. “Só mexeram na casca”, dizia a Ialorixá.

Desde então, as negociações nada avançaram e a municipalidade não aportou mais nada, apesar dos esforços da mãe de santo.

- De promessa, se vive o santo. O prefeito prometeu: “vou ajeitar”, ele disse. Dali pra cá, vi a cara do prefeito naquele dia [cinco de março de 2008, quando o povo de santo fez uma passeata até a prefeitura]. Depois, não vi mais - fala, indignada.

Mãe Rosa conta que, inclusive, a Secretaria Municipal de Reparação, órgão com o qual negocia a reposição dos bens do terreiro, chegou a perder toda a sua documentação.

- Meus documentos sumiram na Secretaria de Reparação. Deram fim. Mas como tenho tudo no Ministério Público, fui até lá e peguei a lista novamente e levei para o novo secretário.

Apesar de ter conseguido uma audiência com o secretário municipal, não conseguiu convencê-lo a repor o patrimônio destruído.

- Ele disse que tem coisa que não poderia dar. Mas eu respondi: “Essa é a minha cultura. Se destruiu tem que recuperar desse jeito”. Não pedi nada, só o que já tinha aqui - afirma Mãe Rosa.

Do secretário Ailton dos Santos Ferreira, ouviu a promessa de uma audiência em breve com o prefeito João Henrique Carneiro. “Ele disse que entraria em contato comigo e nada. Toda vez que eu ligo, ele [o secretário] nunca está”, reclama.

Sem perspectiva de solução para o terreiro e com a questão encaminhando-se para o segundo aniversário, Mãe Rosa desaba:

- Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morre. Eu tenho que recomeçar tudo de novo.

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16 de agosto de 2009

MG: Festejo do Tambor Mineiro reverencia religiosidade negra

Já virou tradição: todo ano, a Associação Cultural Tambor Mineiro fecha dois quarteirões da Rua Ituiutaba (bairro Prado, na região oeste de Belo Horizonte) para reunir Guardas de Congado e outras expressões da musicalidade afro-mineira.Hoje, a partir das 10h, o espetáculo se repete.

Em sua sétima edição, o Festejo do Tambor Mineiro une artistas e grupos de Minas Gerais a dez Guardas de Congado.

Entre as atrações da programação, Sérgio Pererê, Moçambique Velho Africano, Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário, Guarda Vilão Santa Efigênia, Guarda de Caboclo São Jorge e Mauricio Tizumba.

A festa levou 10 mil pessoas às ruas em 2008. Neste ano, espera-se pelo menos o mesmo público

A festa levou 10 mil pessoas às ruas em 2008. Neste ano, espera-se pelo menos o mesmo público

- Essa manifestação da negritude congadeira normalmente fica lá no seu terreiro, na sua região. Já aqui [no Festejo], aparecem negros e não-negros. É a melhor forma de fazer as pessoas se conhecerem, se respeitarem e acreditarem uns nos outros. Esse vínculo faz as pessoas passarem a conviver melhor - afirma o artista Maurício Tizumba, idealizador da festa.

De fato, ao longo de sua existência, o Festejo do Tambor Mineiro vem apresentando as Guardas de Congado e outras manifestações da cultura negra mineira - como Moçambiques e Caboclos - que tradicionalmente ocorrem na periferia de Belo Horizonte para o público da classe média da cidade.

- O que a gente faz lá é um dia. Na periferia, a festa não para. O congado tem novena, acontece em uma semana. Esse contato desperta a curiosidade das pessoas e algumas delas passam a acompanhar as manifestações também na periferia - explica Elias Gibran, coordenador de produção do evento.

Para Tizumba, idealizador do evento, religiosidade é fundamental

Para Tizumba, idealizador do evento, religiosidade é fundamental

A festa dura cerca de 10 horas, das 10h às 20h. Pela manhã, apresentam-se as manifestações de base religiosa, como os grupos de Congado; à tarde, os artistas, a parte “profana” do espetáculo. “O interessante é que, a cada ano, as guardas de congado ficam para ver os profanos e vice-versa”, diz Gibran.

A religiosidade é sempre presente no Festejo do Tambor Mineiro, que também é uma celebração aos santos negros, em especial a Nossa Senhora do Rosário. “A Santa aceitou os negros como eles são. Com muita fé, cantamos e dançamos para cultuar e reverenciar a divindade”, conta Pedrina Lourdes dos Santos, capitã da Guarda Nossa Senhora das Mercês de Oliveira.

A religiosidade negra mistura fé católica e rituais de origem africana

A religiosidade negra mistura fé católica e rituais de origem africana

Extremamente religioso, o criador do evento também enfatiza o aspecto espiritual do evento: “Eu sempre ando com o rosário no pescoço. É maior que as pedras do caminho, mais forte que uma flecha certeira”, diz.

O acesso ao Festejo do Tambor Mineiro é feito mediante 1kg de alimentos não-perecíveis, a ser doado para as Guardas de Congado. “O alimento é para ajudar as Guardas a realizarem as festas na periferia ao longo do ano”, explica Gibran.

(fotos: Leonardo Lara/ Festejo do Tambor Mineiro)

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BA: Caminhada para orixá das doenças reforça sincretismo em Salvador

Há 11 anos, a Caminhada Azoany reúne o povo de santo no dia da festa católica de São Roque. Todo ano, os adeptos da religião africana percorrem os seis quilômetros que separam o Pelourinho, no centro de Salvador, e a Igreja de São Lázaro, no bairro da Federação.Além do sincretismo com São Roque, Azoany é uma das denominações jeje para o Orixá Obaluaê, divindade do candomblé ligada às doenças e à cura.

- Vestidos de Branco, sejam elas de roupas de baianas, camisas confeccionadas para a Caminhada ou roupas escolhidas a dedo para o evento, com balaios de pipocas na cabeça, ramos e buquês de flores (para colocarem na Igreja), embalados ao som dos atabaques e agogôs (afoxé), percorrem o Pelourinho em direção ao Campo Grande adentrando as ruas que levam ao Bairro da Federação até a Igreja de São Lázaro, onde todos os participantes entendem como comprida naquele ano a sua reverencia as entidades religiosas - conta Albino Apolinário, 45, organizador da caminhada e Ogã de Nanã.

Embora a Caminhada Azoany seja uma atividade específica do povo de santo, todos reconhecem a importância do sincretismo para a atividade. “É um Encontro muito bonito, quando a procissão católica está saindo e o candomblé está chegando. Tudo na mesma igreja (São Lázaro)”, diz Apolinário.

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

- O sincretismo nasce quando os escravos eram obrigados a cultuar os santos Igreja Católica. Eles cuidavam do altar do santo e, embaixo, faziam assentamento para Ogum e outros orixás. A Lavagem do Bomfim nasce do pessoal do candomblé que ia para a Igreja fazer oferendas a Oxalá. O sincretismo teve como resultado a tolerância entre as duas religiões - acrescenta o organizador da caminhada.

Este ano, a Caminhada Azoany foi precedida por debates sobre a religiosidade afro-brasileira, realizados nos dias 13 e 14, na Casa do Benin.

No domingo (16), Dia de São Roque, a jornada começa com uma missa em favor da caminhada na Igreja do Carmo (Pelourinho), sede provisória da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em reforma, a Igreja do Rosário dos Pretos não pode acolher a cerimônia como de costume.

Concentração na Praça do Reggae

Concentração na Praça do Reggae

Em seguida, os integrantes preparam a caminhada com oferendas e uma concentração na Praça do Reggae, também no Pelourinho. Às 13 horas, embalado pelo afoxé Korin Efan, o cortejo sai em direção à Igreja de São Lázaro.

“Participam da caminhada pessoas de todas as idades. Desde o meu filho de três anos até o seu Martins, de 77 anos, que foi o criador da atividae”, diz Apolinário.

Primeiro a fazer o percurso, há 44 anos, seu Martins, morador antigo do pelourinho, pagava uma obrigação religiosa. Desde então, não houve um ano em que deixasse de cumprir o ritual.

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

O evento mudou de nome quando passou a ser organizada pela Associação Comunitária Alzira do Conforto, em 1998. Ganhou o nome atual por conta de uma conversa entre os organizadores e a Yalorixá Mãe, que apresentou-lhes as diversas denominações para o Orixá das Doenças.

- Este ato passou a ser realizado de maneira contínua e no último ano teve a participação de duas mil pessoas de todas as classes e epidermes - afirma, espirituoso, Albino Apolinário.

(fotos: Associação Comunitária Alzira do Conforto/ Divulgação)

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14 de agosto de 2009

Artistas negros celebram 21 anos da Fundação Palmares

Criada em 22 de agosto de 1988, a Fundação Cultural Palmares (FCP) completa 21 anos de existência na próxima sexta-feira.Entidade pública vinculada ao Ministério da Cultura, A Fundação Palmares tem o dever de, como está escrito na lei que a institui (nº 7.668/1988), “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”.

Ao longo desses 21 anos de luta contra o preconceito racial e pela afirmação da negritude brasileira, a Palmares se viu no epicentro de várias polêmicas. Posso estar esquecendo alguma, mas talvez as principais delas sejam as cotas para acesso de estudantes negros às universidades e a demarcação de terras para comunidades remanescentes de quilombos.

Dá para entender, então, porque cada aniversário da entidade é celebrado como um reconhecimento da ampliação do espaço cultura negra no país.

As senhoras do Samba de Roda Suerdieck eram funcionárias de uma fábrica de charutos

As senhoras do Samba de Roda Suerdieck eram funcionárias de uma fábrica de charutos

Em 2009, a festa começa no dia 17 e vai até o aniversário da FCP, dia 22. As festividades acontecem em cinco espaços da capital federal, onde a Palmares é sediada: na própria sede da Fundação (auditório, platô e Espaço Cultural Palmares); no Galpão Funarte e no Teatro Nacional.

A programação é totalmente gratuita e privilegia a diversidade das expressões populares da cultura afro-brasileira, representada principalmente pelos grupos Jongo da Serrinha; Contos do Congo, Tambor de Crioula; Samba de Roda Suerdieck e Maracatu de Baque Solto.

A comemoração do aniversário da Fundação Palmares também terá a presença de estrangeiros. O coletivo de artistas Entre dos mares: ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá propõe a integração da música afro-latina desses países, enquanto os quatro percussionistas Benkos Kusuto apresentam a musicalidade da comunidade do Palenque de San Basílio (costa do Pacífico Colombiano).

Contam as histórias que o fundador do Grupo Gualajo seria um predestinado representante da marimba

Contam as histórias que o fundador do Grupo Gualajo seria um predestinado representante da marimba

Já o Grupo Gualajo tem uma história muito sobre o seu fundador, o maestro colombiano José Antônio Torres Gualajo, hoje com 67 anos. Tocador de marimba há mais de 50, dizem que, em seu nascimento, a parteira o colocou em cima de uma marimba para cortar o cordão umbilical.

Assim, ao ouvir a ressonância do instrumento logo ao nascer, somado à herança musical dos pais, Gualajo predestinou-se a ser um guardião da preservação de Marimba e de todos os ritmos que ela pode ressoar como: currulos, aguabajos; jugas; andareles. Além de tocar, o maestro tornou-se um mestre no ofício de construir cada um dos componentes que constituem a marimba.

Além das apresentações de música e dança, o evento conta com oficinas de Chula, de Percussão e de Ritmos Afro do Caribe e do Pacífico.

O tradicional Jongo da Serrinha também se apresenta no aniversário da Palmares

O tradicional Jongo da Serrinha também se apresenta no aniversário da Palmares

Durante toda a semana de celebrações, exposição fotográfica Negrice Cristal, de Januário Garcia, fica em cartaz.

A programação conta ainda com uma degustação de comida afro-brasileira, no dia 21, às 12h, no Platô da FCP.

No dia 22, a Fundação Palmares apaga suas velinhas no Teatro Nacional, com direito a shows de Luiz Melodia e Lazzo Matumbi, precedidos por um desfila de moda afro (estilista Rodinei, MG) e pela entrega do Troféu Palmares, que homenageia personalidades na luta em favor da igualdade preconceito racial.

Mãe Beate de Iemanjá receb o Troféu Palmares no dia 22

Mãe Beate de Iemanjá receb o Troféu Palmares no próximo dia 22, no Teatro Nacional (Brasília)

Nesta edição o Troféu vai para Esther Grossi, professora, escritora e ex-deputada federal, autora da lei que institui a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura da África e dos afro-brasileiros (nº10.639/2003) e para Mãe Beata de Iemanjá (Beatriz Moreira Costa), religiosa de matriz africana do candomblé, iniciada há mais de 50 anos, e conhecida sacerdotisa e ativista social da cidade do Rio de Janeiro.

(fotos: David Pinheiro/ divulgação [1] e reprodução [demais])

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25 de maio de 2009

Festival Mundial de Artes Negras é lançado no Brasil

Festival acontece em dezembro, no Senegal. Por ser o país convidado de honra, Brasil realiza lançamento oficial esta noite, no Teatro Castro Alves (Salvador).

Hoje, no Dia da África, a cidade mais negra do Brasil lança a terceira edição do Festival Mundial das Artes negras - Fesman, que será realizado em Dakar (Senegal), de 1º a 14 de dezembro de 2009.

No palco do teatro baiano, apresentações de Gilberto Gil, Margareth Menezes, Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, Balé Folclórico da Bahia, Les Frères Guissé , Balé do Senegal, dentre outros, dão uma pequenina mostra da grandiosa festa marcada para o final do ano.

A presença dos presidentes de ambos os países, Brasil e Senegal, na solenidade de lançamento dá uma ideia da importância do Festival, que já tem confirmadas delegações de 53 países. Até o fim do ano, a organização do evento pretende que este número suba para 80.

A realização do Festival retoma uma história que começou há 42 anos, quando foi realizada a sua primeira edição, também em Dakar, em 1966. Dez anos depois, ocorreu em Lagos (Nigéria) a segunda - e até o momento, última - edição do Festival.

O ministério de Birame Diouf foi criado especialmente para realizar o Festival

O ministério de Birame Diouf foi criado especialmente para realizar o Festival

Com o tema “A Renascença Africana”, o III Fesman é revestido da importância de, nas palavras do presidente senegalês Abdoulaye Wade, “ser uma vitrine de Excelência da fecunda criatividade do mundo negro e, também, um campo de fortalecimento moral e de mobilização de todas as propostas para o desenvolvimento da África”.

O Festival é tão levado à sério que o presidente Wade nomeou um ministro de Estado especificamente para cuidar da realização do evento.

Neste domingo (ontem), tive a oportunidade de participar de uma entrevista ao ministro Mame Birame Diouf, que estava acompanhado de Alioune Badara Beye, coordenador geral do evento, e Bernard Lama, goleiro reserva da seleção francesa da copa de 1998 e “embaixador da boa vontade” do Festival.

Fazendo as vezes de anfitrião do país convidado de honra do Festival, Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares, acompanhava o trio. A Fundação Palmares é responsável por organizar toda a delegação brasileira que participará do Fesman.

- Esse é um momento para reposicionar a África; dar ao mundo negro a sua posição. O mundo negro deve falar dos negros e o Fesman é uma boa oportunidade para isso - diz o Ministro.

Uma das repórteres pergunta que artistas negros brasileiros o povo do Senegal conhece. Rapidamente, o Ministro devolve a pergunta: “E que artistas senegaleses vocês conhecem? É isso que queremos do Fesman, a circulação do povo negro”.

Ainda segundo o ministro, foi preciso esperar que o Senegal elegesse um intelectual, o presidente Wade, para que fosse retomado o projeto do Fesman. Agora, desejam que o evento seja realizado regularmente nos países do continente africano e da diáspora negra. E sugere, gentil, que a próxima edição seja realizada no Brasil.

Os senegaleses sugerem que o Brasil receba próxima edição do Fesman

Os senegaleses sugerem que o Brasil receba próxima edição do Fesman

No meio da conversa, pergunto ao ex-goleiro Bernard Lama se o racismo no futebol, bastante evidente na Europa e convenientemente pouco explícito no Brasil, levou ao engajamento dele e de outros companheiros.

- O racismo é um problema que está no cotidiano do mundo inteiro. O futebol apenas tem mais imprensa, mais visibilidade. É um problema da educação e da falta de comunicação dos povos. Mas jogadores de futebol podem fazer muita coisa a respeito - diz Lama.

Cartas marcadas

O Fesman é definido pelo seu coordenador geral, responsável pela parte artística, como o “Festival dos Festivais”, pela sua grandiosidade e pela variedade das modalidades artísticas.

O evento terá mostras competitivas de teatro, literatura (poesia, romance, novela, ensaio, conto), dança tradicional e contemporânea, música tradicional e moderna, moda, artesanato, arte visual (pintura, escultura e design) e cinema (curta-metragem, longa-metragem, documentário, filme de animação). Os artistas vencedores de cada categoria levam de volta para casa 15 mil euros.

Como país convidado, o Brasil poderá levar quantos artistas quiser na delegação organizada pela Fundação Palmares. Zulu Araújo afirma que haverá duas modalidades de escolha dos representantes nacionais: convites a artistas, personalidades e lideranças negras do país já reconhecidas e um edital para seleção de artistas negros emergentes.

- Quero deixar claro aqui. Uma parte dos artistas somos nós que vamos convidar. São cartas marcadas mesmo. Não vou submeter Zezé Motta, Milton Gonçalves, Gilberto Gil ou o Ilê Aiyê a uma seleção. A vida deles já foi essa seleção - afirma Araújo.

Além das mostras competitivas, o Festival terá grande espetáculos - dentre eles um show do ex-ministro brasileiro Gilberto Gil -, e um colóquio, no qual intelectuais dão a sua versão para o tema “A Renascença Africana”.

Dentre as discussões, está não apenas o mundo artístico, mas o universo das finanças e da geração de renda, bem como outras reflexões científicas e sociais.

- O III Fesman será um passo importante para a integração do povo negro na governança mundial - aposta o ministro Mame Birame Diouf.

(fotos: Lucia Correia Lima)

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2 de maio de 2009

BA: Ano da França no Brasil enfatiza a mestiçagem

A abertura oficial do Ano da França no Brasil - França.Br, no dia 21 de abril, inaugurou uma temporada de imersão dos brasileiros na cultura francesa. Calcula-se que a extensa programação - que vai desde residências artísticas a exposições e desfiles de moda - possa atingir entre 30 e 40 milhões de pessoas, em 15 cidades do país.

Calcula-se que o país receberá aproximadamente 400 atividades até o final de 2009. Cerca de 50 delas devem acontecer na Bahia.

A forte influência da matriz africana no Estado edificou uma ponte sobre o Atlântico, diretamente para a África francófona. Assim, a versão baiana do França.Br tem a mestiçagem como uma de suas principais características, incorporando as influências do continente negro (veja programação).

Isso não quer dizer, é claro, que a cultura francesa clássica não esteja presente com escritores, instrumentistas eruditos e até mesmo uma oficina de formação de luthiers (profissionais especializados em reparo e restauração de instrumentos musicais).

Programação mestiça

Iniciada antes mesmo da abertura oficial do França.Br, a residência artística Culturas Crioulas - Olhares Cruzados promoveu de jovens artistas das Escolas de Belas Artes de Salvador e da Ilhas de Reunião, departamento francês no Oceano Índico. A residência durou 20 dias, entre 3 e 23 do mês passado.

Também no dia 23 foi apresentado o espetáculo de dança “#im3″, da Cia Toufik Oudrhiri Idrissi. A companhia do coreógrafo e intéprete marroquino Toufik trabalha ainda num processo de criação conjunta com a Cia Viladança, cujo resultado será apresentado no mês de setembro.

O universo da dança também é representado pelo coreógrafo e dançarino da Costa do Marfim Georges Momboye. Radicado no país de Napoleão desde 1992, Momboye propõe uma visão da França mestiça contemporânea.

Símbolo máximo da ligação entre França, África e Bahia, o antropólogo francês Pierre Verger é tema de três atividades previstas no programa. Em junho, o fotógrafo do Benin Charles Placide Toussou faz residência artística na Fundação Pierre Verger, intitulada “Sobre os Vestígios de Pierre Verger”.

Durante o “Agosto da Fotografia”, as obras do antropólogo francês fazem parte da exposição “À procura de um olhar: fotógrafos franceses e brasileiros revelam o Brasil”.

Já no dia 15 de setembro, é aberta a exposição “Paris de Pierre Verger”, sobre o ambiente cultural e artístico parisiense dos anos 30, com fotografias do próprio Verger e de outros fotógrafos franceses.

Com atores baianos, os espetáculos teatrais “Combate de Negro e de Cães” e “Tabataba”, do diretor francês Philip Boulay percorrerão espaços públicos e cidades do interior da Bahia durante quase quatro meses, entre 21/8 e 15/11.

A Cia. Troufik OI criará espetáculo em conjunto com companhia de dança baiana

A Cia. Troufik OI criará espetáculo com companhia de dança baiana

Em outubro, a mostra “50 Anos do Cinema da África Francófona: olhares em reconstrução e identidades reinventadas” traz à Bahia uma seleção de obras clássicas do cinema africano, algumas jamais exibidas no Brasil.

A coroação do elogio à cultura mestiça no programa baiano da França.Br é a inauguração do Centro de Músicas Negras, no dia 13 de novembro, seguida imediatamente pelo Festival de Músicas Mestiças (13 e 14/11), uma edição especial do Festival de Angouleme de Musique Mestisses. Ambas atividades ocorrem no Museu du Ritmo, espaço cultural do músico baiano Carlinhos Brown.

(fotos: Site Oficial Georges Momboye [1]; João Garcia [2])

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7 de fevereiro de 2009

Blackitude e Ilê Aiyê reverenciam a Bahia Negra

Tags:, , , , , , - iurirubim às 14:15

Duas festas neste sábado celebram os mais diferentes aspectos da cultura negra na Bahia.

Se, na Senzala do Barro Preto, sede do bloco Ilê Aiyê, a 30a Noite da Beleza Negra exalta a tradição afro-baiana, o BlacKitude 40º, no Pelourinho, traz uma perspectiva mais contemporânea dessa matriz cultural.

Hoje à noite, na Senzala do Barro Preto, será escolhida a nova Deusa do Ébano. Representação máxima da beleza negra, ela terá, por um ano, a adoração dos três mil associados do Ilê e, por tabela, de boa parte dos 600 mil habitantes do Curuzu, bairro onde fica a sede o bloco.

- Eu já disse para as meninas que quando se é rainha do Ilê não se quer reinar em mais lugar nenhum – disse, ontem, a dançarina Adriana Silva, Deusa do Ébano 2008, na apresentação das 15 candidatas ao trono.

O concurso nasceu nos anos 70, a partir da observação que “o Brasil sempre exportou um biotipo de mulheres nos concursos de beleza que nunca correspondeu à realidade étnica nacional”. Em contraponto a essa realidade, nasceu a competição pela fantasia da Deusa do Ébano, escolhida sempre na Festa da Beleza Negra.

Nesta edição, a Festa, que começa às 21h (horário local), terá como atrações as bandas Araketu, Band’Aiyê, Fora da Mídia e outros artistas convidados.

a cultura negra contemporânea

Balckitude 40 Graus: a cultura negra contemporânea

Com o foco na cultura negra urbana e atual, o BlacKitude 40º leva ao Pelourinho (Praça Tereza Batistas, a partir das 19h) múltiplas linguagens artísticas, focadas na intervenção criativa na cidade.

O evento é idealizado pelo Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, há quase 10 anos atuante na Bahia.

Como não poderia deixar de ser, os trabalhos começam com a apresentação dos quatro elementos do hip hop: MC, break, grafite, DJ. Simultaneamente, poetas da negritude soltam o verbo.

As apresentações musicais são abertas pelo DJ Bandido, que assumiu o compromisso de elevar a temperatura até os 40 graus anunciados pelo evento. Em seguida, os grupos Afrogueto, Daganja, RBF (Rapaziada da Baixa Fria) e Opanijé assumem a responsabilidade por manter o clima quente.

Break e os outro 3 elementos do hip hop no Blackitude

Break e os outro 3 elementos do hip hop no Blackitude

Paralelamente aos shows, os grafiteiros pintam ao vivo os painéis que farão parte do cenário. Os responsáveis pela execução das obras são Bigod, Lee27, Neuro e Tito Lama.

O BlacKitude 40º conta ainda com os dançarinos Ananias e Thina, acompanhados do grupo de Independente de Rua, que transfere sua tradicional roda de break da Praça da Sé para a Praça Tereza Batista.

(fotos: Ilê Aiyê [1] e Fernando Gomes [2])

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