
Quem não gosta de uma boa história? Começa hoje o I Encontro Internacional Caixa de Contadores de Histórias, que reúne, na Caixa Cultural Salvador, quatro narradores estrangeiros e quatro brasileiros, além do grupo Tapetes Contadores de Histórias, responsável pela coordenação do evento.
Inédito, o Encontro dura seis dias (até 30 de agosto) e oferece 20 espetáculos, quatro oficinas e duas rodas de histórias à população da capital baiana.
- Essa cidade já é uma narrativa. Cada ladeira, cada cabelo, cada comida tem uma história muito especial. Ficamos felizes em trocar com esse público que já conhecemos bastante, pois já estivemos quatro vezes em Salvador - conta Warliy Goulart, integrante do grupo Tapetes Mágicos e coordenador do evento.
O Encontro tem sessões gratuitas para estudantes (terça a sexta) e o restante da programação pode ser visto com a troca de 1kg de alimento não perecível. Entretanto, na medida em que os lugares são limitados, é necessário agendamento e distribuição de senhas para o público.

A contadora de história colombiana Carolina Rueda participa do Encontro
Mestres na arte de embalar a imaginação alheia, participam do Encontro Inno Sorsy (Gana), Cucha del Águila (Peru), Carolina Rueda (Colômbia) e Rubén López (Argentina); do Brasil: Regina Machado (São Paulo), Gislayne Avelar Matos (Belo Horizonte), Sérgio Belo (Florianópolis), Fabiano Moraes (Vitória) e Os Tapetes Contadores de Histórias (Rio de Janeiro).
Na programação, além dos espetáculos e das sessões de histórias, destaque para as rodas de histórias: saraus de contadores onde cada um contribui, um após o outro, com uma narrativa de seu repertório.
Também é objetivo do Encontro compartilhar pesquisas, metodologias e linguagens, o que os contadores convidados fazem nas quatro oficinas de formação para aperfeiçoamento de profissionais e multiplicadores.

A atividade de contar histórias está sendo mais valorizada atualmente
Aproveitei o início do Encontro Internacional de Contadores de Histórias para fazer uma entrevista sobre o tema o narrador e coordenador do evento Warliy Goulart. Confira o nosso papo abaixo.
Tenho a impressão que está acontecendo, de algum tempo para cá, uma revalorização recente da atividade de contar de histórias. Essa impressão é correta?
Todo mundo valoriza as histórias. Contamos histórias para nossa família, namoradas, filhos, alunos. O encantamento é sempre muito vivo. Mas de um tempo para cá, algumas ciências como sociologia e antropologia têm valorizado muito a cultura, o patrimônio imaterial, as manifestações e seus responsáveis. E, com isso, as narrativas orais.

A contadora paulista Regina Machado ministra uma oficina durante o evento
Mas existe uma diferença entre o contar histórias de antigamente - atividade espontânea e cotidiana - da contação de histórias feita por vocês.
A diferença fica na questão da profissionalização. O nosso grupo tem 11 anos. A profissionalização leva a um maior estudo de repertório, a uma melhor técnica. As pessoas que estão nesse encontro são grandes estudiosos de narrativas orais. Conhecem profundamente muitos causos, histórias e desenvolvem técnicas de contá-las. Essa é a diferença: o estudo e, claro, a prática.
Então todos os contadores presentes vivem exclusivamente desta atividade? De que forma conseguem gerar renda a partir de suas atividades?
Isso depende muito das instituições, que têm agido muito positivamente. Escolas, centros culturais, museus têm solicitado o trabalho de contadores de histórias. Empresas também. Isso faz com que gere trabalho e especialização.
Também as livrarias têm percebido que pode ser feita uma associação entre a contação de histórias e o incentivo à leitura.
Você acha que chegou a existir um preconceito em relação à contação de histórias, no sentido de imaginá-la prejudicial à leitura como já houve com as revistas em quadrinhos?
Nós temos uma cultura da supremacia da palavra escrita. Pensam que o livro é mais importante que o ser humano e isso é uma besteira! Os livros nasceram do ser humano e voltam para ele.
A palavra oral tem valor e perdeu bastante desse valor porque é com a palavra escrita que fazemos nossas regras e leis. Mas uma é tão importante quanto a outra. Com ela palavra oral, criamos laços e também as próprias histórias. Elas são independentes mas acho que nos cabe acentuar um diálogo fértil entre as duas.

O grupo Tapetes Contadores de Histórias já esteve quatro vezes em Salvador
E como é ter essa relação de proximidade com o outro, ao contar uma história, no mundo contemporâneo, ambientado e mediado pela tecnologia?
Eu acho que uma coisa não atrapalha a outra. Adoro internet, adoro ouvir histórias, elas me transportam para um lugar que internet não transporta. Mas também a internet me transporta para lugares que as histórias não levam.
Acho que o problema na verdade é essa cultura burguesa do espaço individual, do núcleo familiar, dos condomínios; é ela que fecha possibilidades dos encontros, da construção narrativa coletiva. Temos que estimular mais os encontros. Se a gente deixa isso, fica triste, morre, definha.
(fotos: Grupo Tapetes Contadores de Histórias [1, 5]; Marconio Hernandes [2]; Lorena Vieira [3]; Celso Pereira [4])