Terra Magazine

1 de novembro de 2009

MG: Frango Caipira é estrela de festival gastronômico

Quem escolhe passar o feriadão de finados no tranquilo distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, (município do Serro, a três horas de Belo Horizonte), acaba tendo que fazer uma escolha: frango com pequi ou ao molho pardo? Ou galeto ao leite?

Desde a última sexta-feira e até o dia 2 de novembro, acontece em São Gonçalo do Rio das Pedras o 4º Festival de Frango Caipira.

Mineiríssima, a iguaria é vendida em todos os restaurantes da cidade nessa período. São mais de vinte receitas, desde as mais tradicionais - como frango ensopado e ao vinho - até o frango “afro-mineiro” (gengibre e amendoim) e frango com quibabá, uma planta comestível que “existe no quintal de toda casa da cidade”, conta a idealizadora do evento, Cleide Greco.

Veterinária e dona de uma das pousadas do distrito, Cleide explica que a carne do frango caipira tem uma textura mais consistente por ser criada solta.

Além disso, não tem hormônios, pois o crescimento dos animais obedece o ritmo da natureza e eles não se alimentam de ração, apenas milho e folhas de horta.

Desde que Cleide e os outros donos de pousadas, restaurante de bares locais resolveram realizar pela primeira vez o Festival, em 2006, o turismo no vilarejo - que também possui atrações naturais, como cachoeiras e picos - só tem aumentado.

Chega a acontecer, como no ano passado, dos donos dos estabelecimentos terem que recorrer à criação doméstica de vizinhos por conta da procura.

Para resolver a questão da “superpopulação” de turistas, muito além das capacidades das poucas pousadas, muitos moradores praticam o turismo solidário, ou seja, recebem turistas em suas casas.

Ganham os visitantes, que encontram hospedagem barata, e os habitantes do vilarejo, que garantem uma renda extra para a família.

E você, conhece uma receita bacana de frango caipira? Comente.

(fotos: reprodução)

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19 de outubro de 2009

SP: Mostra Cultural põe em evidência a produção da periferia

Entre 19 e 25 de outubro, a Casa Popular de Cultura do M’Boi Mirim, o CEU Campo Limpo, o CEU Casa Blanca e o Bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo, são ocupados pela II Mostra Cultural da Cooperifa, a Cooperativa de Poetas da Periferia.

Chama atenção a variedade e a quantidade de produções em dança, teatro, música, artes-plásticas, literatura e cinema reunidas para comemorar a oitava festa de aniversário do Sarau da Cooperifa. Confira a programação.

Curador da Mostra, o poeta Sérgio Vaz lançou mão de todas essas linguagens para colocar a produção cultural da periferia brasileira em evidência. Dá até para se perguntar por que ou para que a periferia deve ir ao centro? Aliás, onde está o centro?

Anualmente, a Cooperifa realiza a "chuva de livros", quando as publicações são distrtibu�das à população

Anualmente, a Cooperifa realiza a "chuva de livros", quando as publicações são distribuídas à população

Ganham destaque na programação a feira de livros e debates sobre literatura com Marcelino Freire, Xico Sá, Ferréz, Sacolinha, Heloisa Buarque de Hollanda, Écio Salles, Chacal, Sérgio Vaz, Alessandro Buzo e Nelson Maca.

Para a garotada, a espanhola Cia. Bambalina, apresenta Kraft, que usa os fantoches e mescla a linguagem teatral com outras dramaturgias para abordar o amor pelas pessoas e coisas. No teatro os interessados também podem ver Os Tronconenses, do Núcleo Teatral Filhos da Dita/Instituto Pombas Urbanas.

Este é "Para�ba", o lanterninha do Cinema na Laje

Este é "Paraíba", o lanterninha do Cinema na Laje

Já o Cinema na Laje é pura ousadia. Uma sala de cinema ao ar livre, na laje do Zé Batidão. O curador Sérgio Vaz já tinha inclusive anunciado em seu Blog que o Cinema na Laje “vai virar o cinema Paradiso da Zona Sul paulistana”.

Durante essa semana são exibidos curtas e longas nacionais a exemplo de Profissão MC (52 min), de Alessandro Buzo e Toni Nogueira e Pode me chamar de Nadí (18 min) de Déo Cardoso (CE). Esses são alguns dos títulos que vão inspirar o debate A periferia se vê no cinema de periferia?.

Registro delicado do primeiro Sarau da Cooperifa

Registro delicado do primeiro Sarau da Cooperifa

Para concretizar a Mostra, a Cooperifa articula parcerias que envolvem a ONG Ação Educativa, o Centro Cultural da Espanha, o Itaú Cultural, a Global Editora e o SESC Santo Amaro.

Como movimento de incentivo à leitura e à criação poética, a Cooperifa já realizou eventos inusitados como o “Poesia no ar”, quando os poemas são soltos em balões; o “Ajoelhaço”, ocasião em que poetas e convidados ajoelham-se e pedem perdão para as mulheres e a “Chuva de livros”, quando presenteia a comunidade com livros (neste ano foram 600).

(fotos: reprodução)

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2 de outubro de 2009

Em Sagarana (MG), Festa Guimarães Rosa alia cultura e sustentabilidade

Primeiro assentamento de reforma agrária de Minas Gerais, criado há cerca de 30 anos, o pequeno distrito de Sagarana, no município de Arinos (Noroeste de Minas Gerais), realiza neste mês a segunda edição da Festa Guimarães Rosa.

Também conhecido por Sagarana: Feito Rosa para o Sertão, o evento busca promover o desenvolvimento sustentável com base na preservação do meio ambiente e no patrimônio cultural da região.

O grande sertão exibe as suas veredas

O grande sertão exibe as suas veredas

- A nossa proposta é fortalecer a identidade cultural do Vale do Urucuia, entendida por nós como elemento potencializador do desenvolvimento sustentável do território. Um dos desafios é que as pessoas se reconheçam como sertanejos, que valorizem essa cultura e melhorem a avaliação que têm do sertão. - explica o deputado estadual Almir Paraca, idealizador da Festa.

Durante quatro dias de programação inteiramente gratuita (9 a 12/10), oficinas de linguagens artísticas (como artes cênicas, mímica e fotografia) dividem o espaço com oficinas de produção rural e meio ambiente (como moagem de cana, fabricação de calhas coletoras de água etc.).

saberes repassados por gerações

A receita da rapadura artesanal: um conhecimento repassado por gerações

Há, ainda, oficinas que exaltam o sagrado e os conhecimentos tradicionais, como contação de histórias; jogos, brinquedos e artesanato e danças circulares.

A programação da Festa Guimarães Rosa inclui também multirão de fiandeiras, apresentação de catira e folia de reis, balaio de poesias, encontro de carreiros (”motoristas” de carros de boi) e uma cavalgada.

Tudo isso integrado com uma articulação de instituições e lideranças locais pelo desenvolvimento da bacia do Rio Urucuia - que abrange 11 municípios (10 de Minas e um de Goiás). Agricultura familiar, tecnologias sociais e como integrar esses temas à cultura local são os principais pontos de pauta das rodas de conversa.

As fiandeiras também são patrimônio cultural do sertão

As fiandeiras também são patrimônio cultural do sertão

Sagarana: Feito Rosa para o Sertão foi concebido em 2008 como uma homenagem ao centenário do escritor, cuja obra sintetiza e fortalece a identidade cultural do território. “Guimarães Rosa ajuda a gostar do sertão, a valorizar o sertão, a cultura e esse ambiente”, opina o deputado Paraca.

Nada mais adequado para um local cuja próprio nome remete aos textos do escritor. “Com certeza foi uma referência, pois ‘Sagarana’ foi um nome inventado por Guimarães Rosa. Não tem como ser outra coisa”, afirma, categoricamente, Almir Paraca.

Os carros de boi estão desaparecendo, mas alguns resistem em Sagarana

Os carros de boi estão desaparecendo, mas alguns resistem em Sagarana

No ano passado, cerca de 600 visitantes estiveram na localidade, que fica a 700km de Belo Horizonte e 240km de Brasília. “No primeiro evento houve um certo distanciamento da comunidade, que não participou intensamente. Um pouco de mineirice”, conta o deputado.

Nesta edição, porém, o cenário é outro. Há muito mais mobilização e, como consequência, o distrito deve receber cerca de três mil pessoas (mais de sete vezes a população local).

Para acomodar tanta gente, os moradores de Sagarana estão abrindo as portas das casas e realizando a chamada hospedagem solidária. Um camping também foi colocado à disposição dos visitantes, ansiosos, por ver, quem sabe, alguns frutos das invencionices de Guimarães.

(fotos: Lidyane Ponciano)

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14 de setembro de 2009

SP: Festival de Cultura Tradicional deve atrair um milhão de pessoas

Qualquer admirador da cultura popular gostaria de estar em São Paulo - a cidade mais urbanizada do país - nos dez dias entre 11 e 20 deste mês.Paradoxo? Não mesmo. Na última sexta-feira foi aberto na metrópole o 13º Revelando São Paulo - Festival de Cultura Tradicional Paulista, cuja maior parte das atividades acontece no Parque da Água Branca.

O Festival é uma compilação extensa da cultura popular no Estado, reunindo manifestações culturais oriundas de 200 municípios de São Paulo. Cerca de 300 grupos apresentam-se durante o evento, que conta também com 155 estandes de artesanato e 80 de culinária típica.

Dentre as numerosas atrações da programação, o público tem a oportunidade de apreciar as Folias de Reis e do Divino, Cortejo de Bonecões, Orquestras de Viola, Violeiros e Sanfoneiros, grupos de Catira, Fandangos e Cururus, Congos e Moçambiques, Serestas e as Noites dos Tambores, Cigana, de Quadrilhas e Manifestações Cosmopolitas.

Isso sem contar as Cavalgadas, Cavalhadas, Tropas de Mulas e Carros de Bois, que levam à capital paulista mais de 200 animais, entre cavalos, bois, búfalos e mulas.

Tamanha diversidade realmente não poderia passar despercebida: espera-se que o evento, gratuito, seja capaz de aglutinar um público de aproximadamente 1 milhão de pessoas durante o período do Festival.

Criado em 1997, quando atraiu 50 mil pessoas, o Revelando São Paulo passou a ser realizado ao longo do ano, em diversas cidades do Estado - obviamente, com duração e formatos distintos. Neste ano, já aconteceu no em Iguape, no Vale do Ribeira (junho) e em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (julho). E deve ocorrer ainda em Bauru (outubro), Franca (novembro) e Atibaia (dezembro).

O mais interessante a respeito do festival, entretanto, é que a sua organização tem a sagacidade - e competência - de reunir sob a marca diversos outros encontros e festivais da cultura popular paulista, muitos inclusive preexistentes.

Assim, quem vai ao Revelando São Paulo pode presenciar o II Encontro de Orquestras de Viola Caipira, o XI Encontro de Catira, a IX Noite de Tambores, o XVII Festival de Bonecos de Rua e Cabeções e assim por diante.

A programação do evento traz uma média de pelo menos dois encontros/ festivais interessantíssimos assim por dia.

É simplesmente impensável a reunião de tantas e tão diferentes manifestações populares num período tão curto de tempo. Para quem nasceu e foi criado na capital, distante de praticamente todas essas expressões da cultura brasileira tradicional, é uma oportunidade única.

Como se isso tudo não fosse suficiente, comunidades indígenas do Estado conduzem, durante todo o período do Festival, jogos e brincadeiras numa grande arena montada no local.

Pronto. Agora você pode desligar o computador e ir correndo curtir o Revelando São Paulo.

(fotos: Gina Mardones)

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13 de setembro de 2009

Capital mineira do folclore realiza 21º Festival

Jequitibá, uma cidadezinha de pouco mais de cinco mil habitantes a 120 km de Belo Horizonte, realiza neste fim de semana a 21ª edição de seu tradicional Festival do Folclore. O Festival do Folclore de Jequitibá começou na noite de ontem e vai até este domingo.

Durante os três dias de festa, a simpática cidade respira cultura popular, com uma extensa programação de Batuques, Folias, Cantadeiras, Encomendação de Almas, Dança do tear e Contra-dança, dentre muitas outras expressões tradicionais da cultura brasileira. Além delas, shows e oficinas completam as atrações do festival.

A Dança da Fita é uma das muitas expressões do patrimônio imaterial de Jequitibá

A Dança da Fita é uma das muitas expressões do patrimônio imaterial de Jequitibá

A riqueza de Jequitibá vem de seu patrimônio imaterial. São mais de 15 grupos folclóricos que preservam e renovam mais de cem manifestações de cultura popular (como as citadas acima), algumas delas com mais de 200 anos de existência, passadas de geração em geração nas famílias da cidade. Destaque para o Batuque de Viola, único no Brasil.

Contam os antigos da cidade que ela tornou-se esse centro da cultura popular porque era ponto de encontro dos tropeiros que vinham do Nordeste, deixando pelo caminhos seus costumes e tradições. Fato é que a grande maioria dessas expressões populares reflete seja a religiosidade de nossos antepassados seja pela arte em inventar malabarismos para sobreviver ao cotidiano rural.

É nas margens dessa lagoa que acontece o Festival de Folclore

É nas margens dessa lagoa que acontece o Festival de Folclore de Jequitibá

O Fim de Campina, por exemplo, é uma dança que representa o mutirão formado por pequenos proprietários para capinar a roça dos que não tinham como contratar a mão-de-obra assalariada. O grupo recebia o nome de Batalhão e era liderado pelo Almirante que tinha a função de marcar qual a roça seria visitada.

Cada integrante do multirão ganhava o direito de receber futuramente a visita do “batalhão” na sua roça e, assim como cada dono de roça visitada, teria o compromisso de “pagar” com seu trabalho participando na capina das roças dos colegas de empreitada. Conta-se que no término da capina levavam o pé de milho para o dono que os recebia com comidas, bebidas e doces.

Na manhã de domingo, às 10h, acontece uma missa folclórica com a participação dos grupos da região e entrega de placas aos homenageados do ano.

Se depender da nova geração, as tradições da cidade permanecem vivas

Se depender da nova geração, as tradições da cidade permanecem vivas

A missa remonta às origens do Festival, quando, em 1980, o advogado Geraldo Inocêncio foi convidado para ser festeiro da celebração do padroeiro da cidade - a festa do Santíssimo Sacramento.

Propôs, então, que os grupos folclóricos participassem da comemoração. Desde então, a reunião e o reconhecimento desses grupos passou a ser o maior patrimônio da cidade.

(fotos: Daniel Iglesias/divulgação)

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29 de agosto de 2009

“Ninguém é orientado a ser gay”, diz cordelista

Poeta lança cordel sobre homossexualidade mas não concorda com o uso da expressão “orientação sexual”

Hoje, no Dia da Visibilidade Lésbica, os escritores Nando Poeta e Varneci Nascimento lançam o cordel Homossexualidade - História e Luta. Os autores autografam a obra às 20h, no Odara Bar (Largo do Arouche, 88, República), “um bar GLBT [Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros], comandado por duas mulheres que casaram… são do ramo, né?”, diz Varneci.

- É um tema que os poetas não gostam de abordar, têm restrição, preconceito. Quero que as pessoas possam ler o cordel e se desarmar. Fizemos este trabalho para combater a homofobia, o preconceito, e dar visibilidade à luta social dos homossexuais, que não tem sido pouca - afirma o poeta.

A publicação do cordel de Varneci Nascimento e Nando Poeta expõe o próprio preconceito dentro da literatura de cordel.

- A literatura de cordel foi um pouco machista. Aliás, foi muito. Vemos cordéis eivados de preconceitos contra gays, negros, minorias. Mas também dá para encontrar outros cordéis de autores responsáveis - argumenta.

Nascimento conta que tentou divulgar “Homossexualidade - História e Luta” durante o lançamento de um outro cordelista. “Mas tive que tirar minha coisas e sair correndo” quando o outro escritor mostrou seu descontentamento de estar sendo associado à homossexualidade. “Não gostaria de ver propaganda de cordel com essa temática perto do seu”, diz Varneci.

"Ser gay deve ser bom, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né?"

Varneci: "Ser gay deve ser bom, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né?"

Num determinado momento da conversa, a pergunta inevitável:

- Você ou seu parceiro são homossexuais?

O autor se esquiva:

- Não somos não. Quando a gente fez o cordel, já sabia que teria uma dificuldade por conta de perguntas como essa que você acabou de fazer. Mas é uma questão de quem não está preocupado com essas coisas. Sei que terá consequências, mas o que vale é o que a gente é e pronto - afirma.

Pergunto então sobre a dificuldade de escrever sobre o tema sem ter sentido na pele o preconceito.

- Por isso que nós pedimos para três ou quatro amigos gays para lerem e dizerem para a gente o que não estava correto. Tem até uma coisa que temos uma visão diferente: a comunidade gay pede para usar a expressão “orientação sexual”, mas eu discordo disso. Entrou no texto a contragosto.

- Por quê?

- Porque ninguém é orientado para ser homossexual, nenhum pai ou mãe disse: “vai ser gay, meu filho, é bom”. Se bem que deve ser bom mesmo, porque se não fosse não tinha tanta gente que era, né? - provoca.

O polêmico cordel “Homossexualidade - História e Luta” é publicado pela editora Luzeiro e custa dois reais (”caro, né?”, diz Varneci). Conheça um trecho da obra:

Queremos nesse assunto
Mergulhar profundamente
Demonstrando uma estatística
Que muda diariamente:
A horrenda homofobia,
Crescendo mundialmente.

Por isso, nesse cordel
Vamos pôr em evidência:
Que quem curte o mesmo sexo,
Ou pra isso tem tendência,
Foi sempre desrespeitado
E vítima da violência.

Homossexualidade
Sempre tema especial
Outrora foi esquecido
Mas no momento atual,
É lembrado, pois faz parte
Da história universal.

Nas aldeias primitivas,
Toda a sexualidade.
Se vivia livremente
Dentro da comunidade
Com sexo oposto ou não
Naquela sociedade.

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25 de agosto de 2009

BA: Encontro inédito reúne contadores de histórias de cinco países

Quem não gosta de uma boa história? Começa hoje o I Encontro Internacional Caixa de Contadores de Histórias, que reúne, na Caixa Cultural Salvador, quatro narradores estrangeiros e quatro brasileiros, além do grupo Tapetes Contadores de Histórias, responsável pela coordenação do evento.

Inédito, o Encontro dura seis dias (até 30 de agosto) e oferece 20 espetáculos, quatro oficinas e duas rodas de histórias à população da capital baiana.

- Essa cidade já é uma narrativa. Cada ladeira, cada cabelo, cada comida tem uma história muito especial. Ficamos felizes em trocar com esse público que já conhecemos bastante, pois já estivemos quatro vezes em Salvador - conta Warliy Goulart, integrante do grupo Tapetes Mágicos e coordenador do evento.

O Encontro tem sessões gratuitas para estudantes (terça a sexta) e o restante da programação pode ser visto com a troca de 1kg de alimento não perecível. Entretanto, na medida em que os lugares são limitados, é necessário agendamento e distribuição de senhas para o público.

A contadora de história colombiana Carolina Rueda participa do Encontro

A contadora de história colombiana Carolina Rueda participa do Encontro

Mestres na arte de embalar a imaginação alheia, participam do Encontro Inno Sorsy (Gana), Cucha del Águila (Peru), Carolina Rueda (Colômbia) e Rubén López (Argentina); do Brasil: Regina Machado (São Paulo), Gislayne Avelar Matos (Belo Horizonte), Sérgio Belo (Florianópolis), Fabiano Moraes (Vitória) e Os Tapetes Contadores de Histórias (Rio de Janeiro).

Na programação, além dos espetáculos e das sessões de histórias, destaque para as rodas de histórias: saraus de contadores onde cada um contribui, um após o outro, com uma narrativa de seu repertório.

Também é objetivo do Encontro compartilhar pesquisas, metodologias e linguagens, o que os contadores convidados fazem nas quatro oficinas de formação para aperfeiçoamento de profissionais e multiplicadores.

A atividade de contar histórias está sendo mais valorizada atualmente

A atividade de contar histórias está sendo mais valorizada atualmente

Aproveitei o início do Encontro Internacional de Contadores de Histórias para fazer uma entrevista sobre o tema o narrador e coordenador do evento Warliy Goulart. Confira o nosso papo abaixo.

Tenho a impressão que está acontecendo, de algum tempo para cá, uma revalorização recente da atividade de contar de histórias. Essa impressão é correta?

Todo mundo valoriza as histórias. Contamos histórias para nossa família, namoradas, filhos, alunos. O encantamento é sempre muito vivo. Mas de um tempo para cá, algumas ciências como sociologia e antropologia têm valorizado muito a cultura, o patrimônio imaterial, as manifestações e seus responsáveis. E, com isso, as narrativas orais.

A contadora paulista Regina Machado ministra uma oficina durante o evento

A contadora paulista Regina Machado ministra uma oficina durante o evento

Mas existe uma diferença entre o contar histórias de antigamente - atividade espontânea e cotidiana - da contação de histórias feita por vocês.

A diferença fica na questão da profissionalização. O nosso grupo tem 11 anos. A profissionalização leva a um maior estudo de repertório, a uma melhor técnica. As pessoas que estão nesse encontro são grandes estudiosos de narrativas orais. Conhecem profundamente muitos causos, histórias e desenvolvem técnicas de contá-las. Essa é a diferença: o estudo e, claro, a prática.

Então todos os contadores presentes vivem exclusivamente desta atividade? De que forma conseguem gerar renda a partir de suas atividades?

Isso depende muito das instituições, que têm agido muito positivamente. Escolas, centros culturais, museus têm solicitado o trabalho de contadores de histórias. Empresas também. Isso faz com que gere trabalho e especialização.

Também as livrarias têm percebido que pode ser feita uma associação entre a contação de histórias e o incentivo à leitura.

Você acha que chegou a existir um preconceito em relação à contação de histórias, no sentido de imaginá-la prejudicial à leitura como já houve com as revistas em quadrinhos?

Nós temos uma cultura da supremacia da palavra escrita. Pensam que o livro é mais importante que o ser humano e isso é uma besteira! Os livros nasceram do ser humano e voltam para ele.

A palavra oral tem valor e perdeu bastante desse valor porque é com a palavra escrita que fazemos nossas regras e leis. Mas uma é tão importante quanto a outra. Com ela palavra oral, criamos laços e também as próprias histórias. Elas são independentes mas acho que nos cabe acentuar um diálogo fértil entre as duas.

O grupo Tapetes Contadores de Histórias, que coordena o encontro, já esteve quatro vezes em Salvador

O grupo Tapetes Contadores de Histórias já esteve quatro vezes em Salvador

E como é ter essa relação de proximidade com o outro, ao contar uma história, no mundo contemporâneo, ambientado e mediado pela tecnologia?

Eu acho que uma coisa não atrapalha a outra. Adoro internet, adoro ouvir histórias, elas me transportam para um lugar que internet não transporta. Mas também a internet me transporta para lugares que as histórias não levam.

Acho que o problema na verdade é essa cultura burguesa do espaço individual, do núcleo familiar, dos condomínios; é ela que fecha possibilidades dos encontros, da construção narrativa coletiva. Temos que estimular mais os encontros. Se a gente deixa isso, fica triste, morre, definha.

(fotos: Grupo Tapetes Contadores de Histórias [1, 5]; Marconio Hernandes [2]; Lorena Vieira [3]; Celso Pereira [4])

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22 de agosto de 2009

Gado Pé-Duro vira patrimônio cultural do Piauí

Presente em toda a história do Estado do Piauí, desde os primeiros dias de sua colonização até hoje, o gado Pé-Duro agora é patrimônio cultural do Piauí.

No dia 20 de julho deste ano, o governador do Piauí assinou o Decreto nº 13.765, que reconhece a relevância do gado Pé-Duro para a cultura do Estado. Como consequência, o Estado do Piauí passa a desenvolver políticas públicas de preservação e valorização do animal e do universo de atividades e saberes diretamente ligados a ele.

Esta é a primeira vez - pelo menos até onde este Blog conseguiu apurar - que uma espécie animal é registrada como patrimônio cultural.

- Embora esta seja uma medida estadual, já estamos conversando com o IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, responsável pelo registro de patrimônio imaterial no país] para que ele crie novas categorias que abarquem situações como a do Pé-Duro. Já existem categorias para o registro de ofícios, modos de expressão, lugares, mas não tem uma que trabalhe isso. É uma nova fronteira - afirma Patrícia Mendes, coordenadora de Registro e Conservação do Estado do Piauí.

O Pé-Duro é o primeiro animal a ser reconhecido como patrimônio cultural

O Pé-Duro é o primeiro animal a ser reconhecido como patrimônio cultural

Essa “novidade” também pegou de surpresa o Conselho Estadual de Cultura, instância que delibera se algo será ou não reconhecido como patrimônio cultural do Piauí.

- Foi um impasse. O Conselho ficou dividido meio a meio. Mas também é uma coisa muito nova, não estava no cotidiano dos registros de patrimônio. Mas agora virou da dúvida para a certeza. Todo mundo está querendo - relata Mendes.

Fruto do cruzamento de várias raças no começo da colonização brasileira, o Pé-Duro é considerado uma das raças mais antigas do país. Foi a raça que melhor se adaptou ao ambiente hostil e tórrido da caatinga, onde via de regra, as pastagens de baixa qualidade, imperam a seca e o calor.

Dócil, acompanhou colonos e posseiros durante toda a formação do que posteriormente viria a ser o Estado do Piauí, inclusive durante o ciclo do gado, quando o Estado era o maior produtor nacional de carne.

Porém, como a maioria das raças bovinas brasileiras naturalizadas, passou a ser substituída por outras matrizes genéticas, que prometiam maior rentabilidade.

O Pé-Duro e o vaqueiro fazem parte do universo cultural ligado à caatinga

O Pé-Duro e o vaqueiro fazem parte do universo cultural ligado à caatinga

Hoje, o gado Pé-Duro sobrevive no Estado basicamente pelo esforço do núcleo de preservação da Fazenda Experimental Octávio Domingues, pertencente à Embrapa, na região de São João do Piauí, e da Associação Brasileira de Criadores de Gado Pé-Duro, que reúne 32 membros com um rebanho de mais de mil cabeças.

Em processo de extinção, o gado Pé-Duro deixa gradativamente de ser uma referência cultural no Piauí. “Nas obras de vários artistas aqui do Estado não tem o gado Pé-Duro, e sim o Boi Zebu. Mas era o gado Pé-Duro que acompanhava o tempo todo os nossos vaqueiros”, conta Patrícia Mendes.

O registro como patrimônio cultural do Estado vai fazer não apenas criar mecanismos de proteção para o animal, como também estimular pesquisa na área e gerar incentivos fiscais para os criadores.

- É a nossa identidade cultural. A nossa população tem que se ver um pouquinho, se apropriar daquilo que é seu. E isso ainda está faltando aqui. Afinal, cultura é isso: é tudo que a gente produz ao longo do tempo. De geração para geração. O vaqueiro, a vida do produtor, as casas de fazenda, toda a relação das pessoas com o animal [Pé-Duro]. Tudo isso faz parte da nossa cultura - ensina a coordenadora de Registro e Conservação do Piauí.

(fotos: Patrícia Mendes/ Coordenação de Registro e Conservação/ FUNDAC)

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18 de agosto de 2009

Paraty, onde “nunca se fabricou cachaça”, realiza 27º Festival da Pinga

Conhecida internacionalmente pela produção de pinga de alta qualidade, Paraty promove, entre 20 e 23 deste mês, o 27º Festival da Pinga.

Criado pela Associação Comercial de Paraty, em 1983, o Festival acontece regularmente há 27 anos, sempre no terceiro fim de semana de agosto.

Curiosamente, conta-se na cidade que ninguém lá produz – nem nunca produziu – cachaça. A explicação para este aparente paradoxo é uma diferenciação pouco usual entre cachaça e pinga.

Embora se considere em geral que pinga é o nome vulgar da cachaça, produtores de Paraty batem o pé que existe – e muita – diferença.

Segundo eles, cachaça seria a aguardente destilada a partir da borra ou do melaço, isto é, das sobras da fabricação do açúcar, enquanto pinga seria aquela fabricada a partir da garapa: caldo de cana fermentado e destilado depois da fervura e da evaporação que “pinga” na bica do alambique.

Paraty recebe o 27º Festival da Pinga

Paraty recebe o 27º Festival da Pinga

Realidade ou preciosismo, o fato é que diversos especialistas consideram as pingas de Paraty – algumas já chamadas de “cachaça” – como as melhores do Brasil.

Veja também:
>> Cachaça de Ouro

É provável que a produção de pinga na cidade tenha pelo menos 400 anos de história. Muitos registros – inclusive o do navegador francês Pyrard de Layal, em 1610 – falam da produção, no Brasil, de um “vinho feito com suco de cana” comercializado bem barato e consumido por escravos e nativos da região.

Esse longo histórico de produção da bebida atingiu o auge no final do século XVII, quando havia na cidade mais de 150 engenhos em pleno funcionamento.

Tamanha foi a associação que Paraty passou a ser sinônimo de pinga (e cachaça), como mostra esse trecho de “Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto:

“Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou a pequena garrafa de cristal e serviu dois cálices de paraty.”

O sambista Assis Valente, cantado por Carmen Miranda, também fez menção ao saboroso líquido, em 1935:

“Vestiu uma camisa listrada
e saiu por aí.
Em vez de tomar chá com torrada,
ele bebeu parati.”

O Festival da Pinga de Paraty associa a degustação do famoso líquido com atrações gastronômicas, musicais, infantis e folclóricas.

Durantes esses quatro dias, danças folclóricas, apresentações de Jongo e Maracatu dividem as atenções com artistas consagrados, como Almir Sater e Antônio Nóbrega.

Em 2009, a festa tem a participação dos sete alambiques tradicionais da cidade, abertos à visitação pública. As pingas Coqueiro, Corisco, Maré Cheia, Maria Izabel, Paratiana, Murycana e Engenho D’Ouro são fabricadas até hoje de modo artesanal, em dornas de carvalho, com fogo à lenha e alambiques de cobre.

Nesta edição ocorre também o lançamento de um novo rótulo: a Cachaça Mulatinha, lançamento do alambique Paratiana.

Mais do que em qualquer outro, no Festival da Pinga o estômago precisa ser bem tratado. Por isso, o cardápio do evento oferece pratos típicos que podem ser harmonizados com pingas dos produtores locais, como a comida de tropeiro, frutos do mar e o camarão casadinho. É comum os visitantes ganharem como brinde garrafas em miniatura.

Na quinta e na sexta-feira, um desfile temático celebra ao Dia do Caminho do Ouro (21 de agosto). Nas ruas do Centro Histórico de Paraty são encenados os tempos de engenho, escravos e tropeiros, ao som das marchinhas da banda local Santa Cecília. Durante o desfile, melados e pedacinhos de cana de açúcar são distribuídos para os visitantes degustarem.

(fotos: reprodução)

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11 de agosto de 2009

Cordelista: “Se SP disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia”

São Paulo está um pouco mais nordestina.

Desde maio deste ano, um grupo de sete poetas populares - todos nordestinos radicados em São Paulo - resolveu começar um movimento de valorização da literatura de cordel e artes afins na capital paulista. Juntos, integram a Caravana do Cordel.

- O nome já diz: a Caravana é móvel. Temos um imóvel (Espaço Cineclubista - Rua Augusta, 1239) onde acontece o nosso encontro mensal, mas queremos percorrer a cidade, ocupar os espaços - explica o cearense Costa Senna, um dos idealizadores do movimento.

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Segundo Costa Senna, o cordel é base do trabalho de muitos artistas famosos - cita Zé Ramalho, Raul Seixas, Alceu Valença - mas ainda não recebe a devida importância no país.

Sediada “de favor” no Espaço Cineclubista, a Caravana já realizou dois encontros (o último no dia 1/8) gratuitos, nos quais todo o universo do cordel esteve em destaque: música, literatura, poesia, “causos”, trocadilhos e até trava-línguas.

Enquanto os poetas populares se revezam no microfone, são lançados e vendidos folhetos de cordel. O espetáculo da Caravana vai acontecer todo primeiro sábado do mês. “A nossa intenção é que os artistas de fora de São Paulo, especialmente os nordestinos, projetem a viagem para casar com uma apresentação aqui”, explica Costa Senna.

Repentista Sebastião participou da Caravana

Repentista Sebastião Marinho, considerado um ods maiores do país, participou da Caravana

A intenção do grupo, entretanto, não é criar um gueto do nordeste em São Paulo, mas dar mais visibilidade ao cordel e à cultura nordestina na cidade.

- São Paulo é a maior cidade nordestina do mundo! Se São Paulo disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia. Queremos é evidenciar isso, mostrar que o nordeste é pulsante também aqui em São Paulo. Que o forró, o cordel e o repente passem a circular melhor na cidade - argumenta Costa Senna.

O sucesso da iniciativa, que abarrotou o espaço cedido nas duas ocasiões, já começou até a virar problema.

- Na segunda edição o sucesso foi tão grande que já estou até temendo se vamos conseguir fazer uma melhor do que a outra. Já estamos pensando em buscar um espaço maior - conta João Gomes de Sá, outro integrante do movimento e um dos autores do cordel “A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial”.

Capa de um do folhetos de cordel lançados na Caravana

Capa de um dos folhetos de cordel lançados na Caravana

“Sabe aquela coisa que já nasce grande? É como o São Caetano, já nasceu vice-campeão”, diz Costa Senna [na verdade, o time do ABC Paulista foi fundado no final de 1989 e foi campeão pela primeira vez em 1991, da Série A-3 do Paulista].

O convite está feito. Os artistas que quiserem participar tem que entrar em contato com a turma (11.3214-3906) porque a programação passou a ser fechada com uma semana de antecedência.

- Nós vamos presentear a sociedade paulistana com pelo menos 11 shows gratuitos por ano com o melhor da cultura do cordel - vende seu peixe Costa Senna.

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