Terra Magazine

12 de novembro de 2009

BA: Festival de Músicas Mestiças aporta em Salvador

Tambores, batidas, movimentos. Ritmos tão próximos e tão radicalmente distintos. As muitas faces da musicalidade negra aportam na capital baiana de sexta a domingo, no Festival Músicas Mestiças Salvador.

Capital da Bahia e primeira capital do Brasil, Salvador é a cidade com maior população negra fora da África. Talvez por conta disso a versão baiana do Festival Musiques Métisses - criado há 34 anos pelo produtor francês Christian Mousset - tenha dado a ênfase à diáspora negra e à produção musical africana contemporânea. Mousset já está na Bahia para conferir de perto este desdobramento da sua cria.

Carlinhos Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

O Festival acontece no Museu du Ritmo, espaço para espetáculos de Carlinhos Brown, localizado no bairro do comércio. O “dono da casa” também participa da festa, tocando ao lado dos percussionistas da Les Tambours de Brazza, do Congo, logo na noite de abertura do evento.

Durante as três noites do Festival, cantores e bandas da cena musical da África francófona e da diáspora negra dividem o palco com artistas baianos cuja sonoridade também é claramente influenciada pelos ritmos africanos.

As apresentações acontecem sempre em pares. Uma saudável inversão de papéis faz dos estrangeiros anfitriões e dos baianos, convidados. Assim, o público soteropolitano tem oportunidade tanto de conhecer o trabalho solo dos grupos de fora do país quanto de vê-los no palco ao lado das estrelas locais. Confira a programação.

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

São seis os convidados inernacionais do Festival. Os já citados percussionistas do Congo, o rapper Didier Awadi (Senegal); a cantora Mounira Mitchala (Chade), conhecida como a “pantera doce de Ndjaména”; Tiken Jah Fakoly, reggaeman da Costa do Marfim que canta em francês e no dialeto diola; e o haitiano BélO, único representante do Caribe e de fora da África entre os artistas estrangeiros, inventor do ritmo “raggaganga”, que, segundo o próprio, é uma mistura de reggae, música vodu, rara, soul, dialogando também com o jazz.

O uso da língua francesa - traço comum a todos esses artistas - foi um critério importante para sua seleção, na medida que o Festival Músicas Mestiças Salvador é encerra a programação baiana do Ano da França no Brasil.

Mas existe uma exceção nessa lista: o caboverdiano Tcheka é o único estrangeiro que não tem o francês, mas o português, como língua oficial. Cantor e compositor, Tcheka desenvolveu um estilo pessoal de tocar a guitarra baseado no batuque, um ritmo popular de Cabo Verde.

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

Do aldo de cá do Atlântico, os artistas baianos escolhidos para enriquecer essa diversidade sonora fazendo participações especiais nos shows são: Carlinhos Brown, Margareth Menezes, a percussão do Olodum, Mariene de Castro, Mariella Santiago, Lazzo Matumbi, Percussivo Mundo Novo e Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz, que, com sua mistura de jazz e percussão afro-baiana, abre o encontro.

Além de shows, o Festival Músicas Mestiças Salvador oferece também oficinas musicais com Mounira Mitchala (hoje), Tcheka e Les Tambours de Brazza (sábado), na Candyall Gueto Square.

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Uma conferência sobre gestão coletiva de direitos autorais, organizada pela Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música (SACEM), da França, completa a grade de atividades do evento nesta sexta-feira.

E, então, que tal conhecer um pouco da diversidade da música negra no mundo?

(fotos: João Meirelles [Carlinhos Brown]; Eduardo Freire [Museu du Ritmo]; Mariele Góes [Orkestra Rumpilezz]; divulgação [demais])

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25 de maio de 2009

Festival Mundial de Artes Negras é lançado no Brasil

Festival acontece em dezembro, no Senegal. Por ser o país convidado de honra, Brasil realiza lançamento oficial esta noite, no Teatro Castro Alves (Salvador).

Hoje, no Dia da África, a cidade mais negra do Brasil lança a terceira edição do Festival Mundial das Artes negras - Fesman, que será realizado em Dakar (Senegal), de 1º a 14 de dezembro de 2009.

No palco do teatro baiano, apresentações de Gilberto Gil, Margareth Menezes, Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, Balé Folclórico da Bahia, Les Frères Guissé , Balé do Senegal, dentre outros, dão uma pequenina mostra da grandiosa festa marcada para o final do ano.

A presença dos presidentes de ambos os países, Brasil e Senegal, na solenidade de lançamento dá uma ideia da importância do Festival, que já tem confirmadas delegações de 53 países. Até o fim do ano, a organização do evento pretende que este número suba para 80.

A realização do Festival retoma uma história que começou há 42 anos, quando foi realizada a sua primeira edição, também em Dakar, em 1966. Dez anos depois, ocorreu em Lagos (Nigéria) a segunda - e até o momento, última - edição do Festival.

O ministério de Birame Diouf foi criado especialmente para realizar o Festival

O ministério de Birame Diouf foi criado especialmente para realizar o Festival

Com o tema “A Renascença Africana”, o III Fesman é revestido da importância de, nas palavras do presidente senegalês Abdoulaye Wade, “ser uma vitrine de Excelência da fecunda criatividade do mundo negro e, também, um campo de fortalecimento moral e de mobilização de todas as propostas para o desenvolvimento da África”.

O Festival é tão levado à sério que o presidente Wade nomeou um ministro de Estado especificamente para cuidar da realização do evento.

Neste domingo (ontem), tive a oportunidade de participar de uma entrevista ao ministro Mame Birame Diouf, que estava acompanhado de Alioune Badara Beye, coordenador geral do evento, e Bernard Lama, goleiro reserva da seleção francesa da copa de 1998 e “embaixador da boa vontade” do Festival.

Fazendo as vezes de anfitrião do país convidado de honra do Festival, Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares, acompanhava o trio. A Fundação Palmares é responsável por organizar toda a delegação brasileira que participará do Fesman.

- Esse é um momento para reposicionar a África; dar ao mundo negro a sua posição. O mundo negro deve falar dos negros e o Fesman é uma boa oportunidade para isso - diz o Ministro.

Uma das repórteres pergunta que artistas negros brasileiros o povo do Senegal conhece. Rapidamente, o Ministro devolve a pergunta: “E que artistas senegaleses vocês conhecem? É isso que queremos do Fesman, a circulação do povo negro”.

Ainda segundo o ministro, foi preciso esperar que o Senegal elegesse um intelectual, o presidente Wade, para que fosse retomado o projeto do Fesman. Agora, desejam que o evento seja realizado regularmente nos países do continente africano e da diáspora negra. E sugere, gentil, que a próxima edição seja realizada no Brasil.

Os senegaleses sugerem que o Brasil receba próxima edição do Fesman

Os senegaleses sugerem que o Brasil receba próxima edição do Fesman

No meio da conversa, pergunto ao ex-goleiro Bernard Lama se o racismo no futebol, bastante evidente na Europa e convenientemente pouco explícito no Brasil, levou ao engajamento dele e de outros companheiros.

- O racismo é um problema que está no cotidiano do mundo inteiro. O futebol apenas tem mais imprensa, mais visibilidade. É um problema da educação e da falta de comunicação dos povos. Mas jogadores de futebol podem fazer muita coisa a respeito - diz Lama.

Cartas marcadas

O Fesman é definido pelo seu coordenador geral, responsável pela parte artística, como o “Festival dos Festivais”, pela sua grandiosidade e pela variedade das modalidades artísticas.

O evento terá mostras competitivas de teatro, literatura (poesia, romance, novela, ensaio, conto), dança tradicional e contemporânea, música tradicional e moderna, moda, artesanato, arte visual (pintura, escultura e design) e cinema (curta-metragem, longa-metragem, documentário, filme de animação). Os artistas vencedores de cada categoria levam de volta para casa 15 mil euros.

Como país convidado, o Brasil poderá levar quantos artistas quiser na delegação organizada pela Fundação Palmares. Zulu Araújo afirma que haverá duas modalidades de escolha dos representantes nacionais: convites a artistas, personalidades e lideranças negras do país já reconhecidas e um edital para seleção de artistas negros emergentes.

- Quero deixar claro aqui. Uma parte dos artistas somos nós que vamos convidar. São cartas marcadas mesmo. Não vou submeter Zezé Motta, Milton Gonçalves, Gilberto Gil ou o Ilê Aiyê a uma seleção. A vida deles já foi essa seleção - afirma Araújo.

Além das mostras competitivas, o Festival terá grande espetáculos - dentre eles um show do ex-ministro brasileiro Gilberto Gil -, e um colóquio, no qual intelectuais dão a sua versão para o tema “A Renascença Africana”.

Dentre as discussões, está não apenas o mundo artístico, mas o universo das finanças e da geração de renda, bem como outras reflexões científicas e sociais.

- O III Fesman será um passo importante para a integração do povo negro na governança mundial - aposta o ministro Mame Birame Diouf.

(fotos: Lucia Correia Lima)

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