Terra Magazine

9 de novembro de 2009

Viradão Esportivo mostra “esportes curiosos” praticados pelo Brasil

Tags:, , - iurirubim às 18:02

No último final de semana, o Brasil inteiro participou do Viradão Esportivo: trinta e três horas de prática esportiva promovidas pela Central Única de Favelas (CUFA), em parceria com a Rede Globo.

Estima-se que 16 milhões de pessoas estiveram diretamente envolvidas em atividades esportivas que aconteceram em dezenas de cidades de todos os Estados do país.

Na condição de sede dos jogos olímpicos de 2016, a cidade do Rio de Janeiro concentrou a maior parte dessas atividades, promovendo mais de quatro mil eventos.

Mas o Viradão Esportivo também chamou atenção pelas estranhas e nada olímpicadas modalidades esportivas praticadas Brasil afora, longe da capital fluminense (na foto do topo, “Futlama”).

O basquete sobre rodas é bem comum se comparado a outras modalidades esportivas...

O basquete sobre rodas é bem comum se comparado a outras modalidades esportivas do Brasil...

Não falo aqui de nem de modalidades “quase” incorporadas à prática esportiva nacional, como o basquete de rua e a peteca. Nem de modalidades aventureiras em ambiente urbano (parkour) e natural (corridas de aventura e rapel).

No Viradão Esportivo se fazem presentes vários tipos de dança – street dance, salão, rap, capoeira, maculelê, balé e até mesmo tango (!) –; oficinas de arte circense, teatro, violino e bolinha de gude;  campeonato de declamação, competições de bumerangue e pipa.

A turma do motor também participam. Durante a madrugada entre sábado e domingo, os habitantes de Pelotas (RS) puderam curtir o “Arrancadão”, uma disputa de arrancada entre os possantes da cidade.

Em Praia Grande (SP), as manobras radicais ficam são feitas sobre duas rodas, em motos. Mas nada é tão “esportivo” quantos os carangos de Goiana (PE), que participaram da Competição de Som de Automóveis.

Muitas cidades – muitas mesmo – deram destaque para os “esportes boêmios”, aqueles que a gente joga sentado, de preferência numa mesa de barzinho: xadrez, damas, dominó, truco, dentre outros.

Essa foi a 16a. edição da Corrida de Jegue de São Gonçalo do Amarante

Essa foi a 16a. edição da Corrida de Jegue de São Gonçalo do Amarante

Também sentados, só que nesse caso por necessidade, os competidores disputam o “basquete sobre rodas” com as mesmas regras do basquete tradicional, tanto em Natal, quanto em Dourados (MS). Na cidade do centro-oeste, quem ganhou a competição foi a equipe de cadeirantes Dourados sobre Rodas.

O movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) esteve bastante ativo no Viradão. Na madrugada entre sábado e domingo, exatamente à meia-noite, na Praça do Barão, em Macapá, uma multidão assiste ao Queimadão do Barão, uma disputa de queimada (também conhecida por baleado).

Criado em 2005 por um grupo de homossexuais, o Queimadão do Barão virou uma febre na cidade, concentrando platéias de até três mil pessoas e fazendo disputas divertidas, como “heteros versus homossexuais”.

Na Parada Gay, a corrida de salto era a modalidade mais adequada

Na Parada Gay, a corrida de salto era a modalidade mais adequada

Já em Natal, em plena Parada Gay, o Viradão Esportivo realizou a mais adequada competição para o momento: a corrida de salto alto! Oito “atletas” participaram da disputa, cujo objetivo era percorrer  os 60 metros “altos”. Isso tudo, obviamente, sem cair do salto (o que aconteceu apenas com uma delas). Ganhou a corrida a “quenga” Ohana Savashe, que levou para casa um vale de R$ 100,00 para comprar adereços para a próxima fantasia de carnaval.

Também no Rio Grande do Norte, em São Gonçalo do Amarante, aconteceu a 16a. edição da Corrida do Jegue, um evento que já faz parte do calendário municipal. Cerca de 60 animais participaram da disputa, que premiou tanto o jegue mais rápido quanto o mais ornamentado.

Em Juiz de Fora (MG), outro animal acompanhou o homem numa atividade esportiva inovadora, a cãominhada. Doze duplas, formadas por cachorro e dono, fizeram quatro horas de treeking nas montanhas do entorno do bairro de Lourdes, na cidade mineira. “Lembrei que tinha visto uma reportagem e resolvi fazer algo parecido”, diz Carlos César Pinho, organizador do evento.

Algumas modalidades do Viradão pelo Brasil são curiosamente adaptadas daquelas mais conhecidas. Na beira do Rio Amazonas, em aconteceu o Futlama, um torneio de oito times disputado com uma bola impermeável na praia de Aturiá.

o homem e seu melhor amigo fazendo treeking*

Cãominhada: o homem e seu melhor amigo fazendo treeking*

Em Natal, no Parque das Dunas, o xadrez virou “xadrez gigante”, com peças de um metro de altura.  No mesmo local, uma modalidade esportiva que eu ainda não conhecia: o speddy ball, um jogo em que uma bola em forma de gota é presa por uma corda a um mastro e o objetivo de cada pessoas ou dupla é enrolar totalmente a bola no mastro.

Nos quarto cantos do país, o Viradão Esportivo exibiu novas modalidades esportivas. Em Matinhos (PR), as pessoas disputavam o boardball. Em Porto Alegre, o “Futebol de Parede” e em Sorocaba, o Trigolbol, cujo campo é triangular (!). Não perguntem a este blogueiro como funcionam porque, realmente, é muita novidade.

*A “cãominhada” da foto não é a do Viradão Esportivo, mas de outro evento também em Juiz de Fora, promovido pela LC Adestramento.

(fotos: Isaías Carlos (jegue)/ CUFA-RN (corrida de salto)/ CUFA-MS (basquete)/ LC Adestramento (cãominhada)/ divulgação)

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28 de outubro de 2009

Brasil começa a estruturar ligas de futebol… americano

Tags:, - iurirubim às 7:00

Já se imaginou torcendo para o Rio de Janeiro Sharks? Ou para o Amazon Black Hawks? Os nomes estrangeiros não são mera coincidência. Cada vez mais cresce no Brasil a paixão pelo futebol americano - é isso mesmo, aquele da bola oval.

No sábado passado, o Cuiabá Arsenal, fundado em 2006, venceu o Tubarões do Cerrado - time de Brasília, criado em 2004 - por 30 x 0.

A vitória rendeu ao time do Mato Grosso vagas nas semifinais do torneio Touchdown, a primeira competição de times em âmbito nacional de futebol americano no Brasil.

Em abril deste ano, outra estréia: no I Torneio Brasileiro de Seleções Estaduais, ocorrido em São Paulo, foram utilizados pela primeira vez todos os equipamentos de proteção do esporte (capacetes e ombreiras, exatamente os mesmos usados na terra do Tio Sam).

A história do futebol americano no Brasil é quase toda assim: construída a partir de times, ligas e campeonatos criados neste século. Em geral, com menos de cinco anos de vida.

A própria seleção brasileira de futebol americano (sim, ela existe!) foi convocada pela primeira vez em 2007, com atletas do Mato Grosso, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, por conta de um jogo amistoso com a seleção uruguaia. O placar? 21 a 14. Para os uruguaios.

A história do futebol americano no Brasil é muito recente

A história do futebol americano no Brasil é muito recente

Os times mais longevos em atividade no Brasil são o Botafogo Matutes (RJ, 1994) e o Botafogo Reptiles (RJ, 1999). O primeiro time foi o Rio Guardians, fundado por Robert Lee Seagal e amigos nas areias das praias cariocas em 1986. A agremiação, entretanto, encerrou suas atividades em 2001 e seus jogadores ingressaram em outros times.

Como você deve ter adivinhado no parágrafo acima, algumas equipes, como o Reptiles, o Mamutes e o America Red Lions têm acordos com os times de futebol “brasileiro”.

Número cada vez maior de torneios, unificação de regras no país, qualificação da arbitragem: tudo isso está acontecendo sem muita badalação, mas demonstra o aumento do interesse pelo futebol americano no Brasil. Outra prova desse interesse é a existência de mídias especializadas, como o Blog Sideline.

Em atividade desde 2002, existe também uma associação nacional, a AFAB, além de diversas ligas e federações estaduais (SP, SC, PR, AM, PB etc.). Como vê caro leitor, o brasileiro gosta tanto de futebol que quer aprender a jogar também com as mãos.

(fotos: Rodrigo Pons/ Felipe Rugboy, via Blog Sideline)

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19 de setembro de 2009

“Não sei se existe evento como a Virada Esportiva no Planeta”, diz Secretário de Esportes de SP

Começou a Virada Esportiva. Das 10h de hoje às 20h deste domingo (20/09), ginásios, ruas, parques e praças da cidade de São Paulo vão estar tomados por esportistas regulares, de final de semana e até mesmo baladeiros.

A expectativa da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, que organiza o evento, é de que 2,5 milhões de pessoas participem da Virada 2009, que terá duas mil atividades em mais de mil locais. Confira a programação.

O Blog das Ruas entrevistou o secretário de esportes Walter Feldman, idealizador da Virada Esportiva, que desde 2007 acontece na capital paulista.

Praticamente assíduo de esportes, o secretário publica em seu blog pessoal o roteiro que irá seguir  durante a Virada Esportiva, que classifica como um evento espórtivo único no mundo.

- É um evento de dimensões exemplares. Não sei se existe evento esportivo dessas dimensões planeta. Com centenas de atividades acontecendo simultaneamente, em toda a cidade, e a participação de algo entre dois a três milhões de pessoas. É uma grande vitrine. Tem muita atividade esportiva. Seguramente uma delas se encaixa no perfil de quem ainda não pratica esportes - afirma.

Na esteira da Virada Esportiva, encontra-se a intenção de “transformar São Paulo na capital brasileira do esporte”.

Segundo Feldman, a capital paulista faz do esporte hoje uma política pública prioritária. “É um fato quase inédito no Brasil. Tenho quatro vezes o orçamento de meu antecessor”, destaca.

O Secretáriod e Esportes de São Paulo, em trajes pouco adequados à atividades esportiva

O Secretário de Esportes de São Paulo, em trajes pouco adequados à atividades esportiva

O secretário relata a mudança de perfil da secretaria, cujas atividades, na sua opinião, se reduziam a “eventos e apoio ao futebol profissional”.

- Agora a Secretaria de Esportes passou a investir pesadamente no esporte amador e no estímulo à atividade física pelo cidadão comum como instrumento de melhoria da educação, da saúde e do convívio comunitário, o que funciona para reduzir a criminalidade - argumenta Walter Feldman.

O secretário também não se esquiva em falar da dívida que a capital paulista tem com a construção de ciclovias e facilitação do transporte através de meios não-motorizados.

- São Paulo deve demais nesse aspecto! Sabe qual é o meu sonho? Que a ciclofaixa possa abrir as portas da cidade para um modelo que priorize atividades não-motorizadas para não apenas como lazer, mas como meio de transporte. Existe na cidade um enorme potencial que ainda não foi explorado.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

Secretário Feldman, para começar, quais esportes o senhor pratica?

Gosto muito de corrida de rua. Também faço ginástica, musculação, alongamento; atividades aeróbicas. Jogo futebol, ando de bicicleta. Agora mesmo no final de semana passado, dei duas pedaladas.

Mas estou procurando um esporte que seja mais competitivo. Talvez faça squash. Eu tenho um jeito brincalhão, o lado menino muito forte, de onde tem esporte eu quero participar.

A canoagem é uma das mais de duas mil atividades previstas na Virada Esportiva

A canoagem é uma das mais de duas mil atividades previstas na Virada Esportiva

Foi o senhor que idealizou a iniciativa da Virada Esportiva, em 2007. Qual é o principal ganho que ela pode trazer?

Existem dois objetivos estratégicos por trás da Virada: tornar a capital paulista uma cidade saudável e transformar São Paulo na capital brasileira do esporte.

A Virada Esportiva é um evento de dimensões exemplares. Não sei se existe evento esportivo dessas dimensões planeta. Com centenas de atividades acontecendo simultaneamente, em toda a cidade, e a participação de algo entre dois a três milhões de pessoas. É uma grande vitrine. Tem muita atividade esportiva. Seguramente uma delas se encaixa no perfil de quem ainda não pratica esportes.

O problema é que nós fomos culturalmente treinados a gostar apenas de futebol. E o pior: sabemos hoje que o futebol é muito mais assistido do que praticado.

Mas não é meio estranho propor uma “virada” para os esportes, cuja realização depende também de noites bem dormidas?

Nós não estamos propondo isso todas as noites. A Virada é um choque de atividades esportivas para, a partir daí, a pessoa programar atividades regulares duas ou três vezes na semana.

Também existe outro dado. São Paulo é uma cidade 24h. Temos iluminado muitos campos e percebemos que existe um espaço de tempo do trabalhador que pode ser aproveitado para atividades que não sejam chegar em casa e ver TV. Eles fazem um uso extraordinário desses equipamentos.

Agora a Virada também tem algumas atividades que não são exatamente saudáveis, como os “esportes boêmios”…

De fato, elas são muito pouco saudáveis, assim, praticadas no bar. Mas você tem também tem que entrar na característica da cidade. Não pode ser cara chato, pregando a atividade esportiva. Tem que ser meio: “olha, se você não quer, terá uma opção de atividade coletiva também”. E tem o aspecto de emoção, convivência, da relação que é você ir para a rua com seu vizinho, com um companheiro. Quando se vive para fora a vida comunitária acontece.

Para Feldman, patins e bicicletas devem ser usados também como meio de transporte

Para Feldman, patins e bicicletas devem ser usados também como meio de transporte

Existem alguns estudos que comprovam que jogos de cartas, por exemplo, contribuem para um envelhecimento mais saudável.

Por causa da convivência. São os chamados “esportes mentais”. Veja o truco hoje. É uma febre no mundo universitário.

Mudando um pouco de direção, me parece que as políticas para o esporte são sempre episódicas e pouco ousadas. Quais são as políticas ousadas de São Paulo para os Esportes?

São Paulo faz do esporte hoje uma política pública prioritária. É um fato quase inédito no Brasil. Tenho quatro vezes o orçamento de meu antecessor. Fizemos reformas de 320 equipamentos esportivos na cidade. Criamos o programa social clube-escola. Estamos realizando os Jogos da Cidade, o maior campeonato amador do Brasil. Só para você ver, o site que acompanha o evento já teve 21 milhões de acesso.

Na verdade, a Secretaria de Esportes deixou de apenas promover eventos e apoiar o futebol profissional. Embora seja um evento, a Virada está conectada com toda uma política esportiva.

São Paulo hoje faz do esporte uma política pública prioritária. A Secretaria de Esportes passou a investir pesadamente no esporte amador e no estímulo à atividade física pelo cidadão comum como instrumento de melhoria da educação, da saúde e do convívio comunitário, o que funciona para reduzir a criminalidade.

Também vamos implantar uma rede de esportes olímpicos para que existam triagens e parte desse universo caminhe para o esporte alto rendimento.

Ainda assim, o senhor não acha que, mesmo levando em conta a recente implantação da ciclofaixa de lazer, a cidade de São Paulo ainda deve muito para quem deseja usar bicicleta e outros meios de deslocamento não-poluentes, como patins?

São Paulo deve demais nesse aspecto! Sabe qual é o meu sonho? Que a ciclofaixa possa abrir as portas da cidade para um modelo que priorize atividades não-motorizadas para não apenas como lazer, mas como meio de transporte. Existe na cidade um enorme potencial que ainda não foi explorado.

Mas isso está mudando. O Serra já autorizou a implantação de ciclovias na marginal pinheiros. A prefeitura também está construindo mais ciclovias. Lançamos recentemente a ciclofaixa, que une os Parques os Parques das Bicicletas, do Ibirapuera e do Povo Ibirapuera e o Parque do Povo. Política maior. Daqui a um ano, já teremos 100 km de ciclofaixas.

Além disso, a nossa ideia é que domingo é o dia das pessoas. No domingo, elas vão para rua, se apropriam dos espaços públicos e usam o fim de semana para se renovar para enfrentar o tempo do trabalho.

(fotos: Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo [1;3;4]; Dibjr [2])

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2 de setembro de 2009

Capoeira pode virar esporte olímpico

Décima quarta expressão artística do país a ser registrada como patrimônio imaterial, a capoeira pode virar em breve um esporte olímpico. Quem faz o alerta é o presidente da Federação de Capoeira Angola e Regional da Bahia (Fecarba), Jean Adriano Barros da Silva.- A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica - avisa o presidente da Fecarba.

Aos 34 anos de idade, Jean Adriano é mestre de capoeira e coordenador do grupo G.U.E.T.O. Em entrevista ao Blog das Ruas, ele fala do Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009, da V Copa Mundial de Capoeira e, claro, da possibilidade da expressão cultural tornar-se esporte olímpico.

- Estamos numa fase de consulta. O Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação - diz.

O jovem mestre de capoeira revela também suas expectativas e dúvidas a respeito deste reconhecimento.

Para ele, pode haver tanto avanços no reconhecimento e na legitimação da capoeira, que contribuem para abolir o preconceito que ainda existe (!) em relação à atividade.

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpada?

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpíada?

Por outro lado, preocupa-se que este reconhecimento acabe por “enquadrar” a capoeira em um único formato. “Pode vir a ser uma capoeira de suor e músculo, onde ganha mais malhado”, diz. E completa: “Existem uma série de valores, como a roda e o respeito aos mais velhos, que precisam ser mantidos. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar”.

Veja abaixo a íntegra da entrevista.

Desde o dia 31 de agosto até 13 de setembro acontecem na Bahia o Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009 e a V Copa Mundial de Capoeira. O que isso significa para o Estado?

Essas atividades acontecem nas cidades de Salvador, Nossa Senhora do Livramento, Rio de Contas e Vitória da Conquista. São, em primeiro lugar, um encontro entre capoeiristas, mas também dos capoeiristas de todo o mundo com a população de cada lugar. No congresso, temos caminhadas, visitas a escolas públicas, desfiles e outras ações de envolvimento com a comunidade.

Quantas pessoas estão envolvidas nesses eventos. E de quantos países?

Participam representantes da capoeira em nove cidades estrangeiras, de sete países. Isso sem contar o Brasil. Aqui, não dá nem para listar as cidades, há desde capitais como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Natal, até cidades menores, como Santo Amaro, Rio de Contas etc. Esperamos envolver diretamente cerca de 600 capoeiristas durante todo o período em que acontecem os eventos.

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

E o que é a V Copa Mundial da Capoeira?

A Copa do Mundo da Capoeira é uma experimentação nossa para concebermos a capoeira como esporte, algo que temos tentado refletir com muita calma. A primeira etapa da Copa acontece em Salvador; depois há etapas em [Nossa Senhora do] Livramento e Rio de Contas e a grande final acontece em [Vitória da] Conquista.

Então vocês estão testando formatos e regras? Como está desenhado o torneio?

Tentamos reproduzir ao máximo uma roda de capoeira. Uma dupla se apresenta e um júri avalia sua técnica, seu conhecimento do jogo e a nota é dada para a dupla. Não é competição de luta. Você não joga contra o outro, mas com o outro.

São duas categorias: estudante e professor, com prêmios individuais para os três primeiros lugares.

Mas não seria melhor premiar as duplas, já que ninguém se apresenta sozinho?

Mas também não é uma coreografia. Queremos reproduzir a dinâmica da roda, em que você se apresenta sempre em dupla, mas sempre com uma dupla diferente. No caso, o capoeirista apresenta-se várias vezes, e a sua dupla é sorteada a cada momento.

Existe a possibilidade da capoeira tornar-se um esporte olímpico?

Existe sim. A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica.

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

E o que falta para essa efetivação?

É um processo ainda um pouco longo, mas possível. Nesse momento, estamos numa fase de consulta, elaborando modelos para o comitê olímpico. A confederação brasileira tem até o final do ano para apresentar uma proposta ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Depois, o Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação, presente na abertura das olimpíadas, por exemplo.

Mas esse processo que não é só técnico. É político, tem que ter lobby, movimentação financeira. Não tem muito a ver com os aspectos que gostaríamos.

E quais os benefícios da capoeira virar esporte?

Enquanto federação, devo dizer que a capoeira vai passar a ser mais reconhecida e que isso vai contribuir para acabar com os preconceitos que até hoje existem em relação à capoeira. Com certeza, teremos um avanço na promoção da capoeira, na sua divulgação e normalização.

Mas enquanto capoeirista, devo dizer também que fico preocupado com o enquadramento da capoeira esporte como única possibilidade e perdermos uma série de valores fundamentais como a roda, o respeito aos mais antigos, em troca de referenciais novos, como agilidade e força. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar.

Tem muita gente que encara a capoeira não apenas como uma ginástica, mas como filosofia de vida, quase como religião. Precisamos de um bom diálogo para não perder isso.

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Então porque se envolver?

Porque temos a certeza que isso vai adiante com ou sem a gente. Já existem grupos bem avançados nessa questão. Mas eles defendem aquela capoeira de suor e músculo, onde ganha o mais malhado. Por isso defendo que a gente esteja junto, para direcionar também esse processo. Mas é difícil porque a Bahia, a meca da capoeira, ainda não tem amadurecimento para esse diálogo.

Qual a maior dificuldade em debater a questão?

Os mestres. Perceba que eles têm pouco dinheiro e reconhecimento. Fora da capoeira, o cara é nada e na capoeira ele é mestre. Então ele só confia naquilo que aprendeu com o seu mestre, que aprendeu com o anterior… Grande parte dos mestres antigos entende modificação como uma coisa que eles não dão conta. E, sem a presença deles, essa discussão não vale nada.

E você, o que acha da capoeira virar esporte e integrar as olimpíadas?

(fotos: Grupo G.U.E.T.O.)

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16 de abril de 2009

MT: Povos nativos do Araguaia realizam segunda edição de jogos indígenas

Os times são suas tribos. Os esportes, levemente “adaptados” das modalidades tradicionais. É assim, promovendo a comunhão e celebrando a diferença, que centenas de indígenas reúnem-se nos dias 18 e 19 deste mês na Aldeia Urubu Branco, da etnia Tapirapé, para a realização dos II Jogos Olímpicos Esportivos Culturais dos Povos Indígenas do Araguaia.

Além dos anfitriões, outras cinco etnias (Carajás; Javaés; Camaiurás; Cuicuros e Caibis) participam dos Jogos. Ao todo, a celebração deve mobilizar, entre competidores e acompanhantes, cerca de mil indígenas das etnias envolvidas.

Segundo Fabinho Wataramy Tapirapé, presidente da APOIT (Associação Povos e Organização Indígena Tapirapé), além de comemorar o Dia do Índio (19/4), o principal objetivo da competição “é o estreitamento dos laços de amizade entre os povos” - e isso inclui os não-indígenas. O convite para apreciar os Jogos é, portanto, extensível aos “cara-pálidas”.

Como a Aldeia Urubu Branco fica bastante próxima (28 km) ao município de Confresa, situado no extremo nordeste matogrossense, há a expectativa que a aldeia receba cerca de mil visitantes não-indígenas para acompanhar o evento. Quem for lá vai perceber uma novidade: há apenas 20 dias foi feita a primeira ligação da energia elétrica na aldeia.

As modalidades esportivas em disputa são futebol, cabo de guerra, arremesso de lança, corrida de 100 metros e arco e flecha. Todas elas, divididas entre masculino e feminino. A única exceção é o arco e velha, quando homens e mulheres competem juntos.

É curioso notar, entretanto, que a premiação é muito maior para os campeões do futebol masculino, cujo primeiro lugar leva R$ 1000,00. Esse valor é o dobro da premiação do futebol feminino (R$ 500,00) e dez vezes mais a das outras modalidades, R$ 100,00.

“As meninas têm o mesmo valor dos homens. Têm premiação menor porque os homens disputam mais partidas, é mais concorrido”, argumenta Fabinho Tapirapé. O presidente da APOIT, entretanto, não se sai tão bem quando tenta explicar a diferença em relação às outras modalidades:

- O futebol é o que mais chama atenção, as pessoas são mais interessadas no futebol… além disso, estamos com pouco dinheiro para evento…

Premiações à parte, Fabinho Tapirapé garante que o estímulo à prática esportiva, cuja ápice seria a realização dos Jogos, “é ainda um incentivo para que os jovens das aldeias não se envolvam com drogas”.

Os II Jogos Indígenas do Araguaia também são um momento de manter viva as tradições e as marcas de identidade cultural dos povos.

Na noite do dia 17, quando acontece a abertura oficial dos Jogos, os representantes de cada povo fazem uma apresentação, dão uma amostra aos presentes dos encantos de sua etnia. O mesmo acontece no encerramento dos Jogos.

- Nesse momento não há competição nem prêmios - diz Fabinho Tapirapé. - As culturas de cada um dos povos têm o mesmo valor.

(fotos: Ednilson Aguiar/ Secom-MT [1]; Leandro Nascimento [2; 3])

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