Terra Magazine

3 de julho de 2009

Fachadas de casas fazem tributo à Independência da Bahia

Ontem, no dia 2 de Julho, foi celebrada a Independência da Bahia, quando as tropas do exército e da marinha brasileira conseguiram a libertação definitiva do Brasil do domínio português, em 1823.

A data é tradicionalmente comemorada com um cortejo na capital baiana, que sai do Largo da Lapinha e vai até a Praça da Sé.

Para estimular o espírito cívico da população local, a Fundação Gregório de Mattos (órgão municipal de cultura) costuma promover uma competição entre as fachadas das casas que ficam no trajeto.

As casas vencedoras, que serão conhecidas no dia 17 deste mês, ganham R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1mil para os primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Os moradores enfeitam suas casas para o desfile do Dois de Julho

Os moradores enfeitam suas casas para o desfile da Independência da Bahia, no Dois de Julho

O Blog das Ruas esteve no cortejo do 2 de Julho e fez a sua própria seleção. Manequins, modelos vivos, manifestações políticas, comércio e, claro, futebol são elementos presentes nas fachadas mais chamativas.

A concentração de máquinas fotográficas logo anuncia uma das mais fortes concorrentes. Decorada com folhas de palmeira, flores vermelhas e brancas e as bandeiras da Bahia e do Brasil, a casa tem à sua porta três adolescentes, vestidos de Joana Angélica, Castro Alves, Maria Quitéria. Nas janelas, duas crianças representam os caboclos (índios).

- A menina de Maria Quitéria e a indiazinha são minhas netas. Os outros três são vizinhos. Eles ficam aí das 10h até quando acaba o cortejo. Eu falo para descarem um pouco, mas não querem descer não. Também, todo mundo tira foto e brinca com eles… - conta a senhora Maria Santana,que decora a fachada da casa há 13 anos.

Dona Maria Santana nasceu num Dois de Julho

Dona Maria Santana nasceu num Dois de Julho e decora a fachada há 13 anos

Para Dona Maria Santana, a data é mais que especial: é o seu aniversário. Nascida em 2 de julho de 1940, ela se diz privilegiada e pede que a data continue a ser celebrada. “É muito importante o Dois de Julho. A Bahia precisa lembrar dos seus heróis”, afirma.

Quase em frente à casa de Dona Maria, outra fachada tem as três janelas ocupadas por modelos vivos. Desta vez, só mulheres, representando Joana Angélica, Maria Quitéria e a Iyalorixá Maria Felipa, personagem menos conhecida da luta pela independência na Bahia.

Felipa lutou na Ilha de Itaparica. Conta-se que ela liderava uma “guarnição” de 40 mulheres, que seduziam e depois surravam com cansanção os soldados portugueses. Felipa e suas lideradas teriam queimado 42 embarcações dos colonizadores.

Fachada homenageia Maria Felipa (E), hero�na pouco conhecida da Independência Baiana

Fachada homenageia Maria Felipa (E), heroína pouco conhecida da Independência Baiana

“Decoro minha fachada há três anos e sempre estou homenageando o povo negro”, diz Nilzete dos Santos, 32, que aproveitava o cortejo para fazer uns trocados vendendo bebidas num isopor à frente de casa.

- Em 2008, ganhei o terceiro prêmio homenageando os orixás. Este ano, espero ganhar de novo fazendo uma homenagem às mulheres negras - conta Nilzete.

Na Rua dos Perdões, uma enorme bandeira da Bahia tem à frente o desenho de um grande pote decorado com motivos africanos, que estampa os dizeres “Renascendo na Palma da Mão”.

Dona da casa, Maria da Anunciação, 91, espera viver "para muitas outras festas"

Dona da casa, Maria da Anunciação, 91, espera viver "para muitas outras festas"

Dentro da casa, a dona, Maria Anunciação dos Santos, de 91 anos, não consegue me explicar o que quer dizer a decoração. Entretanto, com a vozinha baixa, mas firme, afirma: “Adoro festas! Espero que Deus me dê ainda muitos anos de vida para decorar minha casa muitas vezes”.

Perto de dona Anunciação, cinco manequins e muito luxo enfeitam outra fachada. Desta vez, é um profissional que está por trás do projeto: o estilista e artista plástico Júlio César Habib, que há 13 anos mora no bairro e estréia no concurso de fachadas.

- Eu fico muito triste quando um adolescente pergunta “quem é aquela mulher vestida de homem?” e não sabe que é Maria Quitéria. A grande infelicidade da Bahia é terem tirado do ensino primário a história da Bahia, a verdadeira história do Brasil - diz Habib.

Fachada "chique" tem manequins e muito luxo

Fachada "chique" tem manequins e muito luxo

O estilista projeta uma sala de estar com portugueses, Maria Quitéria e a figura do caboclo. Segundo ele, o conceito que norteia a obra é paz e igualdade.

“Tendo vencido a luta, Maria Quitéria está em paz com o índio, seu companheiro de luta, e os portugueses que aqui ficaram porque amaram o Brasil. Os que não gostaram daqui, Maria Quitéria mandou embora”, conta.

Elvis, Michael Jackson e ACM

Ao longo do trajeto, algumas surpresas. Várias residências aproveitam o burburinho para serem negociadas. Numa delas, uma grande faixa pendurada na varanda dizia: “A Casa-Museu Solar do Santo Antonio está à venda”.

A paixão nacional também é destaque na festa da Indepedência da Bahia

A paixão nacional também é destaque na festa da Indepedência da Bahia

As fachadas das casas servem também para estampar as preferências de seus donos no futebol e na política. Não raro, a bandeira oficial é substituída pela do Esporte Clube Bahia.

Numa das casas, entre as bandeiras do Bahia e do Brasil, flutua a camisa do Corinthians, campeão da Copa do Brasil na noite anterior.

Moradores manifestam o descontentamento com a pol�tica

Moradores manifestam o descontentamento com a política

Os moradores não deixam de manifestar suas paixões e sua insatisfação na política também.

Na Rua dos Perdões, o muro de uma casa ostenta, em letras garrafais, a frase: “Vote nulo: não sustente parasitas! Estamos P.uT.os c/vcs DEMônios”. Já em outra casa, no bairro de Santo Antonio, a única decoração é um pôster enorme do senador falecido Antonio Carlos Magalhães.

Todos os anos, Soraya Fahel decora a casa com a fam�lia Magalhães

Todos os anos, Soraya Fahel decora a casa com a família Magalhães

“Desde que me entendo por gente, sou ACM”, diz Soraya Fahel, dona da casa. “Todo ano eu decoro a minha fachada com ele, com o Filho [Luís Eduardo Magalhães] ou com o Neto [ACM Neto]“.

Durante a nossa conversa, Soraya faz um comentário cuja justificativa só posso atribuir à paixão desmedida pelo ex-senador baiano:

- Elvis não morreu. Michael Jackson e ACM também não.

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25 de junho de 2009

Irmandade da Boa Morte vira Patrimônio Imaterial da Bahia

A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira (BA), vai se tornar “Patrimônio Imaterial da Bahia”. O anúncio oficial, feito pelo governador Jaques Wagner, estava marcado para hoje, lá mesmo em Cachoeira, às 11h.

Há certa polêmica entre os autores sobre o início da Irmandade da Boa Morte e de seus rituais. Alguns afirmam que ela surgiu nos primeiros anos do Século XIX. Outros sugerem que seu nascimento se deu ainda no Século XVIII.

Mas existe consenso quanto à Irmandade ter surgido pela iniciativa de negras livres, no bairro da Barroquinha, na capital baiana. De lá, a organização teria migrado (ou desdobrado-se) para Cachoeira quando, em 1820, fui fundada a Irmandade da Boa Morte naquela cidade.

O governador Jaques Wagner, na sede da Irmandade da Boa Morte

O governador Jaques Wagner, na sede da Irmandade da Boa Morte

A Irmandade é exclusivamente feminina e só aceita mulheres negras por volta dos 40 anos. Atualmente, reúne 22 irmãs. Realiza anualmente, sempre no mês de agosto, a Festa da Boa Morte, uma tradição secular de agradecimento religioso (tanto o candomblé quanto o catolicismo) pela libertação de escravos. Todos os anos, a Festa da Boa Morte leva milhares de pessoas a Cachoeira.

Veja matéria sobre a Festa da Boa Morte de 2008.

O anúncio da Irmandade da Boa Morte como Patrimônio Imaterial da Bahia é um dos atos que marcam a transferência anual da sede do Governo do Estado para a cidade.

(fotos: Iuri Rubim/Blog das Ruas e Manu Dias/AGECOM)

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Para celebrar a independência da Bahia, governo muda de sede

Cachoeira, cidade onde começou o movimento pela independência da Bahia, é a nova “capital” do Estado durante o dia de hoje.

Quer falar com o Governador Jaques Wagner? Então vá a Cachoeira.

Pelo segundo ano consecutivo, a sede do Governo da Bahia é transferida para a cidade de Cachoeira, localizada no Recôncavo Baiano a 111 km de Salvador. A transferência é determinação da Lei 10.695, de 2007, e é uma homenagem à lutas dos baianos pela independência.

Além de assinar atos e despachos da administração estadual - neste dia, geralmente relacionados com a região -, o governador e seu secretariado participam das comemorações pela independência da Bahia.

Também serão divulgados o envio à Assembleia Legislativa do projeto de lei que cria a medalha, condecoração ou ordem 2 de Julho e da mensagem que torna o Hino ao 2 de Julho hino oficial da Bahia.

A nova sede do governo baiano foi a primeira cidade do Estado a aprovar a independência da colônia do jugo português.

Em 25 de junho de 1822, ainda que sob ameaça de uma escuna militar portuguesa, Antônio de Cerqueira Lima, José Garcia Pacheco de Aragão, Antônio de Castro Lima, Joaquim Pedreira do Couto Ferraz, Rodrigo Antônio Falcão Brandão, José Fiúza de Almeida e Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, reunidos na Câmara Municipal de Cachoeira, anunciam o resultado da consulta feita ao povo, que concordou com a proclamação de dom Pedro de Alcântara “regente constitucional e defensor perpétuo do Brasil”.

O governador da Bahia, Jaques Wagner, na cerimônia de transferência do governo em 2008

O governador da Bahia, Jaques Wagner, na cerimônia de transferência do governo em 2008

O “Sim” da população de Cachoeira disparou a luta pela independência da Bahia - então completamente dominada pelos portugueses - que só terminou pouco mais de um ano depois, no dia 2 de julho de 1823, com a rendição do comandante português Madeira de Melo e suas tropas.

Pouco conhecida no resto do Brasil, a independência da Bahia foi o embate mais sangrento do processo de independência do Brasil (sim, a independência do Brasil não foi tão tranquila como ensinam na escola…). Entenda a independência da Bahia.

Mártires, heróis e mitos

Foram várias batalhas e confrontos que, além da independência, geraram mártires, heróis e mitos.

Ainda em 18 de fevereiro de 1821, o Brasil ganhou sua primeira mártir, a abadessa Joana Angélica, assassinada ao tentar impedir que soldados portugueses invadissem o Convento da Lapa.

- Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus. Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver - teria dito Joana Angélica parada de braços abertos à porta do convento, pouco antes de sua morte.

A transferência do governo é um reconhecimento tardio da importância de Cachoeira para a Bahia

A transferência do governo é um reconhecimento tardio da importância de Cachoeira para a Bahia

O herói mais conhecido da Independência da Bahia não foi herói, e, sim, heroína. Disfarçada de “Soldado Medeiros” e sem autorização do pai, Maria Quitéria alistou-se nas forças pró-independência. Segundo é contado, Quitéria usaria um saiote escocês sobre a sua farda.

Travou várias batalhas, ganhando, inclusive, honras por bravura em combate. Não por acaso, Maria Quitéria é considerada a Joana D’Arc brasileira.

E, como muitos heróis brasileiros, ela morreu no anonimato, quase cega, em Salvador. O reconhecimento só veio mais tarde, quando foram criadas comendas, em Salvador e Feira de Santana, com o seu nome.

Por Decreto da Presidência da República, de 28 de junho de 1996, Maria Quitéria foi reconhecida como Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. A sua imagem encontra-se em todos os quartéis, estabelecimentos e repartições militares da Arma, por determinação ministerial.

Os �ndios também participaram das batalhas pela independência da Bahia

Os índios também participaram das batalhas pela independência da Bahia

Não menos fantástica é a história do Corneteiro Lopes. É atribuída ao folclore da independência da Bahia a existência de um corneteiro português lutando pelas trincheiras baianas.

O que é contado e recontado a cada celebração de Dois de Julho é que, na decisiva Batalha de Pirajá, Corneteiro Lopes haveria recebido a ordem de tocar a “retirada” e inverteu o toque para “avançar cavalaria, a degolar”, apavorando os portugueses em franca vantagem e enchendo de inaudito ânimo as tropas brasileiras que venceram a batalha.

(fotos: Alberto Coutinho e Ivan Erick/ AGECOM)

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