SP: Grupo de teatro comunitário conta em livro 20 anos de história
Há 20 anos na estrada, o grupo de teatro comunitário Pombas Urbanas lança, neste sábado (19/12), um livro contando as aventuras e desventuras da trupe, cuja longevidade é caso raro no setor cultural brasileiro.
O evento acontece às 20h, no Centro Cultural Arte em Construção (Avenida dos Metalúrgicos, 2.100 - Cidade Tiradentes), espaço multiuso administrado pelo grupo. Esumbaú, Pombas Urbanas! 20 anos de uma Prática de Teatro e Vida, de Neomisia Silvestre, tem distribuição gratuita.
Quem chegar no local com uma hora de antecedência, também pode assistir a apresentação gratuita do espetáculo Histórias Para Serem Contadas, uma das montagens do grupo.
A pedido do Blog das Ruas, Juliana Flory Motta, atriz da trupe teatral, escreveu um texto contando momentos decisivos dessa história, que passeia ludicamente pela cartografia paulistana.
Comemorar 20 anos de grupo Pombas Urbanas
É um prazer, um rito, memória e emoção! Fizemos um projeto e com ele traçamos um plano de retornar a cinco pontos marcantes em nossa trajetória.
São Miguel Paulista, berço do grupo, bairro da zona Leste de São Paulo, culturalmente nordestino, ex-aldeia indígena. Lá, Lino Rojas, diretor fundador deste coletivo, encontrou jovens e adolescentes que seriam Pombas Urbanas na contemporânea Oficina Cultural Luiz Gonzaga, que neste 2009 também completa seus 20 anos de resistência e acesso a atividades culturais dos moradores da zona Leste.
A Avenida São João, centro de São Paulo, na altura do Boulevard e Praça do Correio. Aliás, o prefeito de São Paulo simplesmente retirou o Boulevard São João, uma circunferência de concreto que formava uma pizza que durante décadas foi um espaço importantíssimo de trabalho e manifestação dos artistas de rua. Praticamente um crime cultural.
O calçadão ainda é passarela de ambulantes, trabalhadores, estudantes apressados, mendigos, meninos de rua, executivos, assim como nos anos 1996 a 1998, quando o grupo ali ensaiou e apresentou centenas de vezes o espetáculo Mingau de Concreto.
Tendal da Lapa, antigo matadouro dos Matarazzo, na zona Oeste da cidade, espaço invadido por artistas no início dos anos 1990, onde durante seis anos o Pombas ensaiou, ministrou oficinas, criou e montou o espetáculo Ventre de Lona.
O local resiste como espaço cultural público acessível e abrigo de dezenas de grupos para desenvolverem seus processos artísticos de treino e pesquisa.
Parque da Água Branca, reduto de natureza e cultura caipira paulistana. De 2001 a 2003, o grupo teve sede e morada na vizinhança da Barra Funda, onde criou o Instituto Pombas Urbanas, tornou-se personalidade jurídica sem fins lucrativos, concebeu e montou os espetáculos Bichos Pela Paz, A Parceria que dá certo, Largo da Matriz e Quadrúpedes Aquáticos.
Junto à emoção de celebrar os 20 anos, o grupo deparou-se com a redescoberta de que esses espaços pudessem manter-se vivos na rotina urbana, espaços de encontro, palcos de tragédias e comédias cotidianas.
A comemoração dos 20 anos nos trouxe resgate e alegria que foram compartilhados com dezenas de jovens da Cidade Tiradentes, bairro periférico do extremo Leste e maior conjunto habitacional da América Latina.
Neste bairro-cidade o grupo passou a desenvolver um intenso processo cultural comunitário, enraizou sua sede-galpão de 1.600 m² e fez-se nova morada de Pombas.
Ali nasceram e cresceram Filhos Da Dita, diversos coletivos de teatro, circo, música, dança e leitura de jovens, adolescentes, crianças e moradores da comunidade (32 mil frequentadores em 2009) que participam e apóiam cada passo da estruturação que faz jus ao nome Centro Cultural Arte em Construção.
O grupo viveu muita história, Lino se ocultou, o grupo levantou-se do baque, juntou mãos com gente do bairro, montou o espetáculo Histórias Para Serem Contadas. E também resolveu contar a sua própria história, “parindo” o livro: Esumbaú, Pombas Urbanas! 20 anos de uma prática de teatro e vida.
Ufa! Quanta coisa! São histórias, ações, voos pela cidade de 14 milhões de pessoas e por encontros, sempre guiados pela confiança no coletivo e pelo fazer, o agir, o interesse e o cultivo humano. Pelo teatro de rua se identificam, mas essas pombas bicam de tudo, sentem o sabor, digerem, soltam seu canto.
Juliana Flory Motta, atriz do Pombas Urbanas






