Terra Magazine

11 de abril de 2009

RN: grupos disputam melhor dança de malhação de Judas

Há quase 20 anos, a pequena cidade de Major Sales, no semi-árido do Rio Grande do Norte, acolhe uma disputa interessante: o concurso de Caboclos.

“Os Caboclos” é uma dança tradicional de malhação de Judas durante a Semana Santa. A dança mistura elementos de origem indígena e espanhola e exerce importante papel cultural no Estado.

Neste ano, no Sábado de Aleluia, a partir das 20h, a Associação Comunitária Sócio-Cultural de Major Sales realiza em praça pública o 19º Concurso de Caboclos de Major Sales.

Dez grupos, compostos por cerca de 20 integrantes, cada, disputam os prêmios de R$ 1000,00 (primeiro lugar) e R$ 800,00 (segundo). Os demais caboclos receberão troféus.

De acordo com a coordenadora do concurso, Maria Carlos Fernandes Oliveira, a dança d’OS Cablocos é uma tradição secular no Rio Grande do Norte, remontando ao ano de 1904.

Os grupos organizados de caboclos têm estrutura musical formada por sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro.

A base coreográfica tem de doze a dezesseis brincantes (dançando sempre em roda), envolvidos em passos característicos e mantendo o “Judas” no centro, onde é pisoteado e agredido com bastões.

Quando estão se apresentando, os dançarinos emitem um som gutural, onomatopaico de ira, incessante, e seus sapateados ajudam a compor a base de percussão. As roupas de trapos de panos multicoloridos com capuzes, cuja confecção é realizada em mutirão, provocam bastante impacto visual.

“Essa dança é uma cultura de raiz e resistência. Quando se aproxima a Semana Santa, as crianças só querem ouvir esse tipo de música. Dançam e usam fantasias”, explica Maria Carlos.

A brincadeira começa pela manhã quando os grupos, em cortejos dispersos, apresentam-se em ruas, sítios, terreiros e depois participam da competição. Todo ano, o Concurso de Caboclos de Major Sales atrai para a cidade centenas de pessoas dos municípios vizinhos.

(fotos: Projeto Caboclos de Major Sales e Portal Major Sales)

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25 de março de 2009

CE: cidade faz eleição para escolher “Judas”

O município do Crato (CE), na região do Cariri, divulgou neste domingo o resultado de uma eleição diferente: a cidade votou para escolher quem seria eleito o próximo Judas a ser malhado no Sábado de Aleluia - neste ano, dia 11 de abril.

A votação ocorreu entre os dias 14 e 21 de março, em 20 “seções eleitorais”, com urnas espelhadas por escolas, mercearias, bares, restaurantes, bancas de artesanato - houve até mesmo uma urna itinerante.

Compareceram ao pleito 9860 eleitores, quase 9% da população total do município.

- É uma brincadeira cheia de irreverência, mas tem um quê de seriedade, serve como veículo para provocar discussões na sociedade. A eleição é um gancho muito importante para discutir tradição, mas também os problemas em evidência - argumenta o professor Cacá Araújo, idealizador e coordenador geral da eleição.

O boneco de Judas é estourado com bomba

O boneco de Judas é estourado com bomba

Apuradas as urnas, o vencedor, divulgado no último domingo, foi “Pedofilino Safadus”, um símbolo do crime que vem assustando muitos lares do país.

Essa eleição, o “Político Corrupto” não ganhou, mas ficou em segundo lugar e garantiu a suplência por uma margem muito apertada de votos (2764 a 2701).

O vencedor da eleição ganha um boneco, que será explodido com bomba (isso mesmo, explodido) pelas suas traições.

A Malhação do Judas - tradição muito popularizada no interior do Nordeste - é antecedida por um cortejo de anunciação com cerca de 100 brincantes, ao qual se juntam figuras populares dos reizados, como mateus, catirina, o boi, grupo de caretas, dentre outros.

O cortejo atravessa a cidade e para no sítio do Judas, um espaço montado na cidade onde a população brinca de “roubar” as frutas, cigarros, dinheiro e bebidas do personagem. “A façanha é sair do sítio e de preferência com o roubo”, explica Cacá Araújo, também diretor da Cia. Cearense de Teatro Brincante / Sociedade Cariri das Artes.

Não é fácil "roubar" o s�tio de Judas

Não é fácil "roubar" o sítio de Judas

A tarefa de roubar o Judas não é tão fácil assim, logo que o local é guardado por “caretas”, que chicoteiam (!) todos os possíveis assaltantes.

Quando aproximadamente sete mil pessoas estão reunidas em torno do sítio, tem início a leitura do Testamento do Judas, um cordel que faz provoca a população com brincadeiras e denúncias.

Lido o testamento, é chegado o momento do estouro do Judas.

Um bispo é eleito Judas

A tradição de eleger um Judas alcança em 2009 o seu nono aniversário. A festa nasceu em uma escola pública onde Cacá Araújo era diretor.

O resultado do primeiro pleito - que elegeu o mosquito da dengue - prova que a eleição é também educativa e política. Além do mosquito, venceram a eleição George W. Bush (2003), o Juiz Percy Barbosa, que assassinou friamente um vigia de supermercado em Sobral-CE (2005) e “Demutrônio - o monstro das multas”, numa alusão ao Departamento Municipal de Trânsito (2006).

A leieção de Dom Luiz Cápio para Judas gerou problemas com a igreja

A leieção de Dom Luiz Cappio para Judas gerou problemas com a igreja

Em 2008, a cidade elegeu como “Judas” o frei Dom Luiz Cappio, por causa de sua luta contra a transposição do Rio São Francisco.

- Isso deu o maior problema com a igreja daqui, que cismou com a gente dizendo que o ataque seria contra a instituição. Mas, não. O que queríamos era abrir uma discussão sobre a transposição do Rio - lembra o professor Araújo.

Para realizar a eleição, todo ano é reunido um colégio eleitoral de 60 a 100 pessoas. Cada membro do grupo recebe um formulário para indicar dois nomes de personalidades ou problemas sociais.

Os mais votados passam a integrar a cédula de votação, com cinco nomes, que é então submetida à população da cidade.

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