
Prisão, indícios de abuso de autoridade e agressões verbais. O que seria uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, no último domingo, terminou numa delegacia na zona sul do Rio de Janeiro.
Realizada desde 2002 pelo grupo RioMaracatu, a homenagem é conhecida como Bloco das Mulé, um cortejo com cerca de 40 percussionistas (na grande maioria mulheres) e alguns dançarinos que, no dia oito de março, sai do Arpoador até o Posto 9.
Domingo, 17h. As alfayas começam a ressoar, mas o batuque é interrompido pela chegada de membros da polícia militar e da guarda civil do Rio de Janeiro, pedindo que as pessoas parem de tocar e avisando que o bloco não pode sair porque não tem autorização.
- Paramos de tocar imediatamente. A polícia do Rio de Janeiro é muito violenta e não tínhamos a menor intenção de bater de frente com eles - comenta Lina Miguel, 19, uma das batuqueiras do grupo.
- Mobilizaram um contingente de cerca de 20 policiais, entre PMs e guarda civil. Era quase metade da nossa bateria só para nos dar atenção - lembra a jornalista Aline Ribeiro, 31.
Autorização para manifestação em espaço público
O documento que autoriza a saída de blocos nas ruas do Rio - curiosamente chamado de “Nada Opor” - havia sido solicitado pelo grupo apenas na tarde da quinta-feira.
- Se tivessem entrado com o pedido no tempo necessário, o bloco iria sair sem problema algum - assegura Bernardo Carvalho, administrador da 6ª Região Administrativa da capital carioca.
Segundo Carvalho, esse prazo seria de “pelo menos uma semana”. O comandante do batalhão daquela região, tenente-coronel Lima Castro, complementa:
- Eu não vou te dar a minha opinião. Eu vou falar o que é certo. Existe uma determinação do governo do Estado para qualquer evento a ser realizado que requer um prazo mínimo de 20 dias. Conhecendo a realidade do Rio, eu ainda dou tolerância de uma semana - afirma.
Segundo ambos, a realização de qualquer evento em espaço público requer a mobilização de efetivo policial, organização de trânsito, instalação de banheiros químicos etc.
- Qualquer 100 pessoas que façam batucada na praia de Ipanema, num dia de sol, juntam pelo menos 5 mil pessoas. Desculpa, amigo, mas isso é o Rio de Janeiro - diz administrador da 6ª. Região.

"Isso não é uma democracia", teria dito o oficial que impediu a manifestação
Os membros do RioMaracatu rebatem esses argumentos.
- Não tem escrito em lugar nenhum qual é o prazo correto. Você liga para a subprefeitura e o cara não sabe nem te explicar. O Wagner Ferreira (funcionário da subprefeitura) ligou para a gente na sexta e falou que o subprefeito não queria que tivesse mais evento na praia porque o pessoal “já estava cansado” - afirma Antonino Barreto, engenheiro de 44 anos que faz parte do grupo.
O engenheiro cita, ainda, o artigo quinto da Constituição Federal, que garante liberdade de reunião, sem a necessidade de uma autorização, e, sim, de comunicação prévia - “como nós fizemos”, diz.
“Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente.”
(Constituição Federal, Art. 5º, inciso XVI)
Já a batuqueira Lina argumenta que a manifestação não pode ser comparada a outros eventos que levam multidões às ruas. “Não admitimos que sejamos igualados aos shows que a Skol faz. Não somos um evento, não temos dinheiro. Quem paga o arrastão são os próprios participantes. Nunca levamos nem cem pessoas às ruas”, afirma.
A argumentação permite uma tréplica do administrador regional: “Tanto sabiam que era evento que vieram pedir a autorização. Não fui eu quem pediu, foram eles”, diz Bernardo Carvalho.
Vaias num cortejo sem tambores
Sem o “Nada Opor” em mãos, o diálogo para a liberação da saída do bloco é em vão. David Miguel, um dos membros do grupo RioMaracatu, reproduz a reação do oficial responsável, Tenente Portella, à tentativa de negociação do grupo:
- “Isso aqui não é uma democracia onde o senhor argumentará e me convencerá da liberação da manifestação, a ordem é que não aconteça e não acontecerá” - Ten. Portella, segundo relato de David Miguel.
Para o membro do RioMaracatu, com a decisão, “conseguiram coibir uma das manifestações populares mais estáveis e organizadas da cidade do Rio de Janeiro”.
O Bloco das Mulé resolve, então, deixar os instrumentos numa kombi e fazer o trajeto cantando.
- Fui até o oficial e perguntei se poderíamos ir apenas cantando. “Assim pode?”. “Pode”, ele respondeu. Então deixamos de lado os instrumentos e seguimos cantando - relata o engenheiro Antonino Barreto.

O cortejo saiu sem o som dos tambores
A movimentação do grupo e da polícia desperta a curiosidade dos transeuntes e muitos deles se unem ao cortejo, que alterna as canções com vaias para os agentes da lei. “O camburão da polícia foi escoltando a gente, como se fôssemos bandidos”, lembra Lina Miguel.
Uma nova confusão começou já no fim do cortejo, quando, para abafar as músicas e as vaias, os carros da polícia presentes ligaram as sirenes.
- Ligaram a sirene como que para confrontar. A impressão que dava é que queriam tirar a gente do sério para perdermos a razão - pondera a jornalista Aline Ribeiro.
O engenheiro Barreto recorda que “um dos policiais foi para o meio da gente dizer que tínhamos que parar, que já tínhamos chegado e não poderíamos ficar ali cantando”.

A manifestação virou um protesto contra a atitude da polícia
- Lembro da gente ter feito até um comentário: “se a gente tivesse conseguido sair, não havia tido tanta confusão”. Infelizmente, chamamos pela primeira vez uma atenção negativa, por conta do envolvimento da polícia - comenta a jornalista.
Apaguem as fotografias!
A coisa degringolou quando o simpatizante do grupo, que havia aderido ao cortejo, foi preso.
- A polícia já havia abordado várias pessoas, pedindo que apagassem fotos que haviam tirado. Esse rapaz - não lembro se estava com uma câmera ou celular - disse que o
equipamento era dele e que não iria entregar para ninguém. Daí a polícia confiscou o equipamento. Ele reagiu e foi preso por desacato - lembra Antonino Barreto.
A batuqueira Lina Miguel também recorda do episódio:
- O Fred (Alfredo Alves, autor das fotos deste post) tinha uma máquina maior, que chamava mais atenção, foi obrigado pelos guardas a apagar algumas fotos.
O Blog das Ruas questionou o comandante do batalhão sobre o episódio.
- Estou sabendo desse fato agora. Muito me estranha o fato ter ocorrido há quase uma semana e ninguém ter registrado queixa. Se aconteceu, é um procedimento errado. Caso façam uma reclamação, vamos abrir um procedimento apuratório e, se comprovado, vamos repreender os envolvidos - assegura o comandante Lima Castro.
Entretanto, Antonino Barreto relata que, em determinado momento, o oficial do dia, Tenente Portella, usa de ironia sobre a possibilidade de uma repreensão: “Vai lá na corregedoria e reclama de mim”, teria dito o oficial.

Segundo os manifestantes, a polícia obrigou que apagassem parte das fotos
Com a prisão do rapaz, várias pessoas se aproximam dos policiais. O suficiente para que um deles se arme com o gás de pimenta. As pessoas respondem, então, em coro:
- Gás de Pimenta para Temperar a Ordem! Gás de Pimenta para Temperar a Ordem! (trecho da música “Propaganda” da Nação Zumbi)
Insultos, intimidação e agressões na delegacia
Cerca de 15 pessoas, dentre elas Antonino Barreto, acompanham o rapaz preso à delegacia. No grupo, dois advogados. Um deles começa a tentar conversar com o tenente Portella, que, segundo Barreto, responde: “Não tenho nada para conversar com você”.
- Em seguida, ele começou a xingar o advogado. “Você é um bobo, um bobão, um bobo alegre”, dizia. Depois passou a falar palavrões, como Puta que Pariu - relata Antonino Barreto.
O engenheiro conta ainda que, enquanto tentava acalmar o tenente, um sargento teria cochichado em seu ouvido: “rapá, você acha que a gente tem medo de você?”. Conta ainda que, durante os depoimentos, policiais ficando próximos às testemunhas, numa clara tentativa de intimidação.
Para Barreto, só não houve mais problemas porque o grupo não se alterou. “A gente só foi lá dar uma força ao rapaz que foi preso por se envolver com o nosso grupo. Não queríamos confusão”, diz.
Entretanto, faz questão de se revelar sua verdadeira preocupação:
- O prefeito está querendo acabar com a cultura popular do Rio. A característica do Rio sempre foi juntar uma mesinha, fazer ali uma rodinha de samba, fazer um bloquinho e dar uma volta na praça. Tudo muito espontâneo. O que vai ser dessas iniciativas agora?