Terra Magazine

5 de fevereiro de 2009

Vaqueira conta como desafiou Luiz Gonzaga na rima

Luiz Gonzaga, o mais nordestino de todos os cantores brasileiros, foi um dia desafiado nas rimas, em público, por uma vaqueira. Mais de trinta anos depois, Dina Maria Martins Lima, a Dina Vaqueira, conta ao Blog das Ruas como isso aconteceu.Para entender direito a história, temos que voltar ao ano de 1970 quando Dina - hoje diplomada Tesouro Vivo do Estado do Ceará - foi chamada pelo Frei Lucas Dolle para ajudar a organizar a Missa do Vaqueiro, em Canindé.

A Missa do Vaqueiro é o ápice de uma romaria a cavalo em agradecimento a São Francisco das Chagas. Atualmente, é a maior romaria a cavalo do Nordeste, contando com cerca de 1500 cavaleiros na sua 38ª edição, em 2008.

Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas
Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas

Na romaria de 1976, quando Dina Vaqueira chegou ao local da Missa, se deparou com Luiz Gonzaga cantando “Boiadeiro”. Deixo para a própria vaqueira contar o que aconteceu em seguida:

- Ele olhou pra mim e cantou assim: “Morena tão bonita, me diga onde você mora”.

Respondi, com todas as letras. “Eu moro bem distante, meu marido está ali fora”.

“Pois dê lembrança a ele, se arretire e vá embora”, ele emendou.

“Eu vou me arrentirando, mas não é com medo, não. É mostrando para o povo a minha boa intenção” - respondi novamente.

Foi então que Luiz Gonzaga me abraçou e disse: “Essa nega é das nossas!”.

Uma mulher entre peões, bois e cavalos

Dina Vaqueira cresceu na fazenda do pai, chamada Barra Canção, em Canindé. Dos 12 filhos, apenas ela gostava de lidar com a natureza. “fui crescendo, vendo pai na lida de gado, gostava era daquilo lá”, diz.

Aos 14 anos, dividia então o tempo entre a escola do município e as vaquejadas, para onde ia com José Augusto Queiroz, um amigo de seu pai.

- Nas vaquejadas, eu saía sempre como batedora. Sabe como é? Segurava no rabo do boi para os colegas pegarem o bicho - lembra.

A visita de um fazendeiro mudaria para sempre sua vida.

- Sei que graças a Deus chegou um dia um fazendeiro em fazenda de meu pai, procurando uma novilha dele. Meu pai me chamou e disse para ele: “só quem pode saber de aí é a Dina” - conta a vaqueira.

E lá foi Dina, acompanhada de seus cachorros, Perigo e Perigoso [ela sempre está com uma dupla de cachorros com esse nome; se um morre, arranja outro e põe o mesmo nome. Já teve três pares diferentes].

Ela não apenas encontrou, como derrubou a novilha e a entregou para o fazendeiro, que ficou admiradíssimo com toda aquela habilidade numa mulher. “Aí pronto: espalhou a fama da Dina Vaqueira”, conta a nossa personagem.

Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense
Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense

Por conta do trabalho, já caiu do cavalo duas vezes. Quebrou perna e clavícula. E também já sofreu preconceito.

- Ah, os homens falavam. Quando eu chegava numa vaquejada, só eu de mulher, aqueles recalcados diziam: “Já chegou a terror da vaquejada”. Ou então diziam que lá não era lugar de mulher. Mas eu sempre respondia: “lugar de mulher é onde ela se sente bem”. Comecei a conquistar o meu espaço. E com isso vieram as mulheres com ciúme dos namorados… (risos) - conta.

Dina se casou com o primeiro namorado, em 1972. “Era um homem muito bom e não me empatava de praticar esporte. Tive a vida que pedi a Deus”, suspira.

Mais tarde, o marido Fernando veio a falecer. “Ele teve uma dor de cabeça forte e morreu. Fiquei muito desestruturada”, conta Dina. Tocou a vida concentrando-se na associação de vaqueiros, boiadeiros e pequenos criadores, da qual fazia parte.

Matou a onça a pauladas

Um dos episódios mais marcantes de sua vida da vaqueira foi quando matou - junto com outros colegas - uma onça a pauladas.

- A gente matou uma onça. Foi eu sair com os colegas para campear e encontramos com a danada. Já tinha comido dois bezerros, matava muita criação. Os cachorros (Perigo e Perigoso) acuaram a onça numa caatinga. Matamos onça de pau - lembra.

Tesouro Vivo da Cultura, hoje Dina Vaqueira é presidente da associação dos vaqueiros, coordena o Grupo Som do Sertão. Participa do conselho da comunidade e é Conselheira da Lei Maria da Penha.

- Só não pego mais boi… com 56 anos não dá mais - confessa.

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