Terra Magazine

11 de agosto de 2009

Cordelista: “Se SP disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia”

São Paulo está um pouco mais nordestina.

Desde maio deste ano, um grupo de sete poetas populares - todos nordestinos radicados em São Paulo - resolveu começar um movimento de valorização da literatura de cordel e artes afins na capital paulista. Juntos, integram a Caravana do Cordel.

- O nome já diz: a Caravana é móvel. Temos um imóvel (Espaço Cineclubista - Rua Augusta, 1239) onde acontece o nosso encontro mensal, mas queremos percorrer a cidade, ocupar os espaços - explica o cearense Costa Senna, um dos idealizadores do movimento.

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Para Costa Senna (E), SP é a maior cidade nordestina do Brasil

Segundo Costa Senna, o cordel é base do trabalho de muitos artistas famosos - cita Zé Ramalho, Raul Seixas, Alceu Valença - mas ainda não recebe a devida importância no país.

Sediada “de favor” no Espaço Cineclubista, a Caravana já realizou dois encontros (o último no dia 1/8) gratuitos, nos quais todo o universo do cordel esteve em destaque: música, literatura, poesia, “causos”, trocadilhos e até trava-línguas.

Enquanto os poetas populares se revezam no microfone, são lançados e vendidos folhetos de cordel. O espetáculo da Caravana vai acontecer todo primeiro sábado do mês. “A nossa intenção é que os artistas de fora de São Paulo, especialmente os nordestinos, projetem a viagem para casar com uma apresentação aqui”, explica Costa Senna.

Repentista Sebastião participou da Caravana

Repentista Sebastião Marinho, considerado um ods maiores do país, participou da Caravana

A intenção do grupo, entretanto, não é criar um gueto do nordeste em São Paulo, mas dar mais visibilidade ao cordel e à cultura nordestina na cidade.

- São Paulo é a maior cidade nordestina do mundo! Se São Paulo disser ‘Xô’ para os nordestinos, ela fica vazia. Queremos é evidenciar isso, mostrar que o nordeste é pulsante também aqui em São Paulo. Que o forró, o cordel e o repente passem a circular melhor na cidade - argumenta Costa Senna.

O sucesso da iniciativa, que abarrotou o espaço cedido nas duas ocasiões, já começou até a virar problema.

- Na segunda edição o sucesso foi tão grande que já estou até temendo se vamos conseguir fazer uma melhor do que a outra. Já estamos pensando em buscar um espaço maior - conta João Gomes de Sá, outro integrante do movimento e um dos autores do cordel “A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial”.

Capa de um do folhetos de cordel lançados na Caravana

Capa de um dos folhetos de cordel lançados na Caravana

“Sabe aquela coisa que já nasce grande? É como o São Caetano, já nasceu vice-campeão”, diz Costa Senna [na verdade, o time do ABC Paulista foi fundado no final de 1989 e foi campeão pela primeira vez em 1991, da Série A-3 do Paulista].

O convite está feito. Os artistas que quiserem participar tem que entrar em contato com a turma (11.3214-3906) porque a programação passou a ser fechada com uma semana de antecedência.

- Nós vamos presentear a sociedade paulistana com pelo menos 11 shows gratuitos por ano com o melhor da cultura do cordel - vende seu peixe Costa Senna.

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16 de junho de 2009

RJ: Feira de São Cristóvão abre temporada de festas juninas

Bastou começar o mês de junho para a Feira de São Cristóvão - “um pedaço do Nordeste no Rio de Janeiro”, como é carinhosamente chamada por alguns - antecipar os festejos de São João.

Desde o dia cinco de junho, a Feira de São Cristóvão respira as tradições da mais nordestina das festas. Durante as quatro sextas-feiras, quatro sábados e quatro domingos deste mês, a Feira faz a maior reunião de bandas, trios e grupos de forró do Rio de Janeiro.

Segundo a organização das festas, o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas (onde funciona a Feira) será, em junho, o espaço fechado que mais toca forró no Brasil.

Além das atrações musicais, a Feira de São Cristóvão também acolhe as brincadeiras juninas do pau-de-sebo, bumba-meu-boi, e quebra pote e as tradicionais disputas de repentistas, que improvisam versos em meio ao público.

Para o São João ficar completo, sessenta quadrilhas se apresentam no espaço, com destaque para a Quadrilha Gonzagão - grupo oficial do espaço - e outras que se sobressaíram em 2008: a Quadrilha Show Buraca Quente, de São João de Meriti e a Quadrilha Cazumbá, do Bairro de Paciência. Do mesmo bairro e com integrantes na 3ª idade, a Quadrilha Calor da Bacurinha também merece atenção especial.

A Feira de São Cristóvão atrai mensalmente 250 mil visitantes e funciona no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, um espaço de 34 mil metros quadrados, com 700 barracas padronizadas, dois palcos para shows e praça de repentistas.

Além da culinária típica e do artesanato das barracas, durante o ano inteiro os visitantes arrastam o pé com trios e bandas de forró, apreciam poetas populares, repentistas e a literatura de cordel.

Desde 1945, a Feira ocupa o Campo de São Cristóvão. Era lá que chegavam os caminhões pau-de-arara, trazendo retirantes de vários estados do Nordeste para trabalhar na construção civil.

Música e comidas típicas animavam o encontro dos recém-chegados com parentes e outros conterrâneos, dando origem à Feira de São Cristóvão. Durante 58 anos, a tradicional Feira permaneceu no Campo de São Cristóvão, debaixo das árvores.

Em 2003, as barracas foram transferidas para dentro do antigo Pavilhão, reformado pela Prefeitura do Rio e transformado no Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas.

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24 de maio de 2009

PE: Mestre João do Pife celebra com shows 50 anos de carreira

Ele fabrica seus próprios instrumentos e os vende na feira. Como músico, dissemina a arte de pifar pelo país. O mestre popular João do Pife, uma das maiores referências em pífanos no Brasil, completa 50 anos de carreira.

As bodas do artista popular serão comemoradas - claro - com muita música, em frente à oficina onde fabrica seus pífanos e instrumentos de percussão, no bairro do Salgado, em Caruaru (PE).

Palco armado, mestre João do Pife recebe vários amigos músicos em quatro sessões diferentes, todas com entrada franca. Ontem foi a primeira, seguida por hoje à noite (18h) e os dias 6 e 7 de junho, às 22h e 18h, respectivamente.

- Pra mim é uma felicidade muito grande receber outros artistas na minha casa para tocarmos juntos - diz o mestre João do Pife.

Em show, com a Banda Dois Irmãos

Em show, com a Banda Dois Irmãos

Entre os convidados estão Cláudio Rabeca; Banda de Pífano Zé do Estado; Valdir Santos; João Limoeiro e a Ciranda Brasileira; Azulão; e Luiz Paixão da Rabeca.

O projeto Música no Salgado é um sonho antigo do mestre, que no ano passado, após turnê nacional, encerrou o circuito no bairro do Salgado, onde reside.

50 anos pifando

Não é comum ver um artista popular, virtuoso e de grande poder de improvisação, fazer 50 anos tocando seu pífano e vivendo da música.

No começo foi tudo muito difícil para aquele menino que acompanhava seu pai tocando nas novenas em Riacho das Almas, onde nasceu.

Com a morte de seu pai, João Alfredo Marques dos Santos, conhecido como João do Pife, tomou conta da Banda Dois Irmãos de Caruaru. Veja post no Blog das Ruas sobre a história de João do Pife.

Do interior de Pernambuco, levou a arte do pífano para o mundo. Apresentou-se nas principais cidades brasileiras, na Europa e nos Estados Unidos. Agora traz o mundo de volta para a oficina onde fabrica suas maravilhas.

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7 de maio de 2009

Festival transforma Brasília na “capital” do Nordeste

Dentro de sete dias, a capital federal assume também o status de “capital do nordeste”. Com atrações de cada um dos estados nordestinos e um variado leque de atividades girando em torno da cultura daquela região, o Encontro do Nordeste acontece de 14 a 17 de maio, em Brasília.

“O encontro tem um apelo muito grande aqui em Brasília, pois mais de 40% da população é de nordestinos”, afirma Luiz Paulo, coordenador de Culturas Populares do evento. Segundo ele, o festival espera colocar cerca de 150 mil pessoas para “respirar nordeste” durante quatro dias.

A proximidade das festas de São João - melhor época do ano para qualquer nordestino - também ajuda a criar um “clima” de prévias para o evento, intensificando a sua atratividade. Quem for solidário com as vítimas das enchentes que assolam a região ganha desconto na entrada do festival: enquanto o ingresso normal é 20 reais, quem doar agasalhos paga R$ 12,00.

O Encontro do Nordeste faz parte de um projeto mais amplo, batizado de Brasília Capital Cultural, que visa, ao trazer outras atrações para a cidade, caracterizá-la como um local culturalmente ativo.

- As pessoas precisam conhecer Brasília pelo povo da cidade. Temos que acabar essa mística de que o Brasil só conhece Brasília pela Esplanada dos Ministérios. Queremos mostrar que a cidade tem muitos atrativos e fervilha de cultura - enfatiza o coordenador de culturas populares.

O festival chama atenção pela abrangência com que propõe representar os nove estados nordestinos. Trazer grupos e artistas das localidades mais variadas e não deixar nenhum estado “de fora” foi um dos critérios adotados para preparar a programação, de acordo com o coordenador de culturas populares.

Além de conhecidas atrações musicais, como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e a banda de forró Calcinha Preta, o Encontro do Nordeste reservou um palco apenas para manifestações de cultura popular, no qual se apresentam quadrilhas, trios nordestinos, teatro de mamulengos e um conjunto de outras expressões folclóricas que compõem a miríade cultural da região.

Um dos pontos altos da cultura popular no festival é o Desafio de Repentistas. Todas as noites do evento terão disputas entre esses mestres do improviso cantado, vindos das mais variadas cidades do nordeste brasileiro. É um campeonato mesmo, com direito inclusive a troféu para os vencedores.

Também merece destaque a homenagem a Luiz Gonzaga, rei do baião e o brasileiro que melhor “encarnou” a cultura nordestina. A coreografia de 11 bailarinos de Teresina tem presença garantida nos dois palcos do evento: abre um dos shows das atrações musicais no palco principal e depois é apresentada, completa, no espaço das culturas populares.

O público do festival também pode participar gratuitamente das oficinas de cerâmica, pintura de cerâmica, renda de bilro, xilografia, cordel e aprender até mesmo a fazer aquelas garrafas de areia colorida do Ceará. Para ministrar as oficinas, especialistas escolhidos a dedo, como o Mestre Vitalino Neto.

- A gente queria fazer um negócio como uma estação. Fazer parte do público participar de todas oficinas e ter contato com as várias expressões de cultura do nordeste. Mas o tempo é muito curto, daí tivemos que pensar em turmas separadas mesmo. As oficinas são gratuitas, mas as inscrições têm que ser feitas com antecedência - alerta Luiz Paulo.

Essas expressões da diversidade da cultura popular nordestina podem ser vistas na ExpoNordeste, uma grande feira de artesanato destinada à exposição e demonstração de produtos culturais da região, inclusive de comidas típicas, com aquisição de produtos diretamente do artesão.

A feira funciona ainda como um espaço de atração de investimentos e turismo para os estados nordestinos, que possuem tendas decoradas com suas principais cores e atrativos. Alguns oferecem promoções em conjunto com agências de viagens.

Curiosamente, a participação dos estados na feira não é tão simples quanto parece. “Tem prefeitura me pedindo passagem aérea para mandar secretário de turismo”, conta o coordenador de culturas populares. Será a crise econômica?

Certeza mesmo é que a crise já afetou o projeto Brasília Capital Cultural. Originalmente, o plano era fazer na capital federal encontros temáticos de todas as regiões brasileiras. O recuo nos patrocínios culturais gerou incerteza sobre a realização desses encontros, que dependerão do êxito do Encontro do Nordeste.

- Vamos fazer esse bem-feito e depois ver quais são as condições para fazer os outros. Não adianta projetar para a frente e perder o foco do trabalho agora - afirma Luiz Paulo.

Em caso bons ventos, o próximo encontro a ser realizado será o da região Sudeste.

(Foto: Arquivo/ Grupo de Xaxado Cabras de Lampião)

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25 de março de 2009

CE: cidade faz eleição para escolher “Judas”

O município do Crato (CE), na região do Cariri, divulgou neste domingo o resultado de uma eleição diferente: a cidade votou para escolher quem seria eleito o próximo Judas a ser malhado no Sábado de Aleluia - neste ano, dia 11 de abril.

A votação ocorreu entre os dias 14 e 21 de março, em 20 “seções eleitorais”, com urnas espelhadas por escolas, mercearias, bares, restaurantes, bancas de artesanato - houve até mesmo uma urna itinerante.

Compareceram ao pleito 9860 eleitores, quase 9% da população total do município.

- É uma brincadeira cheia de irreverência, mas tem um quê de seriedade, serve como veículo para provocar discussões na sociedade. A eleição é um gancho muito importante para discutir tradição, mas também os problemas em evidência - argumenta o professor Cacá Araújo, idealizador e coordenador geral da eleição.

O boneco de Judas é estourado com bomba

O boneco de Judas é estourado com bomba

Apuradas as urnas, o vencedor, divulgado no último domingo, foi “Pedofilino Safadus”, um símbolo do crime que vem assustando muitos lares do país.

Essa eleição, o “Político Corrupto” não ganhou, mas ficou em segundo lugar e garantiu a suplência por uma margem muito apertada de votos (2764 a 2701).

O vencedor da eleição ganha um boneco, que será explodido com bomba (isso mesmo, explodido) pelas suas traições.

A Malhação do Judas - tradição muito popularizada no interior do Nordeste - é antecedida por um cortejo de anunciação com cerca de 100 brincantes, ao qual se juntam figuras populares dos reizados, como mateus, catirina, o boi, grupo de caretas, dentre outros.

O cortejo atravessa a cidade e para no sítio do Judas, um espaço montado na cidade onde a população brinca de “roubar” as frutas, cigarros, dinheiro e bebidas do personagem. “A façanha é sair do sítio e de preferência com o roubo”, explica Cacá Araújo, também diretor da Cia. Cearense de Teatro Brincante / Sociedade Cariri das Artes.

Não é fácil "roubar" o s�tio de Judas

Não é fácil "roubar" o sítio de Judas

A tarefa de roubar o Judas não é tão fácil assim, logo que o local é guardado por “caretas”, que chicoteiam (!) todos os possíveis assaltantes.

Quando aproximadamente sete mil pessoas estão reunidas em torno do sítio, tem início a leitura do Testamento do Judas, um cordel que faz provoca a população com brincadeiras e denúncias.

Lido o testamento, é chegado o momento do estouro do Judas.

Um bispo é eleito Judas

A tradição de eleger um Judas alcança em 2009 o seu nono aniversário. A festa nasceu em uma escola pública onde Cacá Araújo era diretor.

O resultado do primeiro pleito - que elegeu o mosquito da dengue - prova que a eleição é também educativa e política. Além do mosquito, venceram a eleição George W. Bush (2003), o Juiz Percy Barbosa, que assassinou friamente um vigia de supermercado em Sobral-CE (2005) e “Demutrônio - o monstro das multas”, numa alusão ao Departamento Municipal de Trânsito (2006).

A leieção de Dom Luiz Cápio para Judas gerou problemas com a igreja

A leieção de Dom Luiz Cappio para Judas gerou problemas com a igreja

Em 2008, a cidade elegeu como “Judas” o frei Dom Luiz Cappio, por causa de sua luta contra a transposição do Rio São Francisco.

- Isso deu o maior problema com a igreja daqui, que cismou com a gente dizendo que o ataque seria contra a instituição. Mas, não. O que queríamos era abrir uma discussão sobre a transposição do Rio - lembra o professor Araújo.

Para realizar a eleição, todo ano é reunido um colégio eleitoral de 60 a 100 pessoas. Cada membro do grupo recebe um formulário para indicar dois nomes de personalidades ou problemas sociais.

Os mais votados passam a integrar a cédula de votação, com cinco nomes, que é então submetida à população da cidade.

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9 de março de 2009

PB: Festival elege o melhor “canto para guiar boiada”

Tags:, , , , , - iurirubim às 17:30

A cidade de São José dos Ramos (PB), a 90 km da capital João Pessoa, realiza, pela quarta vez, o Festival de Aboio.

Durante os dias 13, 14 e 15 de março, o município na zona da mata paraibana é a capital nordestina da cultura relacionada aos cantos dos aboios e às tradicionais toadas usadas pelos vaqueiros no momento de conduzir o gado.

Já incorporada ao calendário de eventos da Paraíba, a festa reúne vaqueiros, aboiadores, cantadores populares, grupos folclóricos e homenageia o interior nordestino.

Como boa parte da cultura popular nordestina, o aboio é uma prática lapidada através de gerações cuja origem está na luta diária pela sobrevivência do homem no campo.

O aboio típico no nordeste do Brasil é um canto sem palavras, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado para os currais ou no trabalho de guiar a boiada para a pastagem.

É um canto ou toada de melodia lenta, adaptada ao andar vagaroso dos animais. As únicas palavras usadas são ditas ao final do canto: “ê, boi”; “ei lá, boizinho” são algumas delas.

Seja atrás (no coice) ou adiante da boiada (na guia), é o canto do vaqueiro que conduz e tranqüiliza o gado na jornada. Os que se destacam na sua execução são apontados como bons no aboio.

Há um outro tipo, o aboio cantado (aboio em versos), este de origem moura e possivelmente “importado” para o Brasil por escravos mouros da ilha da Madeira, em Portugal, onde existe esse tipo de aboio.

Além dos aboios - sem dúvida o maior destaque da festa, quando os vaqueiros disputam no gogó quem faz o mais belo -, estão previstas competições de montaria, corrida de jegue, desfile, cavalgada, missa do vaqueiro.

Fora das disputas, o Festival tem alvorada, apresentação de cavalo marinho, missa, cavalgada e desfile de jegue. Tem ainda o forró, elemento indispensável de qualquer celebração no nordeste brasileiro.

Fruto de uma pesquisa de mestrado de sua organizadora, Laura Maurício, o Festival de Aboio de São José dos Ramos acontece desde 2005. Conheça abaixo toda a programação:

13 de Março

21h Abertura do Festival
21h15 Tributo a Manoel Xudu (Poetas, Repentistas e Vaqueiros )
21h45 Homenagem ao Poeta Popular Zé de Brito
22h Apresentação do Cavalo Marinho (Mestre Zequinha)

14 de Março

4h Alvorada dos Chocalhos e Banda da Policia Militar
7h Café dos Vaqueiros
8h Desfile de Jegue (Escolas e Comunidade )
10h Corrida de Jegue
11h Argolinha
16h Festival dos Vaqueiros Mirins
18h Exibição de Vídeos da UNEB (Vaqueiros de Canudos e Lampião)
19h Festival de Aboio
21h Forró Pé-de-Serra

15 de Março

7h30 Cavalgada (Saída da casa de Zé Preto)
9h Missa do Vaqueiro com o Padre João Izidro
11h Encerramento do Festival

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5 de fevereiro de 2009

Vaqueira conta como desafiou Luiz Gonzaga na rima

Luiz Gonzaga, o mais nordestino de todos os cantores brasileiros, foi um dia desafiado nas rimas, em público, por uma vaqueira. Mais de trinta anos depois, Dina Maria Martins Lima, a Dina Vaqueira, conta ao Blog das Ruas como isso aconteceu.Para entender direito a história, temos que voltar ao ano de 1970 quando Dina - hoje diplomada Tesouro Vivo do Estado do Ceará - foi chamada pelo Frei Lucas Dolle para ajudar a organizar a Missa do Vaqueiro, em Canindé.

A Missa do Vaqueiro é o ápice de uma romaria a cavalo em agradecimento a São Francisco das Chagas. Atualmente, é a maior romaria a cavalo do Nordeste, contando com cerca de 1500 cavaleiros na sua 38ª edição, em 2008.

Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas
Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas

Na romaria de 1976, quando Dina Vaqueira chegou ao local da Missa, se deparou com Luiz Gonzaga cantando “Boiadeiro”. Deixo para a própria vaqueira contar o que aconteceu em seguida:

- Ele olhou pra mim e cantou assim: “Morena tão bonita, me diga onde você mora”.

Respondi, com todas as letras. “Eu moro bem distante, meu marido está ali fora”.

“Pois dê lembrança a ele, se arretire e vá embora”, ele emendou.

“Eu vou me arrentirando, mas não é com medo, não. É mostrando para o povo a minha boa intenção” - respondi novamente.

Foi então que Luiz Gonzaga me abraçou e disse: “Essa nega é das nossas!”.

Uma mulher entre peões, bois e cavalos

Dina Vaqueira cresceu na fazenda do pai, chamada Barra Canção, em Canindé. Dos 12 filhos, apenas ela gostava de lidar com a natureza. “fui crescendo, vendo pai na lida de gado, gostava era daquilo lá”, diz.

Aos 14 anos, dividia então o tempo entre a escola do município e as vaquejadas, para onde ia com José Augusto Queiroz, um amigo de seu pai.

- Nas vaquejadas, eu saía sempre como batedora. Sabe como é? Segurava no rabo do boi para os colegas pegarem o bicho - lembra.

A visita de um fazendeiro mudaria para sempre sua vida.

- Sei que graças a Deus chegou um dia um fazendeiro em fazenda de meu pai, procurando uma novilha dele. Meu pai me chamou e disse para ele: “só quem pode saber de aí é a Dina” - conta a vaqueira.

E lá foi Dina, acompanhada de seus cachorros, Perigo e Perigoso [ela sempre está com uma dupla de cachorros com esse nome; se um morre, arranja outro e põe o mesmo nome. Já teve três pares diferentes].

Ela não apenas encontrou, como derrubou a novilha e a entregou para o fazendeiro, que ficou admiradíssimo com toda aquela habilidade numa mulher. “Aí pronto: espalhou a fama da Dina Vaqueira”, conta a nossa personagem.

Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense
Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense

Por conta do trabalho, já caiu do cavalo duas vezes. Quebrou perna e clavícula. E também já sofreu preconceito.

- Ah, os homens falavam. Quando eu chegava numa vaquejada, só eu de mulher, aqueles recalcados diziam: “Já chegou a terror da vaquejada”. Ou então diziam que lá não era lugar de mulher. Mas eu sempre respondia: “lugar de mulher é onde ela se sente bem”. Comecei a conquistar o meu espaço. E com isso vieram as mulheres com ciúme dos namorados… (risos) - conta.

Dina se casou com o primeiro namorado, em 1972. “Era um homem muito bom e não me empatava de praticar esporte. Tive a vida que pedi a Deus”, suspira.

Mais tarde, o marido Fernando veio a falecer. “Ele teve uma dor de cabeça forte e morreu. Fiquei muito desestruturada”, conta Dina. Tocou a vida concentrando-se na associação de vaqueiros, boiadeiros e pequenos criadores, da qual fazia parte.

Matou a onça a pauladas

Um dos episódios mais marcantes de sua vida da vaqueira foi quando matou - junto com outros colegas - uma onça a pauladas.

- A gente matou uma onça. Foi eu sair com os colegas para campear e encontramos com a danada. Já tinha comido dois bezerros, matava muita criação. Os cachorros (Perigo e Perigoso) acuaram a onça numa caatinga. Matamos onça de pau - lembra.

Tesouro Vivo da Cultura, hoje Dina Vaqueira é presidente da associação dos vaqueiros, coordena o Grupo Som do Sertão. Participa do conselho da comunidade e é Conselheira da Lei Maria da Penha.

- Só não pego mais boi… com 56 anos não dá mais - confessa.

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