PE: Adoração à estátua dá origem a grande festa da cultura popular
O dia é do trabalhador, mas a festa é da lavadeira. Uma das maiores festas da cultura popular de Pernambuco, a Festa da Lavadeira acontece pelo 23º ano consecutivo no primeiro de maio, na Praia do Paiva, Cabo de Santo Agostinho, Litoral Sul de Pernambuco.
Quase deserta, repleta de coqueiros em toda sua extensão, a Praia do Paiva não dá pistas de estar tão próxima a um dos maiores centros urbanos do nordeste. Toda essa calmaria é interrompida apenas uma vez por ano, quando mais de trinta mil pessoas festejam, de graça, a diversidade da cultura popular brasileira.
São maracatus, cavalos-marinhos, cocos, afoxés, bois, pastoris, cirandas e muitas outras manifestações culturais que se apresentam na Festa, considerada a única de Pernambuco 100% voltada para a cultura popular.
Por esse motivo, o evento ganhou virou, em 2006, Patrimônio do Povo de Pernambuco e foi duas vezes premiado pelo IPHAN como melhor projeto de divulgação da cultura popular no Nordeste do Brasil, em 1998 e 2008.
Além das atrações, a Festa tem show pirotécnico e brincadeiras, como banho de lama e “arremesso de sogra”. Vendedores ambulantes faturam alto negociando os mais diferentes produtos com os visitantes.
Neste ano, o número de atrações da programação, que costumava chegar a 40, foi reduzido para 26. Dos quatro palcos, nomeados em homenagem à natureza (mata, vento, mar e terra), sobraram apenas dois: o Palco da Mata e o Palco do Mar. No meio do caminho entre os palcos, um terceiro pólo de atrações, a Rua da Lavadeira.
Idealizador e produtor da Festa, o artista plástico pernambucano Eduardo Melo lamenta a redução das atrações - algumas delas já haviam sido contratadas e tiveram que ser dispensadas por falta de recursos.
- Infelizmente, a nossa cultura ainda não está inserida no valor de mercado. As grandes empresas acreditam que a nossa cultura não agrega valor nenhum - diz Melo, em depoimento gravado pelo JC Online.
Ainda assim, há muito o que comemorar. Um dos principais momentos da 23ª edição da Festa da Lavadeira é a entrega da Taça da Rainha a Dona Selma do Coco, em homenagem a vigésima participação consecutiva na Lavadeira. É isso mesmo: 20 anos seguidos!
Além de D. Selma do Coco, destacam-se na programação a Família Salustiano e a Rabeca Encantada; a Escola de Samba Galeria do Ritmo e o Maracatu Nação Leão Coroado.
A estátua que virou Iemanjá
A Festa da Lavadeira tem suas raízes profundamente fincadas nas crenças afro-brasileiras.
Há mais de 20 anos, uma escultura feita pelo artista plástico Ronaldo Sá e colocada em frente à casa de Eduardo Melo atrai a atenção e o fascínio dos moradores da região. Segundo os moradores, a estátua exala perfume e acompanha com o olhar as pessoas que passam por ela em certas noites.
Composta majoritariamente por tiradores de côco, pescadores, jardineiros e donas de casa, a população local identificou a estátua com Iemanjá, a vaidosa orixá rainha das águas. Passaram, então, a fazer pedidos e oferecer-lhe oferendas, deixando aos seus pés frutas da época.
Percebendo o interesse da população nativa pela estátua, Eduardo Melo convidou a todos no dia 1º de maio de 1987 para o que viria a ser a primeira Festa da Lavadeira, comemorada anualmente desde então.
(fotos: Marcelo Lyra/ Site da Festa da Lavadeira [1;3]; Beto Figuerora/ Site da Festa da Lavadeira [3]; Blog da Festa da Lavadeira [4])







