BA: Artista transforma papelão em instrumentos percussivos
Já imaginou uma bateria de 80 músicos tocando instrumentos… de papelão? O artista plástico e inventor Ives Qualglia teve essa visão e, desde 2002, passou a fabricar marcações, timbaus, repiques, pandeiros, moringas, tamborins e muitos outros tendo como principal matéria-prima o papelão.
Além do papelão, são utilizados eventualmente madeira, tecido e papéis diversos. Para o lugar das peles (membranas tocadas com as mãos), o artista utiliza garrafas plásticas, radiografias e outros materiais similares.
- Cato, literalmente, o lixo da rua. Estamos mudando o conceito contemporâneo de lixo. Encontramos papelão, madeira, radiografias, garrafas pet… e conseguimos construir instrumentos, seja ele qual for - afirma Ives Quaglia.
Há muitos anos, Ives desenvolve uma pesquisa sobre as possibilidades do papelamento, a técnica de construir objetos a partir da sobreposição e modelagem de camadas de papel. As primeiras experiências de produção de instrumentos aconteceram em 2002, quando coordenou as Oficinas de Instrumentos Percussivos do bloco Malê Debalê.
- Eu transformo o papel em madeira. Faço o processo inverso. A madeira não é constituída de fibras sobrepostas? Claro que é uma reinterpretação, mas faço o mesmo com papel e construo objetos com a tão firmes quanto madeira. Com a vantagem que as possibilidades de modelagem são infinitas! - assegura o artista.
Segundo Quaglia, os instrumentos construídos de papelão têm a vantagem adicional de possuírem extrema leveza e durabilidade.
Para demonstrar o seu ponto de vista, ele simplesmente arremessa um timbau no chão - algo impensável de se fazer com um instrumento tradicional. Logo depois, recolhe o instrumento, sem nenhum dano aparente.
- Os objetos têm leveza e durabilidade. Resistem inclusive à água. E, caso ocorra de terem algum dano, basta “papelar” novamente - argumenta com tranqüilidade o artista.
O uso do papel vai além da estrutura dos instrumentos. Durante a entrevista, o artista plástico me mostra um outro instrumento - Xequerê -, cujas contas responsáveis por sua sonoridade são feitas de papel.
Na “fábrica” de Ives Quaglia ainda há espaço para mais inovação. Ele não apenas copia objetos existentes, como cria novos instrumentos percussivos.
Filho de pescador, nomeia todas suas criações fazendo analogias com o universo marinho. Aponta para dois instrumentos e diz: “aqueles ali são baiacu e cachimbau”.
O artista também criou um sistema próprio de afinação dos instrumentos, para garantir a qualidade do som produzido por eles.
- Tudo o que produzo aqui testo com amigos músicos, que vão me dando retorno e sugerindo melhorias. Não sou músico, mas sei que este trabalho tem dado uma grande repercussão na área musical. É um novo paradigma, né? - explica.
Desde novembro de 2005, o artista trabalha com um grupo percussivo de instrumentos confeccionados com materiais reutilizáveis, o Bandodipapel, formado com 30 componentes percussionistas e 10 dançarinas.
Com adereços criados e confeccionados também na técnica do papelamento, o grupo acompanha várias festas populares, especialmente as que acontecem em Itapuã.
Criar e educar
Aos 49 anos, Ives Quaglia é também professor concursado do Estado da Bahia, atualmente cedido à Escola Percussiva Pracatum, fundada por Carlinhos Brown.
A Pracatum é um dos locais em que o artista une as suas duas paixões: criar e ensinar. Definindo-se como arte-educador, Ives explica que a própria confecção das obras é uma ação educativa.
“O processo de confecção das obras é produto de um contexto, uma ação coletiva. Não dá para eu ficar isolado com esse conhecimento”, revela o artista, que afirma sempre construir os objetos compartilhando a sua.
Faz questão de que parte significativa dos materiais utilizados seja coletada e/ou aproveitada do universo da Instituição ou da localidade próxima (rua, bairro, região), dando um caráter de identidade e pertencimento desde o início da concepção da proposta.
Acusação de plágio no carnaval 2009
O clima da entrevista fica automaticamente tenso quando Ives Quaglia me fala sobre o carnaval de 2009. Assegura que a baleia de garrafas pet de 10 metros assinada pelo artista plástico Ray Vianna e exibida por Carlinhos Brown em seu Camarote Andante seria uma cópia de um projeto seu.
- Fui convidado para fazer esse trabalho com ele (Vianna) por uma ONG inglesa chamada Global Ocean. Era fazer uma interferência dentro do carnaval, uma baleia de garrafas pet. Então eu socializei com ele todo o trabalho que venho fazendo há anos em Itapuã, tanto que a baleia dele é igual à minha, uma jubarte, as mesmas características - afirma.
O projeto, entretanto, não foi adiante por desistência da ONG, que alegou falta de recursos.
Ives conta se sentiu traído por Ray Vianna, amigo de infância dele, quando soube que o bloco de Brown teria como tema o aquecimento global e exibiria a baleia que ele havia projetado.
- É muita coincidência uma baleia nas mesmas proporções, nas mesmas dimensões do meu projeto, aparecer de repente no carnaval. Então a força divina que deve ter colocado essas informações todas na mão lá dele - afirma.
Confrontado com a resposta do “ex-amigo”, que nega ter usado o projeto de Ives, o artista plástico de Itapuã reage com mais ironia:
- Não é o carnaval de “vamos beijar na boca”? Ele deu uma chupada na gente daquele jeito bastante peculiar do carnaval, na tora. E sem creditar. Tanto que os efeitos especiais da baleia que são borrifar confete, borrifar água e balançar a calda são do meu projeto - enfatiza.
Para Ives Quaglia, a revolta não vem da ausência de remuneração, mas pela falta de reconhecimento de seu trabalho.
- Não estou querendo cobrar nada dele, acho até constrangedor estar me posicionando. Quero apenas o reconhecimento de um trabalho que já vem sendo feito há anos dentro da comunidade de Itapuã. Não sou só eu não. Isso tem a ver com todo o sentimento de pertencimento de uma comunidade do trabalho que vem sendo feito há anos durante o carnaval. Ele se nega a se manifestar - conclui.











