Terra Magazine

16 de agosto de 2009

BA: Caminhada para orixá das doenças reforça sincretismo em Salvador

Há 11 anos, a Caminhada Azoany reúne o povo de santo no dia da festa católica de São Roque. Todo ano, os adeptos da religião africana percorrem os seis quilômetros que separam o Pelourinho, no centro de Salvador, e a Igreja de São Lázaro, no bairro da Federação.Além do sincretismo com São Roque, Azoany é uma das denominações jeje para o Orixá Obaluaê, divindade do candomblé ligada às doenças e à cura.

- Vestidos de Branco, sejam elas de roupas de baianas, camisas confeccionadas para a Caminhada ou roupas escolhidas a dedo para o evento, com balaios de pipocas na cabeça, ramos e buquês de flores (para colocarem na Igreja), embalados ao som dos atabaques e agogôs (afoxé), percorrem o Pelourinho em direção ao Campo Grande adentrando as ruas que levam ao Bairro da Federação até a Igreja de São Lázaro, onde todos os participantes entendem como comprida naquele ano a sua reverencia as entidades religiosas - conta Albino Apolinário, 45, organizador da caminhada e Ogã de Nanã.

Embora a Caminhada Azoany seja uma atividade específica do povo de santo, todos reconhecem a importância do sincretismo para a atividade. “É um Encontro muito bonito, quando a procissão católica está saindo e o candomblé está chegando. Tudo na mesma igreja (São Lázaro)”, diz Apolinário.

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

- O sincretismo nasce quando os escravos eram obrigados a cultuar os santos Igreja Católica. Eles cuidavam do altar do santo e, embaixo, faziam assentamento para Ogum e outros orixás. A Lavagem do Bomfim nasce do pessoal do candomblé que ia para a Igreja fazer oferendas a Oxalá. O sincretismo teve como resultado a tolerância entre as duas religiões - acrescenta o organizador da caminhada.

Este ano, a Caminhada Azoany foi precedida por debates sobre a religiosidade afro-brasileira, realizados nos dias 13 e 14, na Casa do Benin.

No domingo (16), Dia de São Roque, a jornada começa com uma missa em favor da caminhada na Igreja do Carmo (Pelourinho), sede provisória da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em reforma, a Igreja do Rosário dos Pretos não pode acolher a cerimônia como de costume.

Concentração na Praça do Reggae

Concentração na Praça do Reggae

Em seguida, os integrantes preparam a caminhada com oferendas e uma concentração na Praça do Reggae, também no Pelourinho. Às 13 horas, embalado pelo afoxé Korin Efan, o cortejo sai em direção à Igreja de São Lázaro.

“Participam da caminhada pessoas de todas as idades. Desde o meu filho de três anos até o seu Martins, de 77 anos, que foi o criador da atividae”, diz Apolinário.

Primeiro a fazer o percurso, há 44 anos, seu Martins, morador antigo do pelourinho, pagava uma obrigação religiosa. Desde então, não houve um ano em que deixasse de cumprir o ritual.

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

O evento mudou de nome quando passou a ser organizada pela Associação Comunitária Alzira do Conforto, em 1998. Ganhou o nome atual por conta de uma conversa entre os organizadores e a Yalorixá Mãe, que apresentou-lhes as diversas denominações para o Orixá das Doenças.

- Este ato passou a ser realizado de maneira contínua e no último ano teve a participação de duas mil pessoas de todas as classes e epidermes - afirma, espirituoso, Albino Apolinário.

(fotos: Associação Comunitária Alzira do Conforto/ Divulgação)

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31 de maio de 2009

GO: Após 23 dias, Festa do Divino chega ao fim em Pirenópolis

Este domingo, o Imperador vai desfilar sobre as ruas de Pirenópolis, acompanhado de virgens e levando seu cortejo para uma missa solene na igreja matriz da cidade. Após a missa, cantada em latim, será escolhido um novo Imperador, que governará a cidade apenas na próxima Festa do Divino, no ano seguinte.

A Festa do Divino Espírito Santo é a celebração popular mais importante de Pirenópolis. Tanto que está em processo de tombamento e poderá obter status de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, reconhecido pelo IPHAN. Tradicional, acontece na cidade desde a segunda metade do século XVIII, embora tenha sido documentada pela primeira vez apenas em 1819.

Grande expressão da fé católica, a Festa do Divino tem origem difusa na Europa. Ao atravessar o atlântico, ganhou a participação de índios e negros e também cedeu à mistura, incorporando folguedos profanos e originais de outras datas religiosas, a exemplo do Congo, dos Mascarados, das Cavalhadas e das Pastorinhas.

A Festa é realizada em Pirenópolis desde meados do Século XVIII

A Festa é realizada em Pirenópolis desde meados do Século XVIII

Em Pirenópolis, a Festa do Divino dura 23 dias. Começou no dia oito de maio, com a saída da Folia do Divino Espírito Santo denominada popularmente “Folia do Padre”, percorrendo a zona rural do município.

No dia 24 de maio, a Folia do Espírito Santo desfila na cidade em busca da casa do Imperador. No mesmo dia, é levantado o mastro, com direito a fogueiras e queima de fogos.

Daí em diante, todos os dias começam com Alvoradas, a Novena do Espírito Santo (então no terceiro dia) continua até o sábado e a semana é ocupada com muitas outras atividades.

Toda essa preparação leva ao domingo, último dia da Festa - pela tradição, o Domingo de Pentecostes (50 dias após a Páscoa).

S�mbolo da Festa do Divino na cidade

Símbolo da Festa do Divino na cidade

Figura central da Festa, o Imperador é escolhido por sorteio, no domingo do ano anterior. Qualquer um pode se candidatar para o nobre cargo, sob o qual repousa a responsabilidade de organizar a Festa. “Se rico, promove a festa com suas posses; se pobre a promove com a ajuda do povo”, diz a tradição pirinopolina.

Os habitantes da cidade também podem se oferecer para a posição quantas vezes quiserem. Na relação dos Imperadores da Festa, que em 2009 chega ao número 191, várias pessoas já foram sorteadas por duas ou três vezes.

O Imperador tinha bastante prestígio na época dos primeiros registros oficiais da Festa do Divino, no início do Séc. XIX. Tão grande que, naqueles tempos, possuía inquestionável autoridade, a ponto de libertar da cadeia presos políticos, o que realmente era feito.

As cavalhadas foram introduzidas na Festa por um dos Imperadores

As cavalhadas foram introduzidas na Festa por um dos Imperadores e duram três dias

Foi justamente um Imperador, o Padre Manuel Amâncio da Luz, quem introduziu as Cavalhadas, simulação da luta entre mouros e cristãos, que começa no Domingo do Divino e dura três dias.

Além disso, o mesmo Pe. Amâncio mandou confeccionar uma coroa de pura prata, a Coroa do Divino, oferecendo-a à Igreja Matriz, e distribuiu à população pãezinhos e alfenins, docinhos feitos de açúcar puro chamados de Verônicas, ato que também foi incorporado à tradição da Festa.

Quem estiver por perto de Pirenópolis e nunca teve a oportunidade de conhecer um Imperador, essa é sua chance. Hoje ou daqui a um ano.

(fotos: Portal de Turismo de Pirenópolis)

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