Terra Magazine

1 de agosto de 2009

Centenário de Patativa do Assaré tem homenagem de ex-menino de rua, afilhado do poeta

Caso estivesse vivo, Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, chegaria aos 100 anos em 2009.

Nascido em 5 de março de 1909, Patativa era considerado o maior repentista do Brasil. Semiletrado e dono de uma obra alto teor social, o poeta foi estudado por diversas universidades, inclusive estrangeiras. Seus versos, cantados por grandes nomes da música brasileira, a começar por Luiz Gonzaga.

Noite passada. O centenário do mestre cearense é celebrado pelo II Vozes de Mestres - Encontro Internacional de Culturas Populares, em Ouro Branco (MG). No palco, o cantor José Fábio dedica um show inteiro ao poeta de Assaré.

Quando Patativa conheceu o cantor, ele não era José Fábio, e, sim, Zezinho, um menino de rua de seis anos de idade, que dormia pelas praças de Assaré. “O poeta sempre me tratou por Zezinho”, diz.

Antes de conhecer Patativa, a vida do então menino de rua era muito difícil. “Eu era muito explorado. Fugia de casa e cantava para recolher dinheiro nas paradas de ônibus. Muitas pessoas queriam lucrar às minhas custas”, revela o cantor.

Impressionado com aquela criança que saia de casa para ajudar no sustento da família, Patativa passou a dar conselhos e incentivos a José Fábio, que também recebeu de presente o poema “Menino de Rua”.

O encontro com aquele senhor de chapéu, óculos escuros e bengala, que gostava de poesia, foi fundamental na vida de Zezinho. “Ele foi pegando aquele carinho por mim. Tentava me ajudar de alguma forma, sempre me incentivando a estudar”, diz o crescido José Fábio. “Ele inspirou em mim essa vontade de ser alguém”, completa.

Entretanto, a ajuda Patativa não podia ser material porque o próprio repentista não dispunha de recursos.

- Tem uma coisa que ninguém fala, mas o poeta era pobre. Era rico em nome e na sua arte. Mas sempre foi pobre - revela José Fábio.

Aos 10 anos, em 1993, um produtor, José Ribamar, o Rebinha, levou Zezinho para São Paulo.

- Ele era um grande conhecedor do poeta. Começou a querer levar eu para São Paulo. Teve que ir o Prefeito de Assaré e outras autoridades lá em casa convencer minha mãe. Disseram que ele poderia me ajudar. Aí minha mãe cedeu a guarda para ele, que virou meu tutor - lembra o cantor.

Ainda em 1993, gravou o primeiro disco, com quatro composições de Patativa, “inclusive Menino de Rua, que fez para mim”.

Para gravar o disco, participou da campanha, em São Paulo, do empresário e candidato a deputado Zé de Abreu. “Ele me prometeu: ‘Se você ajudar na minha campanha, eu gravo seu CD. Se ganhar, eu gravo. Se não ganhar, gravo também’”, relata o diálogo José Fábio.

- Ah, ele se elegeu! Nós elegemos ele duas vezes! - diz o cantor.

Em 1999, já “com a voz engrossada”, o cantor gravou o CD “José Fábio canta Patativa do Assaré”, com direção musical de Téo Azevedo e participações de Dominguinhos, Alcymar Monteiro e Jackson Antunes.

Ceumar e Pererê também tocaram na noite de ontem, no Vozes de Mestres

Ceumar e Pererê também tocaram na noite de ontem, no Vozes de Mestres

Morando em Belo Horizonte, José Fábio não volta para sua terra, o Ceará, há nove anos. Soube da morte de Patativa pela televisão e, como não tinha dinheiro na época, não pode se despedir do padrinho artístico.

- Você tá doido… Soube quando falaram no Jornal Nacional. Fiquei sem chão porque era um padrinho meu. No dia que fiquei sabendo, estava sem nenhum. Não pude ir prestar minha ultima homenagem. Já tem nove anos que não vou na minha terra. Gostaria de ir lá todo dia cinco de março, quando comemoram o aniversário do poeta - explica, com certa tristeza.

Vozes de Mestres

O II Encontro Vozes de Mestres foi aberto no dia 23 de julho, em Belo Horizonte, e depois seguiu para Ouro Branco, onde acontece até amanhã. Ainda este ano, será levado a sete cidades brasileiras: São Luis, Belém, Florianópolis, Curitiba, Natal, Goiânia e Joinville (SC), dentro do projeto Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante.

(fotos: divulgação/ II Encontro Vozes de Mestres)

Blogs que citam este Post

5 de julho de 2009

Repentista pode ter profissão reconhecida

Figura central da cultura popular nordestina, o repentista pode ter a sua profissão reconhecida em breve.

No dia 23 de junho, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara Federal aprovou, em caráter conclusivo - o que significa que não precisa ser votado pelo Plenário -, o projeto de lei que regulamenta a profissão de repentista.

Pela proposta, esses artistas que há décadas ocupam o imaginário popular nordestino são autorizados a organizarem-se em associações de classe autônomas, em nível local, regional e federal. Mas não precisarão do registro nessas entidades para se exibir em espetáculos públicos, com direitos garantidos em igualdade de condições com os demais artistas.

No texto, é considerado repentista o profissional que utiliza o improviso rimado como meio de expressão artística, transmitindo a tradição e a cultura popular por intermédio do canto, da falta ou da escrita.

O projeto de lei cita como exemplos de repentista o cantador e o violeiro improvisador, o embolador e o cantador de coco, o poeta repentista, o contador e o declamador de causos, e o escritor de literatura de cordel.

O texto inicial utilizado como base foi dos projetos de lei 613/07, do deputado André de Paula (DEM-PE), e 1112/07, do deputado Wilson Braga (PMDB-PB).

A diferença entre os dois projetos é a questão do registro junto a entidades de classe como condição para o exercício profissional. O projeto de André de Paula inclui a exigência, enquanto o de Wilson Braga, que prevaleceu tanto na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público quanto na CCJC, a dispensa.

Agora, a matéria segue para análise do Senado onde, se a crise e o ânimo dos senadores permitirem, deve ser aprovada sem maiores percalços. Vamos aguardar.

(foto: Ricardo Moraleida)

Blogs que citam este Post

7 de maio de 2009

Festival transforma Brasília na “capital” do Nordeste

Dentro de sete dias, a capital federal assume também o status de “capital do nordeste”. Com atrações de cada um dos estados nordestinos e um variado leque de atividades girando em torno da cultura daquela região, o Encontro do Nordeste acontece de 14 a 17 de maio, em Brasília.

“O encontro tem um apelo muito grande aqui em Brasília, pois mais de 40% da população é de nordestinos”, afirma Luiz Paulo, coordenador de Culturas Populares do evento. Segundo ele, o festival espera colocar cerca de 150 mil pessoas para “respirar nordeste” durante quatro dias.

A proximidade das festas de São João - melhor época do ano para qualquer nordestino - também ajuda a criar um “clima” de prévias para o evento, intensificando a sua atratividade. Quem for solidário com as vítimas das enchentes que assolam a região ganha desconto na entrada do festival: enquanto o ingresso normal é 20 reais, quem doar agasalhos paga R$ 12,00.

O Encontro do Nordeste faz parte de um projeto mais amplo, batizado de Brasília Capital Cultural, que visa, ao trazer outras atrações para a cidade, caracterizá-la como um local culturalmente ativo.

- As pessoas precisam conhecer Brasília pelo povo da cidade. Temos que acabar essa mística de que o Brasil só conhece Brasília pela Esplanada dos Ministérios. Queremos mostrar que a cidade tem muitos atrativos e fervilha de cultura - enfatiza o coordenador de culturas populares.

O festival chama atenção pela abrangência com que propõe representar os nove estados nordestinos. Trazer grupos e artistas das localidades mais variadas e não deixar nenhum estado “de fora” foi um dos critérios adotados para preparar a programação, de acordo com o coordenador de culturas populares.

Além de conhecidas atrações musicais, como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e a banda de forró Calcinha Preta, o Encontro do Nordeste reservou um palco apenas para manifestações de cultura popular, no qual se apresentam quadrilhas, trios nordestinos, teatro de mamulengos e um conjunto de outras expressões folclóricas que compõem a miríade cultural da região.

Um dos pontos altos da cultura popular no festival é o Desafio de Repentistas. Todas as noites do evento terão disputas entre esses mestres do improviso cantado, vindos das mais variadas cidades do nordeste brasileiro. É um campeonato mesmo, com direito inclusive a troféu para os vencedores.

Também merece destaque a homenagem a Luiz Gonzaga, rei do baião e o brasileiro que melhor “encarnou” a cultura nordestina. A coreografia de 11 bailarinos de Teresina tem presença garantida nos dois palcos do evento: abre um dos shows das atrações musicais no palco principal e depois é apresentada, completa, no espaço das culturas populares.

O público do festival também pode participar gratuitamente das oficinas de cerâmica, pintura de cerâmica, renda de bilro, xilografia, cordel e aprender até mesmo a fazer aquelas garrafas de areia colorida do Ceará. Para ministrar as oficinas, especialistas escolhidos a dedo, como o Mestre Vitalino Neto.

- A gente queria fazer um negócio como uma estação. Fazer parte do público participar de todas oficinas e ter contato com as várias expressões de cultura do nordeste. Mas o tempo é muito curto, daí tivemos que pensar em turmas separadas mesmo. As oficinas são gratuitas, mas as inscrições têm que ser feitas com antecedência - alerta Luiz Paulo.

Essas expressões da diversidade da cultura popular nordestina podem ser vistas na ExpoNordeste, uma grande feira de artesanato destinada à exposição e demonstração de produtos culturais da região, inclusive de comidas típicas, com aquisição de produtos diretamente do artesão.

A feira funciona ainda como um espaço de atração de investimentos e turismo para os estados nordestinos, que possuem tendas decoradas com suas principais cores e atrativos. Alguns oferecem promoções em conjunto com agências de viagens.

Curiosamente, a participação dos estados na feira não é tão simples quanto parece. “Tem prefeitura me pedindo passagem aérea para mandar secretário de turismo”, conta o coordenador de culturas populares. Será a crise econômica?

Certeza mesmo é que a crise já afetou o projeto Brasília Capital Cultural. Originalmente, o plano era fazer na capital federal encontros temáticos de todas as regiões brasileiras. O recuo nos patrocínios culturais gerou incerteza sobre a realização desses encontros, que dependerão do êxito do Encontro do Nordeste.

- Vamos fazer esse bem-feito e depois ver quais são as condições para fazer os outros. Não adianta projetar para a frente e perder o foco do trabalho agora - afirma Luiz Paulo.

Em caso bons ventos, o próximo encontro a ser realizado será o da região Sudeste.

(Foto: Arquivo/ Grupo de Xaxado Cabras de Lampião)

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol