Centenário de Patativa do Assaré tem homenagem de ex-menino de rua, afilhado do poeta
Caso estivesse vivo, Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, chegaria aos 100 anos em 2009.
Nascido em 5 de março de 1909, Patativa era considerado o maior repentista do Brasil. Semiletrado e dono de uma obra alto teor social, o poeta foi estudado por diversas universidades, inclusive estrangeiras. Seus versos, cantados por grandes nomes da música brasileira, a começar por Luiz Gonzaga.
Noite passada. O centenário do mestre cearense é celebrado pelo II Vozes de Mestres - Encontro Internacional de Culturas Populares, em Ouro Branco (MG). No palco, o cantor José Fábio dedica um show inteiro ao poeta de Assaré.
Quando Patativa conheceu o cantor, ele não era José Fábio, e, sim, Zezinho, um menino de rua de seis anos de idade, que dormia pelas praças de Assaré. “O poeta sempre me tratou por Zezinho”, diz.
Antes de conhecer Patativa, a vida do então menino de rua era muito difícil. “Eu era muito explorado. Fugia de casa e cantava para recolher dinheiro nas paradas de ônibus. Muitas pessoas queriam lucrar às minhas custas”, revela o cantor.
Impressionado com aquela criança que saia de casa para ajudar no sustento da família, Patativa passou a dar conselhos e incentivos a José Fábio, que também recebeu de presente o poema “Menino de Rua”.
O encontro com aquele senhor de chapéu, óculos escuros e bengala, que gostava de poesia, foi fundamental na vida de Zezinho. “Ele foi pegando aquele carinho por mim. Tentava me ajudar de alguma forma, sempre me incentivando a estudar”, diz o crescido José Fábio. “Ele inspirou em mim essa vontade de ser alguém”, completa.
Entretanto, a ajuda Patativa não podia ser material porque o próprio repentista não dispunha de recursos.
- Tem uma coisa que ninguém fala, mas o poeta era pobre. Era rico em nome e na sua arte. Mas sempre foi pobre - revela José Fábio.
Aos 10 anos, em 1993, um produtor, José Ribamar, o Rebinha, levou Zezinho para São Paulo.
- Ele era um grande conhecedor do poeta. Começou a querer levar eu para São Paulo. Teve que ir o Prefeito de Assaré e outras autoridades lá em casa convencer minha mãe. Disseram que ele poderia me ajudar. Aí minha mãe cedeu a guarda para ele, que virou meu tutor - lembra o cantor.
Ainda em 1993, gravou o primeiro disco, com quatro composições de Patativa, “inclusive Menino de Rua, que fez para mim”.
Para gravar o disco, participou da campanha, em São Paulo, do empresário e candidato a deputado Zé de Abreu. “Ele me prometeu: ‘Se você ajudar na minha campanha, eu gravo seu CD. Se ganhar, eu gravo. Se não ganhar, gravo também’”, relata o diálogo José Fábio.
- Ah, ele se elegeu! Nós elegemos ele duas vezes! - diz o cantor.
Em 1999, já “com a voz engrossada”, o cantor gravou o CD “José Fábio canta Patativa do Assaré”, com direção musical de Téo Azevedo e participações de Dominguinhos, Alcymar Monteiro e Jackson Antunes.
Morando em Belo Horizonte, José Fábio não volta para sua terra, o Ceará, há nove anos. Soube da morte de Patativa pela televisão e, como não tinha dinheiro na época, não pode se despedir do padrinho artístico.
- Você tá doido… Soube quando falaram no Jornal Nacional. Fiquei sem chão porque era um padrinho meu. No dia que fiquei sabendo, estava sem nenhum. Não pude ir prestar minha ultima homenagem. Já tem nove anos que não vou na minha terra. Gostaria de ir lá todo dia cinco de março, quando comemoram o aniversário do poeta - explica, com certa tristeza.
Vozes de Mestres
O II Encontro Vozes de Mestres foi aberto no dia 23 de julho, em Belo Horizonte, e depois seguiu para Ouro Branco, onde acontece até amanhã. Ainda este ano, será levado a sete cidades brasileiras: São Luis, Belém, Florianópolis, Curitiba, Natal, Goiânia e Joinville (SC), dentro do projeto Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante.
(fotos: divulgação/ II Encontro Vozes de Mestres)



