Terra Magazine

3 de outubro de 2009

BA: Artistas fazem arrastão pela leitura em Salvador

Neste domingo, às 11h, a Praça Almeida Couto, localizada no bairro de Nazaré, em Salvador, recebe o Arrastão Literário, um cortejo de poetas, atores, cordelistas, músicos, escritores e outros artistas ligados ao universo das letras.

À frente do cortejo, o poeta Marcos Peralta revive Castro Alves. No meio, integrantes de bibliotecas comunitárias da capital baiana e professores da Escola Lucinda de Poesia Viva, da poetisa Elisa Lucinda, garantem a animação da comitiva.

Primeira edição do arrastão Literário, em 2008

Primeira edição do arrastão Literário, em 2008

Em sua segunda edição, o Arrastão Literário vai mobilizar as cerca de 1500 pessoas que frequentam a Praça todo domingo para a apresentação do grupo de chorinho Canto da Praça, convidando-as “engrossar” o divertido movimento pela leitura.

O trajeto é muito simples: uma volta na Praça, onde também acontece a I Feira de Livros do comitê soteropolitano do Proler, o Programa de Nacional de Incentivo à Leitura. A Feira de Livros acontece das 9h às 17h e reúne várias editoras e livrarias da cidade, que comercializam obras com preço entre R$ 5,00 e R$ 10,00.

O poeta Marcos Peralta, "brincando" de Castro Alves

O poeta Marcos Peralta, "brincando" de Castro Alves

Vale mencionar ainda que em frente à mesma praça, e não por acaso, funciona a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, a primeira biblioteca pública da Bahia a funcionar aos domingos, o que acontece desde cinco de julho deste ano.

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28 de setembro de 2009

BA: Mãe de Santo até hoje tenta reaver prejuízos de terreiro demolido por prefeitura

Ialorixá busca ressarcimento por danos causados com demolição. Caso completa um ano e sete meses sem mostras de ser resolvido. “Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morreu”, diz a mãe de santo.

Desde a demolição parcial do terreiro de candomblé Oyá Onipó Neto, localizado no bairro do Imbuí (Salvador), em 27 de fevereiro de 2008, a rotina de Roselice Santos do Amor Divino, a Mãe Rosa, passou a incluir audiências e visitas constantes à Prefeitura de Salvador.

Na próxima quarta-feira (30/09), comparece a uma audiência no setor de meio ambiente do Ministério Público. São tantas que a própria mãe de santo tem dificuldades para determinar com clareza os seus objetivos.

- Olhe, meu filho, é tanta audiência que a gente nem sabe mais direito para que é. Acho que é para eu ter uma garantia que não vão tentar demolir o terreiro de novo - conta a ialorixá.

Na lista de audiências, Mãe Rosa também aguarda o julgamento do recurso da ação que move contra Kátia Carmelo, ex-superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador, que ordenou à época a demolição do terreiro.

O judiciário deu ganho de causa a Carmelo em primeira instância. “O Juiz entendeu que ela estava certa”, comenta Mãe Rosa, com algum rancor na voz. Paradoxalmente, ainda no ano passado a ex-superintendente chegou a receber uma honraria da cidade de Salvador, a Comenda Maria Quitéria.

- Eu não desejo que ela vá presa. Quero que ela seja punida, me dando de volta tudo o que ela destruiu - comenta Mãe Rosa sobre a ação contra Kátia Carmelo.

A peregrinação pelas diversas instâncias judiciais não se compara, no entanto, com a dificuldade que a Ialorixá tem para negociar o ressarcimento dos prejuízos causados ao terreiro.

O Blog das Ruas já havia feito uma matéria sobre a situação do terreiro Oyá Onipó Neto em 16 de setembro do ano passado. Na época, a mãe de santo foi diagnosticada de depressão porque a prefeitura tinha apenas reparado as paredes do local, sem recuperar nada do patrimônio destruído, como estátuas e roupas dos orixás e vários outros instrumentos utilizados nos rituais. “Só mexeram na casca”, dizia a Ialorixá.

Desde então, as negociações nada avançaram e a municipalidade não aportou mais nada, apesar dos esforços da mãe de santo.

- De promessa, se vive o santo. O prefeito prometeu: “vou ajeitar”, ele disse. Dali pra cá, vi a cara do prefeito naquele dia [cinco de março de 2008, quando o povo de santo fez uma passeata até a prefeitura]. Depois, não vi mais - fala, indignada.

Mãe Rosa conta que, inclusive, a Secretaria Municipal de Reparação, órgão com o qual negocia a reposição dos bens do terreiro, chegou a perder toda a sua documentação.

- Meus documentos sumiram na Secretaria de Reparação. Deram fim. Mas como tenho tudo no Ministério Público, fui até lá e peguei a lista novamente e levei para o novo secretário.

Apesar de ter conseguido uma audiência com o secretário municipal, não conseguiu convencê-lo a repor o patrimônio destruído.

- Ele disse que tem coisa que não poderia dar. Mas eu respondi: “Essa é a minha cultura. Se destruiu tem que recuperar desse jeito”. Não pedi nada, só o que já tinha aqui - afirma Mãe Rosa.

Do secretário Ailton dos Santos Ferreira, ouviu a promessa de uma audiência em breve com o prefeito João Henrique Carneiro. “Ele disse que entraria em contato comigo e nada. Toda vez que eu ligo, ele [o secretário] nunca está”, reclama.

Sem perspectiva de solução para o terreiro e com a questão encaminhando-se para o segundo aniversário, Mãe Rosa desaba:

- Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morre. Eu tenho que recomeçar tudo de novo.

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15 de setembro de 2009

BA: Festival “apresenta” o teatro a centenas de pessoas no subúrbio

“Olha eu vou fazer um chute ‘quase certo’: 80% dessas pessoas estão vindo ao teatro pela primeira vez”. A declaração acima é do ator e produtor Jorge Ravinny, responsável pela coordenação geral do I Festival de Teatro do Subúrbio.

Acontecimento cultural inédito no Subúrbio Ferroviário de Salvador, o Festival de Teatro começou no dia 11 e vai até o próximo domingo (20/9).

Com mais de 750 mil habitantes, o Subúrbio Ferroviário é uma das regiões mais populosas da capital baiana. È também uma das mais pobres e menos assistidas por equipamentos e políticas culturais.

“Esse teatro que estamos usando para o Festival, o Centro Cultural de Plataforma, ficou fechado por 19 anos! Toda uma geração daqui do bairro que hoje tem 19, 20 anos nunca viu teatro”, explica Jorge Ravinny.

O Bando de Teatro Olodum foi um dos grupos convidados para o Festival

O Bando de Teatro Olodum foi um dos grupos convidados para o Festival

Para participar da programação cultural onde ela geralmente ocorre, na zona central da cidade, os habitantes do Subúrbio têm que gastar um dinheiro extra - que muitas vezes não existe - com locomoção. Além disso, têm que enfrentar a violência urbana na volta para casa, o que frequentemente desestimula essa opção de lazer.

Pronto. Está desenhado o quadro que devemos ter em mente ao encarar a declaração do coordenador geral na abertura deste post. Será possível sequer dimensionar o impacto que conhecer uma arte como o teatro pode ter na vida de tantas pessoas?

Casa cheia todos os dias - e gente esperando do lado de fora.

Casa cheia todos os dias - e gente esperando do lado de fora.

Felizmente, o Festival é um sucesso. “Na abertura tivemos gente do lado de fora, ontem tivemos gente do lado de fora, as pessoas querem participar, querem assistir. Basta que as coisas aconteçam”, argumenta Ravinny.

São 10 dias, 12 espetáculos, 12 grupos (quatro convidados e os outros do próprio Subúrbio) e mais 300 artistas envolvidos, além de 40 horas de oficinas artísticas na programação.

O esgotamento das sessões iniciais e o burburinho que o evento está causando já autorizam a organização a confirmar a expectativa de mobilizar quatro mil pessoas para assistir as montagens, espetáculos de rua, palestras e oficinas.

- É o que a gente quer: que o festival seja um marco na história da produção cultural local. Queremos que haja um “antes” e um “depois” do Festival de Teatro do Subúrbio - diz, sem muita modéstia, o coordenador do evento.

Teatro Negro

O I Festival de Teatro do Subúrbio também chama atenção pelo tema escolhido para perpassar todas as suas atividades: o teatro negro.

Menciono, durante a entrevista com Jorge Ravinny, que este poderia ser um tema polêmico. “Não é não. Por quê falar de negro é um tema polêmico?”, questiona o artista.

O tema do primeiro ano do Festival foi "Teatro Negro".

O tema do primeiro ano do Festival foi "Teatro Negro".

Para ele, “teatro negro” é o teatro que tematiza as questões do povo negro e pode, sim, ser feito também por pessoas brancas. “Desde que não fale mal do negro, porque aí vai ser um teatro racista. O negro construiu o Brasil. Trabalhou e trabalha muito por esse país”, afirma.

O Festival de Teatro, portanto, além de apresentar a arte teatral à população suburbana, faz um convite para que ela discuta a sua própria negritude, constantemente negada ou esquecida.

- Quer provocar na uma reação população que muitas vezes não se auto-identifica como negra. O evento quer falar das pessoas que moram no subúrbio e 90% delas são negros. A gente quer falar dessa população, Senão não adianta nada, não tem sentido. Sou negro, tenho mãe negra, pai negro e participo de um grupo de teatro negro. Então considero minha obrigação valorizar a cultura negra e cuidar da minha população - afirma, taxativo, Jorge Ravinny.

(fotos: divulgação [1]; Márcio Lima [2]; Camila Souza [3]; Alberto Lima [4])

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28 de agosto de 2009

Ao completar 10 anos, Jam Session é fenômeno na Bahia

Quem já foi ao Museu de Arte Moderna da Bahia, no Solar do Unhão, sabe que, além de obras de arte, o local - uma construção do séc. XVII, em plena Baía de Todos os Santos - reserva gratas surpresas aos visitantes. Uma delas são as jam sessions - sessões de improvisação de música instrumental - que acontecem às noites de sábado.

Este final de semana, a JAM no MAM comemora 10 anos de atividade com uma média de público superior a mil pessoas por noite! Nada mal para uma iniciativa de música instrumental na terra da axé-music, onde os músicos de outros gêneros vivem reclamando da falta de espaço ou de público.

Para celebrar os 10 anos, foi elaborada uma programação especial para as noites de quinta, sexta e sábado. Ontem, a banda de música instrumental jazzística Jurassik Quartet e a cantora Elza Soares - que entrou no clima do improviso e decidiu o repertório apenas momentos antes da apresentação - fizeram as honras da casa.

Mais de mil pessoas comparecem a cada sessão da JAm no MAM

Desde 2007, quando a JAM retornou, mais de mil pessoas comparecem a cada sessão

A atração da noite de hoje é uma apresentação especial do antigo Grupo Garagem, a mais importante banda de música instrumental formada na Bahia. Não é à toa que os músicos Ivan Bastos e Ivan Huol, integrantes à época do Garagem, foram os criadores da Jam Session em 1993. Após, o Garagem, o compositor e guitarrista Toninho Horta e a Orquestra Fantasma comandam o show com clássicos da música brasileira.

Para o último dia da celebração, no sábado, está reservada uma jam session especial, com a maioria dos músicos convidados para o projeto. Música baiana, baião, samba, frevo, salsa, blues, swing e, claro, jazz, são alguns dos ritmos esperados para a noite.

Todas as apresentações dividem espaço com a mostra “JAM em imagens”, na qual são exibidos vídeos e fotos produzidas pelo público nos últimos anos do evento. O ingresso custa R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).

Ivan Huol, um dos criadores do evento, era integrante do Grupo Garagem

Ivan Huol, um dos criadores do evento, era integrante do Grupo Garagem

Criada com o objetivo de ser um ponto de encontro da música instrumental, a JAM no MAM já levou ao Museu de Arte Moderna artistas de países tão diferentes como Canadá, EUA, Dinamarca, Colômbia, Itália, França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Irlanda, Chile, Cuba, Argélia, Japão, Coréia e Espanha.

A história da JAM na área externa do Museu de Arte Moderna da Bahia tem duas fases distintas - daí a diferença entre os 10 anos comemorados agora e os 16, desde que foi criada.

Entre 1993 e 2001, quando era conhecida como JAZZ MAM, a JAM era gratuita e acontecia ta religiosamente todo sábado. Tinha uma média de público de aproximadamente 200 pessoas por sessão.

O público assiste as improvisações num dos cenários mais bonitos da cidade

O público assiste as improvisações num dos cenários mais bonitos da cidade

Convidada novamente para assumir as noites de sábado do Museu de Arte Moderna, em 2007, manteve a mesma assiduidade. Mudou o local das apresentações (agora no estacionamento do Museu, de frente para a Baía de Todos os Santos), e o ingresso, que passou a ser cobrado, a módicos R$ 4,00.

Quem acha que a cobrança afastou o público está redondamente enganado: a JAM passou a receber mais de mil pessoas por noite e tornou-se um fenômeno soteropolitano, provando, mais uma vez, que a Bahia não é terra de um ritmo só.

(fotos: Tiago Vaz)

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16 de agosto de 2009

BA: Caminhada para orixá das doenças reforça sincretismo em Salvador

Há 11 anos, a Caminhada Azoany reúne o povo de santo no dia da festa católica de São Roque. Todo ano, os adeptos da religião africana percorrem os seis quilômetros que separam o Pelourinho, no centro de Salvador, e a Igreja de São Lázaro, no bairro da Federação.Além do sincretismo com São Roque, Azoany é uma das denominações jeje para o Orixá Obaluaê, divindade do candomblé ligada às doenças e à cura.

- Vestidos de Branco, sejam elas de roupas de baianas, camisas confeccionadas para a Caminhada ou roupas escolhidas a dedo para o evento, com balaios de pipocas na cabeça, ramos e buquês de flores (para colocarem na Igreja), embalados ao som dos atabaques e agogôs (afoxé), percorrem o Pelourinho em direção ao Campo Grande adentrando as ruas que levam ao Bairro da Federação até a Igreja de São Lázaro, onde todos os participantes entendem como comprida naquele ano a sua reverencia as entidades religiosas - conta Albino Apolinário, 45, organizador da caminhada e Ogã de Nanã.

Embora a Caminhada Azoany seja uma atividade específica do povo de santo, todos reconhecem a importância do sincretismo para a atividade. “É um Encontro muito bonito, quando a procissão católica está saindo e o candomblé está chegando. Tudo na mesma igreja (São Lázaro)”, diz Apolinário.

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

Azoany é o nome jeje para o Orixá Obulaiê, que no sicretismo corresponde a São Roque

- O sincretismo nasce quando os escravos eram obrigados a cultuar os santos Igreja Católica. Eles cuidavam do altar do santo e, embaixo, faziam assentamento para Ogum e outros orixás. A Lavagem do Bomfim nasce do pessoal do candomblé que ia para a Igreja fazer oferendas a Oxalá. O sincretismo teve como resultado a tolerância entre as duas religiões - acrescenta o organizador da caminhada.

Este ano, a Caminhada Azoany foi precedida por debates sobre a religiosidade afro-brasileira, realizados nos dias 13 e 14, na Casa do Benin.

No domingo (16), Dia de São Roque, a jornada começa com uma missa em favor da caminhada na Igreja do Carmo (Pelourinho), sede provisória da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em reforma, a Igreja do Rosário dos Pretos não pode acolher a cerimônia como de costume.

Concentração na Praça do Reggae

Concentração na Praça do Reggae

Em seguida, os integrantes preparam a caminhada com oferendas e uma concentração na Praça do Reggae, também no Pelourinho. Às 13 horas, embalado pelo afoxé Korin Efan, o cortejo sai em direção à Igreja de São Lázaro.

“Participam da caminhada pessoas de todas as idades. Desde o meu filho de três anos até o seu Martins, de 77 anos, que foi o criador da atividae”, diz Apolinário.

Primeiro a fazer o percurso, há 44 anos, seu Martins, morador antigo do pelourinho, pagava uma obrigação religiosa. Desde então, não houve um ano em que deixasse de cumprir o ritual.

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

Rituais do candomblé acontecem na concentração e ao longo do percurso

O evento mudou de nome quando passou a ser organizada pela Associação Comunitária Alzira do Conforto, em 1998. Ganhou o nome atual por conta de uma conversa entre os organizadores e a Yalorixá Mãe, que apresentou-lhes as diversas denominações para o Orixá das Doenças.

- Este ato passou a ser realizado de maneira contínua e no último ano teve a participação de duas mil pessoas de todas as classes e epidermes - afirma, espirituoso, Albino Apolinário.

(fotos: Associação Comunitária Alzira do Conforto/ Divulgação)

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4 de agosto de 2009

BA: Soundsystem mobiliza mutirão de artistas na periferia de Salvador

Junte alguns DJs, MCs e muitas caixas de som. Acrescente uma multidão dançando em volta e você terá um genuíno soundsystem.

Os soundsystems (sistemas de som) são muito populares na Jamaica, uma verdadeira paixão nacional da pátria do reggae. Surgida nos anos 50, a cultura dos soundsystems é
uma das mais sólidas tradições jamaicanas, por onde passa boa parte da cultura popular daquele país.

Se depender do pessoal do ministereopublico - Sistema Perambulante de Som também serão populares em breve na Bahia.

Formado em 2004, o ministereopublico vem, ao longo dos anos, ocupando ruas, praças, bairros e casas noturnas da capital baiana, com o intuito de popularizar e fortalecer a cultura de soundsystem no Estado.

Único soundsystem de Salvador especializado em reggae, dub, ragga, dancehall e jungle, o Ministereopublico também começa a fazer uma pequena revolução nas periferias de Salvador.

A comunidade se mobiliza pela arte no Mutirão Mete Mão

A comunidade se mobiliza pela arte no Mutirão

É o Multirão Mete Mão, evento itinerante que percorre os bairros da periferia soteropolitana, mobilizando artistas locais, grafiteiros, estudantes, músicos, líderes comunitários, professores, e, é claro, os “anfitriões-moradores”.

Realizado em conjunto com o grupo de graffiti 071 Crew, o Multirão Mete Mão é inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas de Recife e do Rio de Janeiro.

O diálogo com o público flui principalmente fez através do graffiti e da ambientação sonora baseada na música jamaicana, cultura que têm forte influência no som produzido na Bahia.

No Mutirão, entretanto, tem de tudo. Malabares, grupos de percussão, b-boys, palhaço, pintura, teatro infantil. O limite do Multirão é a criatividade da comunidade onde estiver ancorado.

O evento, que acaba de ocorrer em comunidade de Nova Brasilia (Estrada Velha do aeroporto), é mensal. O bairro é selecionado de acordo com a carência de oportunidades de lazer e entretenimento. E o que é mais bacana: geralmente é uma solicitação da própria comunidade.

O Blog das Ruas fez uma entrevista com Murilo F, produtor do Ministereopublico, na qual ele conta um pouco da história do Multirão. Veja o que ele tem a dizer:

Quando e como surgiu a ideia de promover multirões para a juventude das periferias? Qual é o objetivo principal da atividade?

MutirãoMeteMão acontece em Salvador no ano 2007, inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas do Rio de janeiro e Recife. O projeto tem como um dos objetivos centrais a utilização da música e do grafitti para estimular o potencial criativo dos participantes, abrindo um novo canal de comunicação.

A proposta também é promover o intercâmbio entre artistas e comunidades carentes de atividades culturais, dialogando com o público através do graffitti e de um sistema de som nos moldes jamaicanos.

O grafitti está sempre presente no Mutirão

O grafitti está sempre presente no Mutirão

Realizado 14 vezes entre 2007 e 2008 - no Bairro da Paz, Saramandaia, Massaranduba, Itinga, Garcia, Boca do Rio, Federação, Bate Facho, Vasco da Gama, Pituaçu, Castelo Branco e São Lázaro e nas cidades de Feira de Santana e Cachoeira - BA. Nesse ano o Mutirao ja aconteceu em Nova Brasilia e Estrada Velha do Aeroporto.

E por que Mutirão Mete Mão?

Junto a esta belíssima iniciativa da parceria entre ministereopublico, 071Crew e a comunidade agregamos ao projeto uma diversidade de profissionais liberais e não liberais em prol de um objetivo: promover a realização do evento em que todos possam colaborar em algum aspecto interessante a comunidade sem receber dinheiro, por isso ‘mutirão mete mão’.

Existe alguma estrutura ou programação fixa para o desenrolar do evento?

O projeto MutirãoMeteMão, é um evento itinerante mensal que busca percorrer nos bairros e praças de Salvador que necessitem de atividade cultural.

Como vocês decidem quais bairros serão visitados? Existe alguma regularidade para as visitas?

O que leva essa atividade a um determinado bairro é basicamente a carência de lazer e entretenimento e geralmente é uma solicitação da própria comunidade. Não existe um calendário fixo.

E qual é a reação das à chegada de vocês? Há algum tipo de preparação para receber o evento?

Eles já são previamente informados durante a semana que antecede a data de realização do que acontecerá em sua comunidade. Mas o primeiro contato que é o inicio do projeto: chegada ao local, montagem dos equipamentos faz com que surja a curiosidade das pessoas , no segundo contato quando começamos a tocar e o grafitti já está pintado existe o despertar e o terceiro contato a satisfação.

Sempre conversamos com a comunidade junto com os grafiteiros explicando e informando sobre o que realizamos, antes de começarmos a ação.

Como o passar do tempo, o que foi sendo modificado nos mutirões?

Estamos mais organizados, conseguimos alcançar uma maturidade que facilita a desenvoltura e realização do projeto. A quantidade de pessoas que gostariam de trabalhar na realização aumentou. A satisfação das comunidades sempre é positiva.

E, principalmente, que não poderemos parar este projeto tão cedo, pois ainda há muitos bairros a serem visitados e pretendemos disseminar nossa linguagem musical e artística.

"Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada"

Murilo F: "Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada"

Vocês afirmam que a diversidade é uma característica do evento. Ele é aberto a outros gêneros artísticos fora do universo do hip hop e da música eletrônica?

Dentro de suas varias edições nós já tivemos a presença de malabares de luzes e fogo, teatro infantil, oficina de criação de brinquedos infantis, grupo de percussão, grupo de dança, b-boys, workshop sobre técnicas de dj e grafitti, recital de poesias, performance corporal… Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada.

Nessa linha, como líderes comunitários, estudantes, professores, formadores de opinião contribuem para o mutirão?

Eles entram como facilitadores, despertando o interesse dos moradores trazendo-os mais próximos da atividade, para que participem da ação e não permaneçam apenas como espectadores. Funcionam também como nossos maiores veículos de comunicação, pois, além da internet é no “boca a boca” que conseguimos mobilizar a todos, nada melhor do que realizar um evento com vontade, organizado e divulgá-lo.

Que tipo de impacto vocês acreditam ter nas comunidades?

O projeto visa popularizar a cultura urbana, difundindo a linguagem artística através do trabalho da equipe. Dessa forma, as comunidades passam a ter contato com expressões artísticas e por um reflorescimento intelectual levando os jovens a uma reflexão crítica sobre a sua identidade e riqueza cultural, contribuindo para marcar traços na identidade local, ainda que em menor grau e muito mais no imaginário popular, como expressão de uma cultura.

Quando esse impacto é mais concreto?

O fator que mais nos deixa feliz é que quando acabamos e temos que desmontar o equipamento. Vemos ali o quanto conseguimos trazer de satisfação tanto pra gente como pra comunidade. Nunca foi diferente.

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24 de julho de 2009

Bahia realiza “seletiva” para a final do Festival do Rap Popular Brasileiro

Acontece nas noites de hoje e amanhã, na Praça Teresa Batista, no Pelourinho (Salvador), a etapa baiana do II Festival do Rap Popular Brasileiro. Reunindo 12 bandas locais de rap, o evento gratuito seleciona - da mesma forma que todos os outros estados brasileiros - representantes para a final nacional do II RPB Festival, no dia 26 de setembro, no Rio de Janeiro.

Organizado pela Central Única de favelas, a CUFA, o RPB Festival procura estimular o mercado musical nacional do rap, valorizando a arte que nasceu nas periferias e apresentando novos grupos e cantores de rap.

“Muita gente começa nesses espaços e desponta com o talento aprisionado, e que muitas vezes não teria outra oportunidade de ser apresentado”, argumenta Gog, o “poeta do Rap”, vencedor do Prêmio Hutúz 2008 na categoria “Melhor Videoclipe”.

Para selecionar o representante do Estado na final, a etapa baiana tem como jurados Letieres Leite (Orquestra Rumpilezz), DJ Bandido, Vivian (coordenadora da Didá), Jô Guimarães (arte-educadora da escola Mãe Hilda e Ilê Ayê) e Mona Brito (representante do ‘Movimento Social’).

O grupo Quatro Preto também faz trabalhos sociais em bairros de Salvador

O grupo Quatro Preto também faz trabalhos sociais em bairros de Salvador

- Pô, mano, diz aí você, se coloque no meu lugar: como seria representar o hip hop do meu Estado no Festival nacional? Não sei nem o que dizer… - comenta Pablo, um dos MCs do Quatro Preto, na estrada desde 2002.

Para a etapa baiana, foram inscritas 30 bandas e pré-selecionadas 12. Única rapper do sexo feminino entre as bandas que se apresentam hoje e amanhã, Mahara não acredita que haja discriminação no meio e prega a união em torno da cultura negra.

- É a mesma coisa, tá todo mundo na rua, tem que saber dividir, ter respeito. Depende da cabeça de cada um e da postura da mulher. Ainda não é a mesma quantidade dos homens, mas já tem muita mulher. Ta todo mundo na mesma vibração que é a da negritude do país. Tem discriminação é contra o nosso ritmo, mas agora que a gente está começando a ter voz, a ter vez - argumenta Mahara.

Mahara vê discriminação contra o rap

Mahara vê discriminação contra o rap no Brasil

Traço comum a Mahara, Quatro Preto e a várias bandas que se apresentam na etapa baiana, a incorporação de outros ritmos ao rap parece uma tendência no Estado. “A gente mistura mesmo: entra samba, jazz, maracatu, instrumentos de corda, percussão, baixo”, conta o MC Pablo.

Entretanto, essa tendência parece mas é mal vista pelos grupos do sul, mais alinhados ao hip hop “tradicional”, que ainda dominam o cenário brasileiro.

A estrutura do RPB Festival, que seleciona representantes de cada estado brasileiro para uma grande final, pode ser então um momento de afirmação política de identidades regionais.

- É a nossa chance de mudar um pouco a cara do rap nacional, sempre concentrado nos grupos do Sul. Eles são os que mais se parecem com os americanos e não entendem quando a gente, da Bahia, do Nordeste, mistura os ritmos, afirma a negritude do nosso jeito - diz Janda Mawusi, produtora do Festival.

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3 de julho de 2009

Fachadas de casas fazem tributo à Independência da Bahia

Ontem, no dia 2 de Julho, foi celebrada a Independência da Bahia, quando as tropas do exército e da marinha brasileira conseguiram a libertação definitiva do Brasil do domínio português, em 1823.

A data é tradicionalmente comemorada com um cortejo na capital baiana, que sai do Largo da Lapinha e vai até a Praça da Sé.

Para estimular o espírito cívico da população local, a Fundação Gregório de Mattos (órgão municipal de cultura) costuma promover uma competição entre as fachadas das casas que ficam no trajeto.

As casas vencedoras, que serão conhecidas no dia 17 deste mês, ganham R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1mil para os primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Os moradores enfeitam suas casas para o desfile do Dois de Julho

Os moradores enfeitam suas casas para o desfile da Independência da Bahia, no Dois de Julho

O Blog das Ruas esteve no cortejo do 2 de Julho e fez a sua própria seleção. Manequins, modelos vivos, manifestações políticas, comércio e, claro, futebol são elementos presentes nas fachadas mais chamativas.

A concentração de máquinas fotográficas logo anuncia uma das mais fortes concorrentes. Decorada com folhas de palmeira, flores vermelhas e brancas e as bandeiras da Bahia e do Brasil, a casa tem à sua porta três adolescentes, vestidos de Joana Angélica, Castro Alves, Maria Quitéria. Nas janelas, duas crianças representam os caboclos (índios).

- A menina de Maria Quitéria e a indiazinha são minhas netas. Os outros três são vizinhos. Eles ficam aí das 10h até quando acaba o cortejo. Eu falo para descarem um pouco, mas não querem descer não. Também, todo mundo tira foto e brinca com eles… - conta a senhora Maria Santana,que decora a fachada da casa há 13 anos.

Dona Maria Santana nasceu num Dois de Julho

Dona Maria Santana nasceu num Dois de Julho e decora a fachada há 13 anos

Para Dona Maria Santana, a data é mais que especial: é o seu aniversário. Nascida em 2 de julho de 1940, ela se diz privilegiada e pede que a data continue a ser celebrada. “É muito importante o Dois de Julho. A Bahia precisa lembrar dos seus heróis”, afirma.

Quase em frente à casa de Dona Maria, outra fachada tem as três janelas ocupadas por modelos vivos. Desta vez, só mulheres, representando Joana Angélica, Maria Quitéria e a Iyalorixá Maria Felipa, personagem menos conhecida da luta pela independência na Bahia.

Felipa lutou na Ilha de Itaparica. Conta-se que ela liderava uma “guarnição” de 40 mulheres, que seduziam e depois surravam com cansanção os soldados portugueses. Felipa e suas lideradas teriam queimado 42 embarcações dos colonizadores.

Fachada homenageia Maria Felipa (E), hero�na pouco conhecida da Independência Baiana

Fachada homenageia Maria Felipa (E), heroína pouco conhecida da Independência Baiana

“Decoro minha fachada há três anos e sempre estou homenageando o povo negro”, diz Nilzete dos Santos, 32, que aproveitava o cortejo para fazer uns trocados vendendo bebidas num isopor à frente de casa.

- Em 2008, ganhei o terceiro prêmio homenageando os orixás. Este ano, espero ganhar de novo fazendo uma homenagem às mulheres negras - conta Nilzete.

Na Rua dos Perdões, uma enorme bandeira da Bahia tem à frente o desenho de um grande pote decorado com motivos africanos, que estampa os dizeres “Renascendo na Palma da Mão”.

Dona da casa, Maria da Anunciação, 91, espera viver "para muitas outras festas"

Dona da casa, Maria da Anunciação, 91, espera viver "para muitas outras festas"

Dentro da casa, a dona, Maria Anunciação dos Santos, de 91 anos, não consegue me explicar o que quer dizer a decoração. Entretanto, com a vozinha baixa, mas firme, afirma: “Adoro festas! Espero que Deus me dê ainda muitos anos de vida para decorar minha casa muitas vezes”.

Perto de dona Anunciação, cinco manequins e muito luxo enfeitam outra fachada. Desta vez, é um profissional que está por trás do projeto: o estilista e artista plástico Júlio César Habib, que há 13 anos mora no bairro e estréia no concurso de fachadas.

- Eu fico muito triste quando um adolescente pergunta “quem é aquela mulher vestida de homem?” e não sabe que é Maria Quitéria. A grande infelicidade da Bahia é terem tirado do ensino primário a história da Bahia, a verdadeira história do Brasil - diz Habib.

Fachada "chique" tem manequins e muito luxo

Fachada "chique" tem manequins e muito luxo

O estilista projeta uma sala de estar com portugueses, Maria Quitéria e a figura do caboclo. Segundo ele, o conceito que norteia a obra é paz e igualdade.

“Tendo vencido a luta, Maria Quitéria está em paz com o índio, seu companheiro de luta, e os portugueses que aqui ficaram porque amaram o Brasil. Os que não gostaram daqui, Maria Quitéria mandou embora”, conta.

Elvis, Michael Jackson e ACM

Ao longo do trajeto, algumas surpresas. Várias residências aproveitam o burburinho para serem negociadas. Numa delas, uma grande faixa pendurada na varanda dizia: “A Casa-Museu Solar do Santo Antonio está à venda”.

A paixão nacional também é destaque na festa da Indepedência da Bahia

A paixão nacional também é destaque na festa da Indepedência da Bahia

As fachadas das casas servem também para estampar as preferências de seus donos no futebol e na política. Não raro, a bandeira oficial é substituída pela do Esporte Clube Bahia.

Numa das casas, entre as bandeiras do Bahia e do Brasil, flutua a camisa do Corinthians, campeão da Copa do Brasil na noite anterior.

Moradores manifestam o descontentamento com a pol�tica

Moradores manifestam o descontentamento com a política

Os moradores não deixam de manifestar suas paixões e sua insatisfação na política também.

Na Rua dos Perdões, o muro de uma casa ostenta, em letras garrafais, a frase: “Vote nulo: não sustente parasitas! Estamos P.uT.os c/vcs DEMônios”. Já em outra casa, no bairro de Santo Antonio, a única decoração é um pôster enorme do senador falecido Antonio Carlos Magalhães.

Todos os anos, Soraya Fahel decora a casa com a fam�lia Magalhães

Todos os anos, Soraya Fahel decora a casa com a família Magalhães

“Desde que me entendo por gente, sou ACM”, diz Soraya Fahel, dona da casa. “Todo ano eu decoro a minha fachada com ele, com o Filho [Luís Eduardo Magalhães] ou com o Neto [ACM Neto]“.

Durante a nossa conversa, Soraya faz um comentário cuja justificativa só posso atribuir à paixão desmedida pelo ex-senador baiano:

- Elvis não morreu. Michael Jackson e ACM também não.

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3 de junho de 2009

BA: Poeta lança “cordel do novo acordo ortográfico”

Uma aluna me abordou:
“Professor, estou surpresa
Com o Novo Acordo da
Nossa Língua Portuguesa.
O que vai então mudar?
Por favor, queira explicar
Pois preciso de clareza.”

Assim o cordelista Antônio Barreto inicia a obra “Novo Acordo Ortográfico em Versos de Cordel”, lançado hoje à tarde, na Biblioteca Pública Thales de Azevedo (Salvador).

Professor de língua portuguesa do ensino médio, Barreto conta que a situação descrita nos versos realmente aconteceu, pouco tempo antes do novo acordo entrar em vigor.

- De fato, uma aluna me perguntou o que mudaria na reforma ortográfica. Eu disse que responderia, mas como ainda não era oficial, tinha que me aprofundar mais. Então, fundei nos livros. Daí veio meu interesse em fazer esse cordel - explica Barreto.

Professor, Barreto usa o talento de cordelista para tornar as aulas mais atraentes

Professor, Barreto usa o talento de cordelista para tornar as aulas mais atraentes

O que seria apenas um lançamento virou uma aula-show, quando outros professores souberam do evento. “É uma mistura de aula com recital. Os professores disseram que iriam levar seus alunos para assistir à minha palestra”, explica.

Militante do cordel, Barreto faz uma introdução sobre esse tipo de literatura antes de falar sobre o acordo ortográfico. “Abordo questões necessárias ao entendimento da literatura de cordel e recito poesias da minha autoria. Quero mostrar aos alunos que é possível trabalhar qualquer tema no cordel”.

Segundo o poeta, é mais fácil aprender as novas regras da escrita através das rimas de cordel “porque a leitura do cordel é sedutora, lúdica, musical, além de estar inserida num contexto pertinente à realidade deles”.

- Isso acaba seduzindo o aluno. A gente aproxima os alunos da leitura e até de uma compreensão melhor da gramática, que é muita dura, seca - afirma Antonio Barreto.

Pedi a Barreto um exemplo de como o cordel explica as novas regras. Ele recitou o seguinte trecho:

Estamos livres do TREMA
Tudo ficou diferente.
Escreva sagui, sequestro
Cinquenta, frequentemente…
Até a pobre linguiça
Aguenta a tal da preguiça:
Calma e tranquilamente!

- O seu computador vai pedir, mas não coloca a trema não, senão eu tô lascado! E “preguiça” não levava trema não, coloquei aí só de brincadeira - comenta, rindo.

Outro exemplo da aplicação do cordel na educação

Outro exemplo da aplicação do cordel na educação

E quanto tempo você levou para se acostumar com as novas regras? - pergunto.

- Levei pouco tempo porque é um assunto que já venho pesquisando há mais de ano e paquerando a ideia de fazer folheto de cordel. Mas o hábito é tão grande que às vezes no quadro eu me esqueço e coloco o acento em “ideia”. Os jornais me atualizam muito. Por incrível que pareça, todos de Salvador já estão usando as novas regras - diz.

Firme em sua intenção de ajudar as pessoas a escreverem corretamente, o cordelista e professor faz uma crítica à internet no final do folheto:

Barreto lhe deu um toque
Mas agora é a sua vez
Largue o MSN
Como o cordelista fez!
Siga em frente e pesquise
E a todos logo avise:
Melhorei meu Português!

Sem perder tempo, Barreto me explica o que pretendia com os versos.

- Quis fazer uma provocação no finalzinho. A internet tem uma grande função. É um dos aparelhos da modernagem mais interessantes que conheço. Só que é um mecanismo mal utilizado. Meu filho fica 10, 12 horas no msn, escrevendo “oi, minha gata” e daquele jeito: tb, pq, vc… Peço ao aluno que evite bate-papo banal e passe a fazer pesquisas. Eu mesmo pesquisei na internet para fazer esse folheto - argumenta.

Com 53 anos, Antonio Carlos de Oliveira Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, de Santa Bárbara (BA). Professor, poeta e cordelista, declara-se amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente. É graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Já publicou três livros de poesias e mais de 100 folhetos de cordel. “Lá no meu blog tem uma relação, mas está desatualizada”, avisa. Antonio Barreto também compõe canções na temática regional, como toadas, xotes e baiões.

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21 de maio de 2009

Há disputa política por trás de debate sobre orla de Salvador, diz diretor do Iphan

Carlos Amorim foi estagiário do IPHAN há 25 anos. Desde novembro do ano passado, retornou como diretor do Instituto para a Bahia.

Nas linhas abaixo, Amorim entra na polêmica do decreto do Prefeito João Henrique (PMDB), que declarou como utilidade pública para fins de desapropriação, uma faixa de 324 mil metros na orla interna da capital baiana, sem divulgar projeto oficial.

Leia também:
» O que você acha das desapropriações em Salvador? Opine aqui

» Peres: “Direção-geral do Iphan deveria ser ouvida”

Esse ato gerou desconfiança em políticos, historiadores, arquitetos, urbanistas e pesquisadores de planejamento urbano. Até mesmo o governador emitiu sua opinião, considerando o decreto “estranho”.

A falta do projeto para a intervenção - prometido para outubro - e a “participação voluntária” de arquitetos e empresários tem ampliado a desconfiança sobre o que virá após o decreto. “Quem vai financiar a novidade?”, pergunta o historiador Antonio Guerreiro de Freitas.

Diante de toda essa polêmica, o diretor regional emite uma opinião surpreendentemente otimista em relação à eventual intervenção, descartando completamente o surgimento de “uma nova Copacabana” na Cidade Baixa.

Questionado a respeito de atitudes recentes do governo municipal, como o projeto embargado de edificação de construções de alvenaria nas praias e medidas controversas, em especial o novo plano diretor urbano, o diretor do IPHAN argumenta que houve uma “mudança de conceito” na prefeitura de João Henrique.

Amorim revela que existe um contato próximo entre o IPHAN e a prefeitura de Salvador desde final do ano passado, com alto grau de entendimento entre as partes.

Revela também saber apenas informalmente das intenções da prefeitura para a área, ainda que o Secretário de Desenvolvimento Urbano da Cidade, Antonio Abreu, tenha dito a Terra Magazine que, na ausência de capacidade institucional, a prefeitura recorre ao órgão federal para refletir sobre o seu patrimônio histórico. “A estrutura é do IPHAN”, disse Abreu na entrevista.

Mesmo que tenha uma visão mais otimista da intervenção pública na grande faixa de orla interna da cidade, o diretor do IPHAN também alerta que o órgão está preparado e tem meios para evitar danos ao patrimônio histórico da cidade. “Nós vamos exercer plenamente as nossas atribuições. O IPHAN vai se manifestar caso exista algo com que não concordemos”, enfatiza.

Confira a íntegra da entrevista.

Qual a sua opinião sobre o decreto de utilidade pública, para fins de desapropriação, de uma área de 324 mil metros quadrados na orla da Cidade Baixa, em Salvador, assinado pelo prefeito João Henrique (PMDB)? O IPHAN foi comunicado ou consultado a respeito?

Isso é um ato unilateral. O prefeito não precisa comunicar a nenhuma outra autoridade que vai decretar a utilidade pública de imóveis. Além disso, o decreto só inclui bens privados. Não há nenhum bem tombado envolvido. Acho que na verdade existe uma disputa política por trás dessa discussão. É ato totalmente cabível, dentro das atribuições da prefeitura.

Então não houve mesmo nenhum tipo de comunicação prévia ao IPHAN?

Não houve nenhum aviso formal. O secretário, por cortesia, me informou sobre o decreto. Existe uma mesa multilateral de negociações, o ETELF (Escritório Técnico de Licenciamento e Fiscalização), que reúne prefeitura (Secretaria de Desenvolvimento urbano), IPAC [instituto de estadual de patrimônio] e IPHAN. Nós nos encontramos regularmente e temos tomado frequentemente posições acordadas, coordenadamente.

Vocês trabalham em conjunto?

A imprensa não noticia ações importantes feitas pelo IPHAN em conjunto com a prefeitura e o Estado. Veja a Ladeira da Barra. Lá seria construído um prédio que tinha umas 80, 100 piscinas. Nesse caso, o prefeito foi convencido e tomou uma atitude impedindo também a construção. Nós realizamos ações diferentes, que confluíram.

Também houve o parecer vinculado que declarou as praias áreas não edificáveis. Como ocupar a faixa de areia se em Salvador ela não é nem tão extensa quanto no Rio, por exemplo? As pessoas vão às praias, e não às barracas de praia. Em Fortaleza, todas as barracas foram retiradas recentemente.

Mas você não acha que isso é inconsistente, logo que foi a própria prefeitura, na primeira gestão, que levou a cabo o projeto das barracas de praia de alvenaria, deixando esse caos nas praias da cidade? Isso sem falar no PDDU [Plano Diretor Urbano]…

Acho que houve uma mudança de conceito na prefeitura. Agora tem um bom jurista, Edvaldo Britto; um secretário de desenvolvimento urbano aberto ao diálogo… Acredito que (pelo menos desde que vim para o IPHAN, em novembro de 2008) certas coisas foram revistas.

Voltando à Cidade Baixa e à desapropriação, o IPHAN já teve acesso, mesmo que informalmente, a algum projeto da prefeitura para a área?

Nem sei se já existe um projeto para a área. Nunca vi. Como também nunca vi o projeto da nova Fonte Nova… [principal estádio de Salvador, que pertence ao governo do Estado e será reformado para a copa do mundo].

Mas algum algum conhecimento sobre os planos você tem, não?

Já conversamos sobre isso, mas apenas informalmente. O secretário me disse que a prefeitura pretende fazer uso público da área. Dar visibilidade e construir um acesso à praia, que - pelo que eles dizem - tem boas condições de balneabilidade.

Não examinei propriamente o decreto, mas o prefeito não deverá fazer nenhuma intervenção que prejudique a visão dos bens tombados na região (nessa área, há, por exemplo, um conjunto espetacular, que é o conjunto do Monte Serrat).

A área não poderá sofrer qualquer intervenção sem consultar o IPHAN. E nós vamos exercer plenamente as nossas atribuições. O IPHAN vai se manifestar caso exista algo com que não concordemos.

Então, o senhor descarta a construção de prédios elevados naquela área? Descarta uma nova Copacabana ali?

Eu descarto completamente uma nova Copacabana na Cidade Baixa. Até pela vizinhança dos bens tombados, isso seria impossível.

O que existe, o que vem acontecendo é um processo de substituição. Todo mundo sabe que a parte mais bonita de Salvador é o sua orla interna. Então, as quadras da praia devem ter a sua ocupação racionalizada.

Mas você não acha complicado fazer isso tudo sem um debate público?

Toda discussão que diz respeito à cidade deve ser legitimada em fóruns públicos. É preciso que haja espaço para o diálogo - audiências públicas ou outro formato.

Mas acho que os gestores devem ter preservada a sua capacidade de decidir. Eles são e vão ser, inclusive, responsabilizados judicialmente por essas decisões.

Ainda não existe essa legislação soviete no Brasil, que o gestor tem que fazer o que o povo decidir. Temos um das melhores democracias do mundo. E uma estrutura representativa bastante atuante. Nenhuma comunidade é dona de um pedaço da cidade. A cidade pertence a toda a sociedade. A cidade não é uma coleção de gavetinhas. Temos que nos acostumar com isso.

Mas e a relação identidade da população com o local em que vive?

Especificamente o caso da Península de Itapagipe é uma das regiões da cidade em que a população tem mais relação de pertencimento, mais identidade com o lugar em que vive, mais relação com a sua territorialidade. Isso demanda sensibilidade, de uma atenção especial.

Isso me lembra que a área em questão tem também um significado especial para a história e a cultura da cidade. Toda a comunicação com o seu entorno, que era feita por ali.

Sim, claro. Até hoje, Salvador não consegue dialogar com a sua região metropolitana. É uma das capitais que menos se comunicam com o seu entorno. Inclusive com a região metropolitana cultural: Itaparica, Santo Amaro, Cachoeira, todo o Recôncavo. Salvador está perdendo a relação com a cultura metropolitana, veja o caso dos saveiros.

Talvez essa [o debate sobre a reurbanização da Cidade Baixa] seja uma oportunidade para a classe média possa de novo dialogar com a cultura metropolitana, dialogar com as suas raízes.

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