Terra Magazine

30 de agosto de 2009

SP: Caminhada e sarau evidenciam drama de 2 mil desabrigados no Capão Redondo

Neste domingo, um grupo de artistas realiza um ato cultural em apoio às famílias da favela Parque do Engenho, no Capão Redondo, que perderam seus pertences e moradias por conta de uma ação de reintegração de posse.

Às 15h, uma caminhada com direito à poesias, músicas, faixas, alfaias, tambores e outros instrumentos sai da Estação de Metrô Capão Redondo, em direção ao Parque do Engenho.

Chegando ao destino, o grupo de artistas e simpatizantes da causa das famílias retiradas da ocupação realiza um sarau.

Junto com os instrumentos e o carinho, comidas e roupas são doadas aos desabrigadas. “Vamo fazê barulho!!!”, diz o convite do evento.

Entenda o caso

Na segunda-feira, dia 24/8, usando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, a Polícia Militar de São Paulo cumpriu reintegração de posse de um terreno de 14km2 da Viação Campo Limpo, ocupado há dois anos. O terreno em questão estava ocioso havia mais de 20 anos.

Mesmo alertada da falta de alternativas das famílias, a Justiça negou garantir a inserção das famílias em programas habitacionais antes do despejo e expediu o mandato para cumprimento da reintegração de posse.

Terreno era ocupado por duas mil pessoas, sendo 300 crianças

Terreno em questão era ocupado por duas mil pessoas

Cerca de duas mil pessoas, das quais aproximadamente 300 são crianças, ocupavam 800 barracos no local. Desalojadas, estão hoje acampadas nas calçadas.

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo ainda tentou uma liminar para que a área fosse destinada à habitação de interesse social, argumentando que o terreno estava desocupado há mais de 20 anos, servia de depósito de lixo e era constantemente usado para estupros.

Argumentava ainda que a área reintegrada é uma Zona Especial de Interesse Social 2, o que de acordo com o Plano Diretor de São Paulo, significaria que é inutilizada e deveria servir para a construção de moradias populares. A liminar, entretanto, foi negada pela 6ª Vara de Fazenda Pública.

(fotos: jovens do IPJ - Instituto Pe. Josimo)

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17 de abril de 2009

Sarau Poético leva índios a SP, que declamam em línguas nativas

Já se imaginou ouvindo as mais diversas línguas nativas brasileiras, em textos declamados pelos próprios representantes de cada etnia?

O I Sarau das Poéticas Indígenas pretende dar uma amostra viva do enorme universo da literatura indígena brasileira, desconhecida da maioria do público do país.

O Sarau acontece no dia 19 de abril, das 15 às 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37, São Paulo) e tem entrada gratuita. Reúne índios aldeados, escritores indígenas e indianistas. Todos com o mesmo objetivo: compartilhar sua perspectiva do encantamento com a palavra e suas possibilidades.

- Há uma enorme lacuna no universo literário brasileiro, que é a literatura indígena. É uma incrível riqueza lingüística e o Brasil não conhece essa produção. Queremos chamar atenção para a pontinha do iceberg, colocar uma isca para as pessoas procurarem saber mais - comenta a antropóloga Deborah Goldemberg, curadora do evento.

Blogueiro, Ol�vio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

Blogueiro, Olívio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

A antropóloga explica que este não é um Sarau tradicional - afinal, não dá para esperar que os povos indígenas tenham a mesma relação com a palavra que o “homem branco ocidental”.

- Estamos trabalhando com diversas formas de expressão desse encantamento com a palavra. No Sarau vai ter a declamação tradicional de poemas; trova; contação de histórias; palestra entremeada com textos de prosa; transcrição de cânticos; dança e encenação teatral - descreve.

Um dos “orgulhos” da organização do Sarau é a presença dos índios Pataxó, do sul da Bahia, povo que travou o primeiro contato com os portugueses. Zé Fragoso, escritor indígena e cacique da Aldeia Tibá (Prado, BA) vai ao evento acompanhado de Manoel Santana, contador de histórias da Aldeia Boca da Mata (Itamaraju, BA).

Deborah Goldemberg cita ainda a presença dos Guarani. “Eles não fazem distinção entre arte e vida. A forma como se alimentam, se vestem - todo o seu cotidiano é arte”, diz.

"precisamos de mais contato com o �ndio contemporâneo"

Goldemberg: "precisamos de mais contato com o índio contemporâneo"

É importante ressaltar que muitos escritores indígenas não apenas trabalham com a língua portuguesa, como observam os aspectos formais da poesia. Os escritores Olívio Jekupe e Eliane Potiguara, por exemplo, possuem inclusive blogs. Não faz muito tempo, Potiguara chegou a organizar um e-book indígena (o link é de um arquivo executável, mas pode abrir sem medo).

Para a curadora do Sarau, o Brasil tem que superar a dualidade com que vê a figura do índio: ou a visão romantizada do “bom selvagem” ou a visão degradada que remete à barbárie e á ameaça à civilização.

- Temos que ter mais espaços de contatos com o índio contemporâneo. O índio que aparece nos livros de escola é o índio de 500 anos atrás. O contato seguinte das pessoas com os índios é feito pela mídia, que os retrata como incapazes, alcoólatras e, mais recentemente, “comedores de gente” - reivindica.

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book ind�gena

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book indígena

No Sarau também serão declamadas obras de escritores que abordam a temática indígena. Entre eles, Gonçalves Dias, José de Alencar, Sousândrade, Raul Bopp, Oswald de Andrade e Mario de Andrade.

Da literatura contemporânea vem uma das estrelas do Sarau, o paraguaio Douglas Diegues. Diegues vive na fronteira entre o Brasil e o país vizinho e auto-denomina sua obra como Portunhol Selvagem - um misto de português, espanhol e guarani.

Pergunto à curadora se qualquer um conseguiria entender os textos de Douglas Diegues.

- Tem que fazer um esforçozinho, mas não é tão diferente, por exemplo, se você for ler Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa). Toda literatura que inova tem aquele desconforto no início. Mas a obra de Diegues é quase uma volta às origens, quando a língua geral era a língua mais utilizada no Brasil - diz.

Além das declamações - que ocorrem no grande salão com espaço para 300 pessoas da Casa das Rosas - vai haver no local uma feira de artesanato indígena e outras, de livros. “Todas as editoras que publicam literatura indígena, pelo menos todas as de São Paulo, estarão lá”, garante Deborah Goldemberg.

O Sarau também vai ser tema de dois programas da TV Cultura, o Entrelinhas e o A’Wue.

(fotos: divulgação)

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