Terra Magazine

23 de outubro de 2009

SP: Trupe realiza mostra de arte dentro de um ônibus

Já imaginou pegar a condução, igualzinho a todo dia, e descobrir que está no meio de uma peça de teatro? Ou de um espetáculo de dança?

É isso que vai acontecer com os passageiros do ônibus no trajeto Terminal Sacomã - Terminal Mercado do Expresso Tiradentes, na capital paulista, entre os dias 25 e 28 de outubro. Seguindo o trajeto normal da linha, um ônibus oferece à “platéia de passagem” intervenções de teatro, dança, música e artes visuais, sempre das 10 às 13h.

Idealizada pela Trupe Sinhá Zózima, a mostra Arte Expressa deve ser vista por 6300 moradores da capital paulista. Segundo a própria Trupe, essa é a “primeira mostra de artes dentro do transporte público no município de São Paulo”. Confira a programação.

- O Público está ali para se locomover. Não sabe que naquele dia ele vai se deparar com esse tipo de arte. E não é um ônibus adaptado. A única diferença são as placas no teto de feitas pelos artistas plásticos. Daí um grupo entra e se apresenta, com passageiro, cobrador, motorista. Como um dia qualquer - explica o ator Anderson Maurício, um dos membros da Sinhá Zózima.

Para realizar a mostra, a Trupe conseguiu que uma empresa de transportes disponibilizasse um veículo a mais para a linha. “Também não obrigamos os passageiros a entrar; se quiserem, podem pegar o ônibus normal”, comenta Anderson.

- O nosso desafio é experimentar o espaço e levar a arte para outros lugares. Há Espaço ocioso e é o nosso trabalho mostrar que a arte pode se manifestar em todo lugar - completa o membro da Trupe.

O encerramento da mostra Arte Expressa fica por conta de uma exposição fotográfica no Terminal Mercado, entre 14 e 21 de novembro. As fotos registram os espetáculos e dividem os melhores momentos da mostra, além, claro de despertas a curiosidade de quem não teve a oportunidade de embarcar com o grupo.

A ousadia da iniciativa é consequência de uma pesquisa que a Trupe Sinhá Zózima vem desenvolvendo desde abril de 2007, quando os membros do grupo entraram pela primeira vez num ônibus, em Ubatuba, apresentando cenas, canções e intervenções artísticas.

Atualmente, o grupo teatral tem dois espetáculos que utilizam ônibus: “Cordel do Amor Sem Fim” e “Valsa no. 6″. Enquanto no primeiro a platéia realmente embarca numa viagem teatral com o ônibus em movimento, no segundo os atores apresentam-se com o veículo parado. “Isso gera uma angústia enorme do público, que fica na expectativa do ônibus andar”, conta Anderson Maurício.

Em cada montagem, o ônibus recebe um significado, e a interação com este espaço só é plena após a estréia, pois o público-passageiro é peça fundamental para ditar o ritmo e desenrolar da movimentação e interação entre o ônibus e as personagens do espetáculo. “O grau de improvisação é enorme”, diz Anderson Maurício.

Certa feita, quando a Trupe apresentava o “Cordel do Amor Sem Fim” em pleno engarrafamento de São Paulo, os atores perceberam que um grupo de crianças de rua acompanhava o espetáculo pelo lado de fora.

- Foi muito bonito. Ali a gente percebeu que espetáculo também acontecia fora do ônibus. Por mais que passe rápido, as pessoas nos pontos de ônibus notam a intervenção. No mínimo, pensam: “Pôxa, gostaria de pegar esse ônibus”. Acordamos um pouco e percebemos que o espetáculo atinge um público muito maior - argumenta Anderson Maurício.

E você, topa embarcar nesse ônibus?

(foto: Danilo Dantas/Divulgação)

Blogs que citam este Post

29 de setembro de 2009

SP: “Dom Quixote” é encenado em duas línguas, por 15 grupos de teatro de 10 países latinos

Um Dom Quixote como nunca se viu antes. Nesta quinta-feira, dia 1º de outubro, às 20h, o Sesc Pompéia (São Paulo) recebe a montagem mais diferente já realizada a partir da obra clássica de Miguel de Cervantes.

Quinze grupos de teatro de 10 países da América Latina e Caribe apresentam o espetáculo em conjunto, mobilizando mais de 100 profissionais, entre técnicos e atores.

O texto que une essa verdadeira babel latina é a peça “El Quijote”, do colombiano Santiago García, de 80 anos - 43 deles à frente do Grupo Teatro La Candelaria.

A montagem no Brasil, que mantém a grafia original em espanhol, tem como diretor de cena César Badillo Perez, ator vinculado ao Teatro La Candelaria e que há exatamente uma década interpreta o papel-título de Quixote na montagem colombiana de Santiago García.

“Ele manja até o pensamento do Quixote. Sabe a hora que o Quixote peida”, brinca Adriano Mauriz, ator do Instituto Pombas Urbanas, que administra o Centro Cultural Arte em Construção.

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

A montagem pode ser vista gratuitamente no Centro Cultural Arte em Construção, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo (ensaio aberto no dia 30/9 e apresentação dia 3/10) e no Sesc Pompéia, nos dias 1º e 2 de outubro (sendo que no dia 2/10 a sessão é fechada para o II Congresso de Cultura Iberoamericana).

Desde o dia 15 de setembro, os grupos teatrais participam de uma residência artística no Centro Cultural Arte em Construção. Durante esse período, tentam dar uma unidade aos 12 quadros da montagem, que ensaiam em separado há quatro meses.

Os grupos que participam do espetáculo são: La Comedia de Campana (Argentina), Teatro Trono e Compa (Bolívia), Pombas Urbanas/SP e Entrou por uma Porta/RJ (Brasil), Coletivo Teatral Antu (Chile), Teatro Tespys Corporación Cultural (Colômbia), Teatro Andante e Teatro de Los Elementos (Cuba), Tiempos Nuevos Teatro (El Salvador), Caja Lúdica (Guatemala), Compañía Teatral Carlos Ancira (México) e Vichama Teatro (Peru).

- No primeiro dia fiquei com dor de cabeça com 100 pessoas falando em espanhol. Agora, quando eu ando no metrô, ouço português, mas acho que estão falando em espanhol. Tem hora que preciso ligar a tecla SAP. Mas a gente até um lema: “minha pátria é o teatro”. O teatro nos une. No palco a gente se entende completamente - conta Adriano Mauriz.

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

A interculturalidade explícita da proposta - algumas cenas são faladas em português e espanhol - resulta em reinterpretações completamente originais da obra de Cervantes.

Um grupo peruano, por exemplo, transforma o encontro do cavaleiro da triste figura com o mago Merlin no encontro com um xamã - “um senhor que usa folhinhas de coca e aguardente para fazer adivinhações”, explicao ator do Pombas Urbanas.

Já um coletivo da Guatemala introduz no texto a lenda de uma rainha maia no lugar de uma outra história contada a Quixote (”mas essa é a única mudança de texto; o resto respeita o original de Santiago García”, alerta Mauriz). Assim, a história do cavaleiro andante que enfrenta moinhos de vento acaba ganhando as cores vibrantes da América Latina.

- O Dom Quixote é um cara que acredita num sonho. Como nós - resume Adriano Mauriz.

Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade

O sonho a que se refere Mauriz é, entre outras coisas, a criação da Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade, elemento que motivou a reunião de tantos grupos teatrais na periferia da capital paulista capital paulista.

- Tem vários caras que vêm fazendo a mesma coisa na América Latina e estão se encontrando para fazer a rede. É muita tecnologia. Tem gente que trabalha onde havia minas de carvão; em favelas; tem um pessoal que acabou de sair de uma guerra e por aí vai. A gente se encontrou por se reconhecer um no outro - explica Adriano Mauriz.

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Jorge Bladón, diretor da Corporación Cultural Nuestra Gente, de Medellín (Colômbia), explica que o diferencial da nova rede a ter como foco um tipo de teatro com raízes num no território, que envolve a comunidade onde se localiza.

- Nesse encontro, estamos discutindo o conceito de comunidade. Porque, claro, para o conceito de teatro não há discussão. Temos que democratizar o acesso ao teatro e possibilitar que as pessoas sintam a arte como um direito cultural seu - comenta.

Bladón destaca a importância deste tipo de iniciativa para que as comunidades nos diversos países reconheçam o sentimento de pertença, o valor da memória e da identificação com suas raízes culturais.

- O grupo Catalinas Sur, da Argentina, faz o que chamam de “teatro de vecinos [vizinhos]” e realizam espetáculos com 60, 100 pessoas, com todo mundo que mora no bairro - completa Adriano Mauriz.

Segundo ambos os artistas, a Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade vai permitir o intercâmbio de tecnologias desses grupos que compartilham esse mesmo ideal, de transformação social e envolvimento da população aliados à qualidade estética da linguagem cênica.

- Podemos multiplicar as boas experiências que algumas têm em outros países, como a política de pontos de cultura, que começa a ser discutida no Parlamento Mercosul e deverá ter incidência em toda América Latina - diz Jorge Bladón.

O colombiano lembra ainda que a rede será um espaço de formação e trocas interculturais para os atores e diretores e beneficiará também as comunidades, normalmente pouco observadas por seus respectivos governos.

- Vamos a uma padaria e nos perguntam o que estamos fazendo aqui. Ao mesmo tempo em, que nos embolamos com língua para responder, temos a capacidade de encontrar nos olhos deles as palavras corretas. Esse intercâmbio é um ato de amor - declara-se Bladón.

(fotos: Instituto Pombas Urbanas/ Divulgação)

Blogs que citam este Post

24 de setembro de 2009

MG: Objetos comuns viram personagens de teatro em festival

Imagine assistir a uma peça de teatro em que os personagens principais são com torneiras, regadores, peneiras ou tampinhas de refrigerante.

Absurdo? Nem tanto. E para provar que não, começa hoje e vai até o dia 27, na Serraria Souza Pinto (Belo Horizonte), o I Festival Internacional de Teatro de Objetos - FITO 2009.

Um tanto diferente e inusitado, o teatro de objetos é, ainda, um segmento quase inexistente no Brasil. Em países como França, Alemanha, Estados Unidos, Hungria, Espanha e Itália, entretanto, o teatro de objetos já é bastante difundido.

Nele, busca-se dar alma a objetos em princípio vazios de vida e expressão, tornando-os grandes personagens do espetáculo.

Segundo a curadora do Festival, a chilena Sandra Vargas, do grupo Sobrevento (São Paulo), nesse tipo de teatro, o ator é um narrador e não o artista principal da trama.

As possibilidades são tão extensas quanto inteligentes. Tudo depende da imaginação dos artistas e da sua capacidade em “convencer” o público da “vitalidade” dos objetos em cena, sejam eles um sapato ou pedaços de ferro retorcidos.

os primeiros registros do teatro de objetos como gênero distinto dos demais são do início dos anos de 1970, quando três companhias francesas se reuniram para a criação do espetáculo Pequenos Suicídios.

Todas as companhias que participam do FITO 2009 atuam especificamente com esta modalidade e não apenas com inserções de objetos.

Está é a primeira vez que o Brasil recebe um festival exclusivamente de teatro de objetos. Até agora, quando algum espetáculo desse segmento aparecia, ou estava dentro de uma programação de teatro tradicional ou de teatro de bonecos.

Gratuito, o Festival leva a Belo Horizonte 12 espetáculos e nove companhias: Trecos e Cacarecos, Truks e Teatro de La Plaza (Brasil); Fernan Cardama (Argentina), La Chana Teatro (Espanha), La Voce Delle Cose (Itália) e La Balestra (França). Confira a programação.

Os espetáculos começam a ser apresentados a partir das 16h. Na chegada, o público será recebido por uma banda de música, seguida de desfile de diversos objetos gigantes, como mouse de computador, par de tênis, isqueiro, camiseta, entre outros.

(fotos: FITO 2009/ divulgação)

Blogs que citam este Post

15 de setembro de 2009

BA: Festival “apresenta” o teatro a centenas de pessoas no subúrbio

“Olha eu vou fazer um chute ‘quase certo’: 80% dessas pessoas estão vindo ao teatro pela primeira vez”. A declaração acima é do ator e produtor Jorge Ravinny, responsável pela coordenação geral do I Festival de Teatro do Subúrbio.

Acontecimento cultural inédito no Subúrbio Ferroviário de Salvador, o Festival de Teatro começou no dia 11 e vai até o próximo domingo (20/9).

Com mais de 750 mil habitantes, o Subúrbio Ferroviário é uma das regiões mais populosas da capital baiana. È também uma das mais pobres e menos assistidas por equipamentos e políticas culturais.

“Esse teatro que estamos usando para o Festival, o Centro Cultural de Plataforma, ficou fechado por 19 anos! Toda uma geração daqui do bairro que hoje tem 19, 20 anos nunca viu teatro”, explica Jorge Ravinny.

O Bando de Teatro Olodum foi um dos grupos convidados para o Festival

O Bando de Teatro Olodum foi um dos grupos convidados para o Festival

Para participar da programação cultural onde ela geralmente ocorre, na zona central da cidade, os habitantes do Subúrbio têm que gastar um dinheiro extra - que muitas vezes não existe - com locomoção. Além disso, têm que enfrentar a violência urbana na volta para casa, o que frequentemente desestimula essa opção de lazer.

Pronto. Está desenhado o quadro que devemos ter em mente ao encarar a declaração do coordenador geral na abertura deste post. Será possível sequer dimensionar o impacto que conhecer uma arte como o teatro pode ter na vida de tantas pessoas?

Casa cheia todos os dias - e gente esperando do lado de fora.

Casa cheia todos os dias - e gente esperando do lado de fora.

Felizmente, o Festival é um sucesso. “Na abertura tivemos gente do lado de fora, ontem tivemos gente do lado de fora, as pessoas querem participar, querem assistir. Basta que as coisas aconteçam”, argumenta Ravinny.

São 10 dias, 12 espetáculos, 12 grupos (quatro convidados e os outros do próprio Subúrbio) e mais 300 artistas envolvidos, além de 40 horas de oficinas artísticas na programação.

O esgotamento das sessões iniciais e o burburinho que o evento está causando já autorizam a organização a confirmar a expectativa de mobilizar quatro mil pessoas para assistir as montagens, espetáculos de rua, palestras e oficinas.

- É o que a gente quer: que o festival seja um marco na história da produção cultural local. Queremos que haja um “antes” e um “depois” do Festival de Teatro do Subúrbio - diz, sem muita modéstia, o coordenador do evento.

Teatro Negro

O I Festival de Teatro do Subúrbio também chama atenção pelo tema escolhido para perpassar todas as suas atividades: o teatro negro.

Menciono, durante a entrevista com Jorge Ravinny, que este poderia ser um tema polêmico. “Não é não. Por quê falar de negro é um tema polêmico?”, questiona o artista.

O tema do primeiro ano do Festival foi "Teatro Negro".

O tema do primeiro ano do Festival foi "Teatro Negro".

Para ele, “teatro negro” é o teatro que tematiza as questões do povo negro e pode, sim, ser feito também por pessoas brancas. “Desde que não fale mal do negro, porque aí vai ser um teatro racista. O negro construiu o Brasil. Trabalhou e trabalha muito por esse país”, afirma.

O Festival de Teatro, portanto, além de apresentar a arte teatral à população suburbana, faz um convite para que ela discuta a sua própria negritude, constantemente negada ou esquecida.

- Quer provocar na uma reação população que muitas vezes não se auto-identifica como negra. O evento quer falar das pessoas que moram no subúrbio e 90% delas são negros. A gente quer falar dessa população, Senão não adianta nada, não tem sentido. Sou negro, tenho mãe negra, pai negro e participo de um grupo de teatro negro. Então considero minha obrigação valorizar a cultura negra e cuidar da minha população - afirma, taxativo, Jorge Ravinny.

(fotos: divulgação [1]; Márcio Lima [2]; Camila Souza [3]; Alberto Lima [4])

Blogs que citam este Post

26 de agosto de 2009

Maior Festival de Teatro de SP acontece na periferia

Amanhã começa o IV Festival Nacional de Teatro do Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo. E é justamente nesse bairro fortemente dividido, onde favelas e conjuntos populares ficam lado a lado com condomínios de classe média e média alta, que acontece o maior festival de teatro do Estado de São Paulo.

“É o maior festival do Estado de São Paulo”, garante Luciano Santiago, coordenador responsável pelo Festcal, em entrevista ao site Catraca Livre.

Santiago ainda afirma que as companhias que fazem parte do festival têm uma proposta de pesquisa continuada e “estão preocupados em saber como a obra apresentada chegará para as pessoas, por isso, estudam movimentos sociais, culturais e teatrais”.

Idealizado pela Trupe Artimanha e realizado pela primeira vez em 2006, com a participação de 11 grupos, o Festival vem crescendo ano a ano. Na quarta edição, apresentam-se 39 grupos de 15 cidades e seis estados brasileiros, além do distrito federal.

Completamente gratuito, o Festcal dura 12 dias (27 de agosto a 7 de setembro). As apresentações ocorrem em seis espaços distintos: os CEUs (Centros Educacionais Unificados) Casablanca, Paraisópolis e Cantos do Amanhecer; o Centro Cultural Monte Azul; o Espaço Artemanha de Teatro e a Praça do Campo Limpo, onde acontece a mostra de teatro de rua (5, 6 e 7 de setembro).

Além das apresentações, a programação do Festcal também inclui oficinas e debates.

Em 2009, a novidade do Festival são os “Encontrões Noturnos”, um momento para conhecer trabalhos em processo de experimentação, performances e cenas curtas. Nove coletivos participam dos Encontrões, que são realizados no Espaço Artemanha de Teatro, sempre às 23h.

Nos dias de encerramento (6 e 7 de setembro), as noites terminam com a apresentação de poetas no Sarau Exepedición Dondes Miras e de dois grupos musicais da região: Velha Guarda do Helga e a Banda Preto Soul.

(foto: divulgação)

Blogs que citam este Post

19 de agosto de 2009

GO: Festival celebra 120 anos de Cora Coralina

A região cento-oeste festeja hoje a sua maior poetisa. Às 19h, no museu Casa de Cora Coralina, acontece a abertura oficial do Festival Cora Viva Coralina, que vai até o dia 23 de agosto.

A miríade de atrações presente no Festival sugere o alcance da poesia da escritora goiana. Além da esperada declamação de poemas, a Cidade de Goiás ganha roteiros Poético e Gastronômico, alvorada festiva, exposição fotográfica, debate acadêmico, desfile de moda, exibição de vídeos, shows e espetáculos teatrais inspirados na obra de Cora Coralina.

- A cidade inteira está mobilizada para o Festival. Cora viva dizendo que era a geração vindoura que iria entender o significado de sua obra. Ela pensou que a palavra dela seria para o futuro. A semente está florescendo - diz Marlene Vellasco, presidente da Associação Casa de Cora Coralina, que gerencia o museu da poetisa.

Dentre os destaques da programação, estão uma visita pelo Museu Casa de Cora Coralina, guiada e “cantada” pelo músico Daniel Melo, com a apresentação de poemas da escritora; o espetáculo Cora Coralina, Coração Encarnado, eleito pela crítica de O GLOBO como um dos dez melhores espetáculos do ano de 2006; e um show especial de Zeca Baleiro, intitulado: “Minha Cora, minha Coralina, mais de um Goiás de amor carrego, destino de violeiro cego”.

Unindo os dois maiores prazeres de Cora Coralina, escrever e cozinhar, o Festival também promove um recital de poemas aliado à degustação de doces e um roteiro gastronômico que enfatiza comidas da infância de Cor, quando ela ainda vivia na Fazenda Paraíso, como frango caipira e comida de tropeiros. O roteiro gastronômico se permite ainda algumas inovações inspiradas na culinária da época, como a peculiar pizza de pequi.

A poetisa tinha para si que seu maior dom era o de doceira. “A senhora é uma artista, admirável em sua arte, a mais nobre das artes, a da culinária”, disse-lhe em certa ocasião Jorge Amado.

Poesia e culinária eram as duas grandes paixões de Cora Coralina

Poesia e culinária eram as duas grandes paixões de Cora Coralina

O Festival Cora Viva Coralina comemora, ainda, o Dia do Vizinho, criado pela própria escritora em 1980.

- Cora morou a vida inteira fora de Goiás. Ela dizia que o vizinho é pessoa mais próxima que se tem. Fez inclusive um poema falando sobre isso. Ela dizia sempre que queria que o dia de seu aniversário, diz 20 de agosto, fosse encarado como um dia de confraternização, de partilha com o próximo. Criou então o Dia do Vizinho - explica Marlene Vellasco.

Desde então, a Cidade de Goiás celebra a data. Em 1982, transformou-se em Lei Municipal. Uma grande mesa é montada na porta da igreja e a prefeitura oferece um grande bolo à população. “Mas todos os vizinhos também levam bolos. A cidade inteira espera Dia do Vizinho”, conta Vellasco.

O Festival termina neste domingo na Cidade de Goiás, mas os poemas de Cora Coralina voltam a estar em destaque no dia 28 de setembro, em São Paulo, quando será aberta a exposição Cora Coralina Coração do Brasil, com cenografia de Daniela Thomas, no Museu da Língua Portuguesa.

Até hoje, apenas quatro outros escritores brasileiros ocuparam a sala principal do Museu da Língua Portuguesa: Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Machado de Assis.

A vida começa aos 50

Considerada uma das maiores poetisas de Língua Portuguesa do século XX, Cora Coralina nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto, em 20 de agosto de 1889, na Cidade de Goiás.

Aos 14 anos, escreveu seus primeiros contos e poemas. Em 1910, aos 21 anos de idade, quando publicou o conto Tragédia na Roça, publicado no Anuário Geográfico e Histórico, passou a ser conhecida pseudônimo Cora Coralina, que usaria para o resto da vida.

Para Cora, uma mulher a partir dos 50 anos é uma "mulher liberta"

Para Cora, uma mulher a partir dos 50 anos é uma "mulher liberta"

Após um longo período morando em São Paulo, volta a Goiás e à literatura nos anos 50. “Ela dizia que tinha um porãozinho dentro da cabeça. Quando voltou a Goiás, passou a produzir a maior parte de sua literatura”, conta Marlene Vellasco.

Curiosamente, a escritora costumava dizer que uma mulher se liberta quando completa 50 anos. “Ela dizia que, aos 50, já criou filho e neto e vive própria vida, é uma mulher liberta. Aos 70, pode dizer e viver tudo que quiser”, lembra Marlene.

Publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, somente em 1965, aos 76 anos. Alguns anos mais tarde, ao ter sua poesia conhecida e receber elogios de Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina passou a ser admirada por todo o Brasil.

Em 1983, dois anos antes de sua morte, foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores.

Blogs que citam este Post

3 de março de 2009

Público escolhe o valor do ingresso em teatros de Salvador

Dois teatros da capital baiana, o Vila Velha e o Gamboa Nova, lançam uma iniciativa diferente para atrair o público em março, o mês internacional do teatro e do circo: o público vai escolher o valor a ser pago pelo ingresso.

- Queremos dar a possibilidade do público pagar uma quantia que ele ache justa. É também uma formar de nós sabermos como o público avalia a obra de arte, o espetáculo que estamos oferecendo - dia Maurício Assunção, diretor do Teatro Gamboa Nova.

Enquanto no Gamboa Nova a campanha Pague Quanto Quiser (PQQ) ocorre nos espetáculos das quartas-feiras, no Teatro Vila Velha ela é válida em dias e espetáculos variados.

- Estamos fazendo uma experiência. Queremos provocar o público para vir ao teatro, seja pela possibilidade de pagar o quanto quiser, seja pela curiosidade que a campanha desperta. Se conseguirmos trazer aqui pessoas que nunca vieram ao teatro ou nunca vieram ao Vila Velha, ficarei feliz - retruca Fábio Espírito Santo, diretor do Vila Velha.

"Canteiros de Rosa" foi a primeira peça a ter o valor do ingresso decidido pelo público

"Canteiros de Rosa" foi a primeira peça a ter o valor do ingresso decidido pelo público

A primeira experiência ocorreu já na semana passada, na apresentação do espetáculo “Canteiros de Rosa”, no Vila Velha.

Com pouco mais de metade da lotação, o teatro arrecadou uma média de R$3,64 por pessoa. O ingresso mais barato ficou em R$ 0,05 e o mais caro, R$ 10,00.

Houve ainda quem optasse por quantias curiosas como R$ 3,75, R$ 1,25 e R$ 0,65. Um terço das pessoas pagaram algum valor acima de R$ 5,00.

Os valores pagos mais vezes pelo público foram R$ 4,00 (19 pagantes) e R$ 2,00 (21 pagantes). Vale notar que, na capital baiana, o valor de uma passagem de ônibus é R$ 2,20.

- Foi só um dia. Ainda é muito cedo para avaliar o resultado. A campanha não teve divulgação nenhuma, apesar de já estar no site, no blog e no informativo do teatro. Ainda não atingimos público que queremos: quem não tem o hábito de ir ao Vila - argumenta Espírito Santo.

"Capulanas" é um dos espetáculos do Gamboa Nova que fazem parte da PQQ

"Capulanas" é um dos espetáculos do Gamboa Nova que fazem parte da PQQ

A campanha ainda tem o objetivo de combater a “cultura do convite”, largamente disseminada nas produções teatrais locais.

- A campanha pode vir a criar uma cultura bem bacana: ao invés do convite, o valor livre. Quem sabe isso não pega? A política do convite é muito cruel. As pessoas que recebem ficam lisonjeadas, mas é forma de depreciação do trabalho do artista. Alguém está pagando pelo espetáculo, afinal - afirma Maurício Assunção, do Gamboa Nova.

O diretor do Vila Velha também reclama do convite: “Adquirimos esse péssimo hábito. O convite é um grande mal. Você é capaz de gastar 100 reais de cerveja no bar, mas não vai ao teatro por R$ 10,00.”

“Fazer umas coisas mais loucas”

A idéia da campanha PQQ surgiu no Vila Velha, numa conversa de bebedouro entre Fábio Espírito Santo e Gordo Neto. Pensavam em promoções, formas de provocar tanto o público quanto a mídia. “Pelo que produzimos, consideramos muito pouco o espaço que merecemos nos meios de comunicação”, comente Espírito Santo.

A um dado momento da conversa, Gordo Neto teria dito: “Porra, Espírito, a gente tem que fazer umas coisas mais loucas aqui no Vila. Tipo as pessoas pagarem quanto quiserem”. Dito e feito, ali estava o mote da nova promoção.

No Vila, as peças da PQQ têm horários e dias variados

No Vila, as peças da PQQ têm horários e dias variados

- A campanha também abre a reflexão sobre quanto é que vale a arte. Dez reais é pouco? Vinte reais é muito? É preciso que o público perceba que produção é profissional, envolve profissionais e precisa pagar as contas. O Vila cobra ingressos que considero viáveis. E não tem subsídio para meia, como as empresas de ônibus, por parte da prefeitura. Não sou contra lei da meia entrada, mas quem paga por isso é próprio artista que produz - argumenta Fábio Espírito Santo.

O próprio diretor admite que a idéia não é nova, que algo parecido já foi feito no Rio e em São Paulo “e até pelo Radiohead quando lançou o disco na Internet”, mas avisa: “Queremos é provocar o público”.

Sequestro poético

A proximidade dos teatros (ambos ficam no centro, a cerca de 200m um do outro) e o bom entendimento entre as suas administrações vêm proporcionando várias parcerias entre eles. Já promoveram conjuntamente oficinas de iluminação, ministradas por técnicos do Vila com aulas práticas e oferta de estágios no Gamboa.

O Teatro Gamboa Nova fica a apenas 200m do Vila Velha

O Teatro Gamboa Nova fica a apenas 200m do Vila Velha, o que facilita a parceria

Agora, além da campanha Pague Quanto Quiser, também programam para o mês do teatro e do circo o Seqüestro Poético, uma performance em que artistas “seqüestram” o público para verem os espetáculos do outro teatro, no mesmo horário.

Nesse caso, os “reféns” são muito bem tratados: ganham convites tanto para assistirem o novo espetáculo quanto para voltarem outro dia e conferirem a montagem previamente programada.

“Os teatros precisam trabalhar mais em rede, fazer mais coisas juntos”, afirma Espírito Santo. “Não somos empresas privadas para procurar o público só para a gente”, completa, Assunção, do Gamboa Nova.

(fotos: Begue Figueiredo [1]; Carol Garcia [2]; Guma [3]; Márcio Lima[4] e Juliana de Matos [5])

Blogs que citam este Post

1 de março de 2009

GO: Fim de semana de música, teatro e circo em Pirenópolis

Desde ontem, as praças do centro histórico de Pirenópolis, uma das cidades mais charmosas de Goiás, recebem música, teatro e circo.

Oito espetáculos culturais desenvolvidos por artistas brasilienses e pirenopolinos circulam na cidade nesses dois dias, em várias apresentações, completando mais de 10 horas de entretenimento gratuito.

Esta é a primeira edição do projeto Circularte - realizado pelo Instituto Zabilin, com apoio do Ministério do Turismo -, cujo objetivo é valorizar o turismo cultural.

Entre as atrações, palhaços acrobatas, miniteatro de bonecos, brincadeiras infantis, cantigas de trabalho dos agricultores, shows, aula-espetáculo sobre a história das violas, teatro de cordel e um auto teatral sobre histórias, mitos, lendas de Pirenópolis.

Ainda dá tempo de ver

Embora boa parte das apresentações tenha ocorrido neste sábado e na manhã de hoje, ainda dá tempo de ver algumas. Às 16h, no Alto do Bonfim (Vila Mutirão), são apresentados os espetáculos “O Rapaz da Rabeca e a Moça da Camisinha” (teatro) e “Tome sua Poltrona” (circo), de Brasília, e o “Teatro de Jovens da Escola da Vila”, de Pirenópolis.

“O Rapaz da Rabeca e a Moça da Camisinha” é um espetáculo de rua cuja temática, o uso dos preservativos, é tratada a partir de um divertido teatro de cordel. Ao final da apresentação, são distribuídas camisinhas para o público.

Já o espetáculo circense “Tome sua Poltrona” mostra dois palhaços acrobatas, que dançam manipulando objetos e fazem números de magia cômica. Dirigido por Denis Camargo, com atuação de Érika Mesquita e Atawallpa Coello, o espetáculo tem na música (clássica, popular e jazz) o elemento chave na evolução das cenas.

Finalmente, o grupo de Teatro de Jovens da Escola da Vila encerra a programação com um auto teatral contando a história de Pirenópolis reinventada pelo grupo a partir dos relatos e memórias do Mestre Griô Bastião de Chica, atualmente com 92 anos de idade.

(foto: Flogão Circo Rebote)

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol