Passeios noturnos a pé desafiam “histeria de violência” no Rio
Um professor e um grupo de alunos do Instituto de Geografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) tomou para si uma tarefa: reconquistar o direito e o prazer de andar a pé pela capital fluminense.
Há oito anos, desenvolvem o projeto Roteiros Geográficos do Rio, no qual promovem caminhadas gratuitas pela cidade, “redescobrindo” seus marcos, sua beleza, suas histórias.
“O Rio foi capital da colônia, do império, da república; tem muitos lugares aqui a serem visitados”, afirma o idealizador e coordenador do projeto, professor João Baptista de Mello.De três anos para cá, também foram criados roteiros noturnos, um passo a mais para enfrentar o que a equipe chama de “sensação de violência”.
- O Rio não é uma cidade mais violenta do que as outras no Brasil. O que existe é uma histeria por causa de uma campanha, que é feita há quase 30 anos, contra a cidade. Começou com a briga de um governador com um canal de televisão e continua até hoje. Queremos apresentar outras faces da cidade para a população - argumenta João Baptista.
Para sustentar a sua posição, o professor utiliza o exemplo de uma de suas pesquisadoras, Melissa Anjos, que mora a 30 km do centro da cidade e sempre vai para casa de ônibus, à noite, após a equipe encerrar as atividades.
- Temos esse depoimento pessoal. Ela nunca foi assaltada, nunca aconteceu nada com ela. Também nunca aconteceu nada com os grupos durante os roteiros. Essa cidade não é apenas rica, ela é de paz. O problema não é a violência e, sim, o medo - afirma.
O grupo de pesquisadores já desenvolveu 11 roteiros de passeios a pé pelo Rio de Janeiro - cinco diurnos e seis noturnos -, a maioria no centro da cidade.
A dinâmica das caminhadas é simples e eficiente. Há um ponto de encontro onde é aguardada a chegada de todos os participantes. “São em média 50, 60 pessoas, que é o número ideal para que eu não fique me esgoelado. Mas às vezes aparecem até 120 pessoas”, conta João Baptista.
Uma vez em movimento, o cortejo faz diversas paradas, onde o professor João Baptista faz comentários relacionados à história, estilos arquitetônicos e artísticos, influências religiosas “e até fofocas” daquele lugar.
- Tem gente que nunca entrou numa dessas igrejas e fica deslumbrado. As pessoas se sentem gratificadas porque são detalhes dessa cidade bela, dadivosa, que não observam no dia-a-dia. Até os estrangeiros sabem disso: a Revista Forbes recentemente elegeu o Rio como a cidade mais feliz do mundo, à frente de Sidney e Barcelona. Se ela é feliz assim, vamos desfrutar dessa felicidade, não é mesmo? - provoca o coordenador do projeto.
A cada mês, o grupo de pesquisa elabora a agenda do mês seguinte. Em setembro, uma programação especial voltada aos passeios noturnos.
Todos os seis roteiros serão executados neste mês, a começar por “Caminhando por entre as Luzes no Centro do Rio à Noite” hoje, a partir das 20h, com encontro marcado nos degraus da Casa França-Brasil.
De lá, o grupo passa pelo Centro Cultural do Banco do Brasil, pela Igreja da Candelária, pela Rua do Ouvidor, dentre várias outras. Os caminhantes ainda não têm um site específico, por isso coloquei a programação que me passaram para download.
O professor João Batista destaca um desses roteiros em especial, a visita à Vila Aliança, um bairro popular da zona oeste da cidade.
- É uma das zonas mais pobres do Rio. Um bairro proletário, criado para as pessoas que moravam nas favelas, que tem um outro lado que as pessoas não conhecem. Tem um comércio dinâmico, um vigor, um pulsar extraordinário. E é isso que estamos querendo mostrar - diz.
E você, que tal passear a pé pelo Rio de Janeiro? Quem topar, manda fotos da(s) caminhada(s) aqui para o Blog das Ruas. Queremos saber como foi.








