Terra Magazine

8 de setembro de 2009

Passeios noturnos a pé desafiam “histeria de violência” no Rio

Um professor e um grupo de alunos do Instituto de Geografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) tomou para si uma tarefa: reconquistar o direito e o prazer de andar a pé pela capital fluminense.

Há oito anos, desenvolvem o projeto Roteiros Geográficos do Rio, no qual promovem caminhadas gratuitas pela cidade, “redescobrindo” seus marcos, sua beleza, suas histórias.

“O Rio foi capital da colônia, do império, da república; tem muitos lugares aqui a serem visitados”, afirma o idealizador e coordenador do projeto, professor João Baptista de Mello.De três anos para cá, também foram criados roteiros noturnos, um passo a mais para enfrentar o que a equipe chama de “sensação de violência”.

- O Rio não é uma cidade mais violenta do que as outras no Brasil. O que existe é uma histeria por causa de uma campanha, que é feita há quase 30 anos, contra a cidade. Começou com a briga de um governador com um canal de televisão e continua até hoje. Queremos apresentar outras faces da cidade para a população - argumenta João Baptista.

Prof. João Baptista de Mello (centro), durante uma das caminhadas

Prof. João Baptista de Mello (centro), durante uma das caminhadas

Para sustentar a sua posição, o professor utiliza o exemplo de uma de suas pesquisadoras, Melissa Anjos, que mora a 30 km do centro da cidade e sempre vai para casa de ônibus, à noite, após a equipe encerrar as atividades.

- Temos esse depoimento pessoal. Ela nunca foi assaltada, nunca aconteceu nada com ela. Também nunca aconteceu nada com os grupos durante os roteiros. Essa cidade não é apenas rica, ela é de paz. O problema não é a violência e, sim, o medo - afirma.

O grupo de pesquisadores já desenvolveu 11 roteiros de passeios a pé pelo Rio de Janeiro - cinco diurnos e seis noturnos -, a maioria no centro da cidade.

A dinâmica das caminhadas é simples e eficiente. Há um ponto de encontro onde é aguardada a chegada de todos os participantes. “São em média 50, 60 pessoas, que é o número ideal para que eu não fique me esgoelado. Mas às vezes aparecem até 120 pessoas”, conta João Baptista.

Uma vez em movimento, o cortejo faz diversas paradas, onde o professor João Baptista faz comentários relacionados à história, estilos arquitetônicos e artísticos, influências religiosas “e até fofocas” daquele lugar.

- Tem gente que nunca entrou numa dessas igrejas e fica deslumbrado. As pessoas se sentem gratificadas porque são detalhes dessa cidade bela, dadivosa, que não observam no dia-a-dia. Até os estrangeiros sabem disso: a Revista Forbes recentemente elegeu o Rio como a cidade mais feliz do mundo, à frente de Sidney e Barcelona. Se ela é feliz assim, vamos desfrutar dessa felicidade, não é mesmo? - provoca o coordenador do projeto.

A cada mês, o grupo de pesquisa elabora a agenda do mês seguinte. Em setembro, uma programação especial voltada aos passeios noturnos.

Todos os seis roteiros serão executados neste mês, a começar por “Caminhando por entre as Luzes no Centro do Rio à Noite” hoje, a partir das 20h, com encontro marcado nos degraus da Casa França-Brasil.

De lá, o grupo passa pelo Centro Cultural do Banco do Brasil, pela Igreja da Candelária, pela Rua do Ouvidor, dentre várias outras. Os caminhantes ainda não têm um site específico, por isso coloquei a programação que me passaram para download.

Alguns roteiros noturnos valorizam a iluminação das edificações da cidade

Alguns roteiros noturnos valorizam a iluminação das edificações da cidade

O professor João Batista destaca um desses roteiros em especial, a visita à Vila Aliança, um bairro popular da zona oeste da cidade.

- É uma das zonas mais pobres do Rio. Um bairro proletário, criado para as pessoas que moravam nas favelas, que tem um outro lado que as pessoas não conhecem. Tem um comércio dinâmico, um vigor, um pulsar extraordinário. E é isso que estamos querendo mostrar - diz.

E você, que tal passear a pé pelo Rio de Janeiro? Quem topar, manda fotos da(s) caminhada(s) aqui para o Blog das Ruas. Queremos saber como foi.

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28 de julho de 2009

PM de Alagoas invade terreiros de candomblé

Em seis ocasiões apenas neste ano, terreiros de candomblé de Maceió foram invadidos por policiais militares, que interromperam os cultos religiosos e ameaçaram confiscar instrumentos, caso as batidas sagradas não fossem interrompidas.

- Isso aconteceu em seis terreiros diferentes, nos bairros de Vergel, Ponta Grossa, Benedito Bentes, aqui em Maceió. Já chegaram a algemar um pai de santo, mas isso foi no ano passado - conta Paulo Silva, presidente da Federação de Zeladores de Culto Afro.

Povo de santo e OAB tiveram reunião com o comando da pol�cia militar

Representantes do povo de santo e da OAB tiveram reunião com o comando da polícia militar de Alagoas

A fim de denunciar os casos de intolerância religiosa e violência policial, vários representantes de entidades ligadas aos cultos afrobrasileiros reuniram-se na sexta-feira passada (24/7) com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Alagoas, Gilberto Irineu de Medeiros.

- Esses episódios são uma afronta ao Estado de Direito. Vão totalmente contra a constituição. São um desrespeito e um cerceamento à liberdade de culto e de crenças. É resultado da ignorância, do despreparo e da falta de conhecimento jurídico, humano e técnico da polícia estadual - brada o advogado.

Por sugestão de Medeiros, foram reunir-se também com o comandante da polícia militar no Estado de Alagoas. No encontro, além de cobrar uma investigação acerca do ocorrido, ficou acertado que as religiões de matriz africanas passariam a integrar a formação dos policiais.

- O comandante acolheu nossas sugestões de incluir o sincretismo religioso e as religiões de matriz africana na formação de praças e de oficiais. Também vai reorientá-los em relação ao tratamento de terreiros. Quanto às denúncias, ele disse para aguardar informações dos comandantes da capital e do interior sobre ações policiais em terreiros - explica o presidente da comissão de direitos humanos da OAB.

"Violência é resultado da ignorância, do despreparo e da falta de conhecimento da PM"

"Violência é resultado da ignorância, do despreparo e da falta de conhecimento da PM"

Gilberto Irineu de Medeiros explica que, caso as entidades ligadas ao candomblé tivessem formalizado a denúncia na OAB, a Ordem já haveria acionado o Ministério Público e a corregedoria da polícia militar.

Entretanto, como foi um queixa informal, ambas as partes optaram por um contato com o comandante geral da PM.

- Mas se isso se repetir, a OAB entrará fortemente em ação. Não tenha dúvida que agirei de imediato - garante.

(fotos: Jornal Gazeta de Alagoas [1]; OAB/AL [2])

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2 de junho de 2009

RJ: Mostra artística exibe “outra face” do Morro do Alemão

Conseguir ser vista com outro foco, além da violência. Essa “mudança de canal” é um desejo quase unânime das comunidades que habitam as favelas brasileiras.

No último sábado, 30 de maio, o Morro do Alemão concretizou esse desejo. A sexta edição do Circulando - Diálogo e Comunicação na Favela reuniu mais de 500 pessoas, entre moradores e visitantes num clima seguro e totalmente descontraído, derrubando o estigma de que nos espaços populares a cultura e o lazer sucumbem à violência.

- Para a mídia, a favela é uma e para mim, que sou moradora, é outra. A gente aprende a se acostumar com a rotina da favela. Nem tudo aqui é ruim como dizem. A convivência com as pessoas, as amizades são completamente diferentes lá de baixo. Aqui a gente dá um grito e aparece alguém para ver o que está acontecendo. Lá embaixo é diferente. A pessoa morre dentro de um apartamento e só vão ver depois que o cheiro começa a incomodar. A favela é esquecida - dá o tom Rogéria Pereira de Souza, 42 anos, moradora do Alemão.

O Circulando começa logo pela manhã (10h) e dura até meia noite. A Avenida Central, principal acesso para o Morro do Alemão, é o palco de uma mostra que inclui música, graffiti, teatro, capoeira, maculelê, audiovisual, fotografia e artes circenses.

O maculelê foi uma das atrações do 6o. Circulando

O maculelê foi uma das atrações do 6o. Circulando

Na parte da manhã, um mutirão de grafiteiros da Oficina de Graffiti da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro começa a transformar os muros das casas da comunidade em grandes telas.

O trabalho de grafitagem é uma atividade já tradicional nas edições passadas do Circulando. “Depois da terceira edição, os moradores já nos procuravam para ceder seus muros e portões para serem grafitados. A comunidade está aderindo e participando cada vez mais”, conta Tiago Tosh, morador do Alemão, aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e um dos produtores do evento.

É com essa perspectiva privilegiada que Tosh resume a essência do projeto: “o Circulando promove a comunicação através de diversas formas. Informa a comunidade, traz coisas para cá”, diz.

O também morador do Alemão, Rubens Quaresma Brum, 52 anos, concorda com Tiago Tosh:

- O circulando é beneficio para a comunidade. O pessoal fica por aqui só com pensamentos negativos aí, quando tem um evento desse tipo, tem que aproveitar. E ajuda as crianças a terem um pouco de lazer. Normalmente alugo minha laje para festas. Mas sempre empresto a laje para que sejam feitas as oficinas de pin hole para as crianças - conta.

Para seu Rubens, “favela é um bairro igual a qualquer um. As pessoas moram na favela por necessidade, se bem que alguns tem condições de morar fora, como é meu caso, mas não saem daqui. Eu me sinto mais seguro e a vontade morando aqui”.

A tranquilidade do evento contrasta com a imagem de violência, sempre presente na grande m�dia

A tranquilidade do evento contrasta com a imagem de violência, sempre presente na grande mídia

Já na parte da tarde, um dos pontos altos do evento, a Orquestra Voadora desce a ladeira da Avenida Central arrastando um aglomerado de moradores e visitantes.

Num bloco improvisado, o público se mistura aos músicos da Orquestra, ao som de canções de Tim Maia a Jimi Hendrix, tocadas por trombones, trompetes, muita percussão e coreografias contagiantes.

Também animam a platéia a banda Diversatividade; o reggae de Pangea e Alforria; o grupo de samba PC do Repique e a rapper Jamille.

Quem não está dançando, fotografa com pin hole, vê fotografias de autores locais, joga capoeira, assiste a vídeos ou a esquetes teatrais.

“O que a gente encontra muito nas comunidades é a invisibilidade dos projetos existentes”, relata a assessora da Secretaria, Ivete Miloski, que subiu a Avenida Central para observar in loco o evento.

No Circulando, todos querem participar do arrastão

No Circulando, todos querem participar do arrastão

O 6° Circulando é organizado pelo Núcleo de Comunicação Crítica do Alemão - um coletivo que cria instrumentos de comunicação para intervir nas comunidades do Complexo do Alemão; com apoio do Observatório de Favelas e do Grupo Sócio-Cultural Raízes em Movimento.

Conta também com o patrocínio da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e a parceria das instituições Verdejar e Redes.

Aconteceu pela primeira vez em maio de 2007. Desde então, seis eventos se seguiram, sempre em diferentes locais da comunidade, reunindo muita gente, entre crianças, jovens e adultos, para apreciar e fazer arte no Alemão, mostrando que, às vezes, um morro inteiro pode ser invisível.

Colaborou para esta matéria Talitha Ferraz, jornalista formada na PUC-Rio e mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Talitha trabalha na Comunicação Institucional do Observatório de Favelas, é carioca e tem 27 anos.

(fotos: Rosilene Miliotti)

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18 de fevereiro de 2009

BA: Carnaval tem disk-denúncia para racismo

Tags:, , , , - iurirubim às 19:05

A partir desta quinta-feira (19/2), começa a funcionar na capital baiana o disk-denúncia 156 para relatar atos de racismo ou violência contra a mulher.

Este é o quarto ano consecutivo em que o serviço é disponibilizado pela prefeitura aos foliões, juntamente com o Observatório da Discriminação Racial e da Violência contra a Mulher.

Iniciativa da Secretaria Municipal de Reparação (SEMUR), o Observatório surgiu em 2006. No carnaval do ano anterior, na capital baiana, foi identificado que, das quase quatro mil vítimas de violência por causas externas (agressões físicas, armas brancas e de fogo), mais de 70% eram negras.

Apenas em 2007, o Observatório registrou 422 ocorrências de racismo ou violência sexista.

As denúncias cadastradas no Observatório são encaminhadas para gestores dos órgãos parceiros como Polícia, Ministério Público, Defensoria Pública, dentre muitos outros, visando acelerar a resposta às agressões.

As denúncias podem ser feitas pelo Disque 156 ou em um dos postos do Observatório da Discriminação Racial e da Violência contra a Mulher, cuja sede fica no prédio da Secretaria Municipal de Reparação, Ladeira de São Bento, nº 74.

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